Friedrich Hegel - Coleção Educadores
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Disciplina:HISTORIA DA FILOSOFIA III25 materiais75 seguidores
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Na instância formadora da política, a humanidade do recém-che-
gado à vida adulta irá, sem dúvida, mais longe do que a sua vida
cidadã; com dois poréns que a condicionam simultaneamente. A pri-
meira condição: contanto que, na tensão entre as instâncias
infrapolíticas e as suprapolíticas, o adulto formando não se contente
com as rotas de fuga que, abstratamente, acenam para que ele se
torne um enésimo candidato à evasão. Sirva aqui, à guisa de
contraexemplo, a negação abstrata e a oposição-não-real que se
podem esboçar a partir da subcultura de massas, mais especifica-
mente, no caso da crescente ficcionalização da realidade. Hegel, quan-
do se pôs a pensar na passagem da Revolução Francesa para o solo
alemão, apresentou seu espectro de modo singular: na suprema
ambivalência dessa passagem, a “irrealidade” assumira, com efeito,
o lugar do “verdadeiro”.76 Hoje, quando a contrarrevolução se quer
permanente e mesmo o empenho por reformas estruturais, via de
regra, carece do sopro da utopia, as distopias midiáticas, esse misto
de pequenas rebeldias e adesões colossais, parecem ter se tornado
ocupantes do lugar outrora reservado ao justo, ao belo e ao verda-
deiro: não é impossível que jamais sejam representadas como apare-
lhos de entretenimento imperial, ou ainda, expostas como videologias.77

Segunda condição: a humanidade do formando vai mais lon-
ge do que sua cidadania, contanto que, tendo-se demorado nessa
instância de alfabetização política para adultos, saiba então reco-
76 Cf. Fenomenologia do espírito; ed. cit., v. 2, p. 100, § 595.2.
77 Cf., de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl, Videologias: ensaios sobre televisão; São
Paulo, Boitempo Editorial, 2004.

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nhecer, nas dimensões coextensivas ao chamado “espírito objeti-
vo” – na família e na escola, na sociedade e no estado –, instâncias
formadoras, necessárias e limitadas; e, precisamente por que se
mostram insuficientes, não deixariam de impelir o ser do forman-
do a elevar-se acima de si mesmo. Na Arte, na Religião e na Filo-
sofia, delineiam-se, justamente, aquelas instâncias suprapolíticas e
trans-históricas, em que a nova estrutura da sensibilidade e a dis-
posição ética do espírito dariam voz a seu próprio sentimento do
mundo. Assim, nessas regiões coextensivas ao “espírito absoluto”,
elevadas e hoje quase proibitivas, poderia o formando encontrar-
se junto a si mesmo. Saber-se, afinal, em casa.

Novos aspectos de Emílio

Como sói resultar de notas demasiado breves, é de se esperar
que o leitor termine com um sentimento de insatisfação. Para
mostrarmos descontinuidades e avessos do texto hegeliano, pro-
pusemos um prisma a partir do qual ele pudesse refratar-se em
país adverso; deixamos de lado, deliberadamente, a análise dos
descompassos entre a amplitude das estratégias pedagógicas e as
especificidades das táticas didáticas; não rememoramos momen-
tos exemplares da vasta tradição de vidas paralelas, em que coube,
à figura do filósofo, a tarefa de reeducar o tirano e a si mesmo,
formar o general e futuro imperador, fazer-se conselheiro dos
césares ou dos imitadores de Cristo, preceptor da aristocracia ou
de herdeiros que, fossem regentes ou delfins, disputariam o trono
ungido com um direito dito divino. Ficará, pois, o leitor entregue
a si mesmo, com a impressão de havermos mostrado apenas o
vestíbulo, sem ingressar no interior da casa.

E mesmo dentro das molduras aqui estabelecidas, teria sido
oportuno desenvolver certas reapropriações alemãs dos códigos que
reconfiguram a individualidade moderna. Mostrar, por exemplo,
como elas afirmam a destinação histórico-social e política da prole

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de Emílio e Sofia, casal cuja vida Rousseau preferiu recolher numa
ilha. Ou ainda, investigar como os princípios que desenhavam o tipo
expressivo de um homem integralmente formado foram transpos-
tos e remanejados, da estrutura em crise do jusnaturalismo, para
uma arquitetônica do saber fenomênico, em que a dinâmica do indi-
víduo moderno enveredou pelas trilhas de uma autodeterminação
conceitual. Teria sido preciso mostrar, e não apenas indicar, de que
maneira a elaboração hegeliana acompanha o “sentido moderno do
romanesco”, critica a exaltação romântica da paixão amorosa e as-
siste, no decursus vitae dos indivíduos divididos, às tendências para a
sua conversão filistina78. Talvez evitássemos, desse modo, a surpresa
ou o escândalo de uma constatação subjacente mas quase visível a
olho nu, a de que o “ideal” do humanismo integral, intercindido,
desapareceu. Que, em pedagogia, a formação vai mais longe do
que a pedagogia.

Só de relance o leitor terá entrevisto, ademais, desdobramen-
tos da exigência hegeliana, endereçados para uma efetiva realiza-
ção da Filosofia.79 Processo cumulativo do moderno, decomposi-
ção ultramoderna do “espírito absoluto” e desvalorização con-
temporânea de seu valor? – Daí a persistência em sugerir que, na

78 Aqui, todavia, pode-se assinalar uma pista para inteligir essa reversão moderna do

“heroísmo”, em que, de resto, o andamento prosaico não é desculpado em favor do

cabimento bem pensante: “por mais que alguém tenha combatido o mundo, tendo sido

empurrado para lá e para cá, por fim ele encontra, na maior parte das vezes, contudo, sua

moça e alguma posição, casa-se e também se torna um filisteu [ein Philister] do mesmo

modo que os outros; a mulher se ocupa do governo doméstico, os filhos não faltam, a

mulher adorada, que primeiramente era única, um anjo, se apresenta mais ou menos

como todas as outras, o emprego dá trabalho e aborrecimentos, o casamento é a cruz

doméstica, e assim se apresenta toda a lamúria dos restantes” (G.W.F. Hegel, Estética;
São Paulo: Edusp, 2000; v. 2, p. 329).
79 Nas palavras de Vittorio Hösle: “Na ala esquerda da escola hegeliana, que desenvolveu

a concepção de uma necessária realização da filosofia possuída de inusitada radicalidade,

justamente esse efeito do pensamento hegeliano mostra, além disso, que a filosofia não

deve compreender apenas um tempo decadente: decerto não há praticamente nenhuma

filosofia que tenha exercido tanta influência sobre a realidade efetiva quanto a filosofia

hegeliana”. (O sistema de Hegel: o idealismo da subjetividade e o problema da
intersubjetividade; São Paulo, Loyola, 2007; p. 492.)

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atual formação do discernimento,80 a expressão “Hegel na sala de
aula” seja apreendida cum grano salis, devidamente colocada entre
aspas e seguida de um ponto de interrogação. Ou por outra: teria
tudo se banhado nas primeiras águas do voto piedoso da filosofia
prática e no anonimato compensatório de cidadanias cosmopoli-
tas? – Daí, também, a dificuldade em circunscrever tal universo
insinuante e multiforme. Em todo caso, a versão lacunar que aca-
ba de ser exposta não causará grandes males, se o leitor se dispuser
à leitura paciente dos textos e ao exercício indispensável da refle-
xão: com a certeza de que a “realização efetiva da liberdade” é de
fato muito mais complexa do que as limitações que assumem estas
notas, a Ausbildung, enquanto aprimoramento do senso dos extre-
mos e das proporções, convidará o educador historicamente res-
ponsável – quem sabe? – a decidir-se pela forma da ação.81

Chegando ao fim, convém retornar ao que foi sugerido no co-
meço e devolver a palavra ao professor Émile Chartier. Fiel aos
propósitos educacionais do “espírito positivo” e interessado em res-
saltar como a metafísica cristã se encarnara em politeísmos subalter-
nos, Alain não hesitava em recomendar a leitura de Chateaubriand a
seus estudantes: “Encontro, em Les Martyrs, uma bela sentença.
Eudoro, cristão, agasalha um pobre com o seu manto. ‘Sem dúvida
você acreditou’, disse a pagã, ‘que este escravo fosse algum deus
oculto?’ ‘Não’, respondeu Eudoro, ‘acreditei que fosse um homem’”.82