DO GOVERNO PROVISÓRIO AO ESTADO NOVO

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A ERA VARGAS E O DIREITO
DO GOVERNO PROVISÓRIO AO ESTADO NOVO

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A CRISE DO ESTADO OLIGÁRQUICO E A REVOLUÇÃO DE 1930
A década de 1920, no Brasil, foi marcada por agitações políticas que se desenvolveram no quadro das transformações que atingiram a estrutura socioeconômica do país e que prenunciavam o esgotamento do modelo oligárquico do Estado brasileiro cuja liderança, até 1930, foi exercida pela oligarquia cafeeira de S.Paulo em articulação com as oligarquias dos demais estados da federação (especialmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul).
A liderança paulista durante a República Velha nunca se exerceu sem contestação e nem os processos sucessórios obedeceram a um pretenso monótono acordo do “café-com-leite” (um hipotético revezamento entre políticos paulistas e mineiros no comando do executivo federal).

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No lugar de uma “política do café-com-leite”, foi o PACTO DOS GOVERNADORES (ou POLÍTICA DOS GOVERNADORES), gestado na administração de Campos Sales (1898-1902) e colocado em prática a partir da administração de Rodrigues Alves (1902-1906) que norteou as práticas políticas e administrativas do período oligárquico da Primeira República até a crise que levaria à ruptura institucional resultante da Revolução de 1930.
Uma presença mais visível, após a Primeira Guerra Mundial, dos setores médios urbanos no cenário político nacional, os ajustes, as contradições e os desgastes que se estabeleciam entre as oligarquias estaduais durante os processos de sucessão presidencial, a eclosão do movimento tenentista que, a partir de 1922 foi responsável por uma intensa agitação política (a Revolta do Forte de Copacabana, a Revolução de 1924 em S.Paulo, a Revolta do Encouraçado S.Paulo, a formação da Coluna Prestes), a crise que atingiu o capitalismo mundial em 1929 e que produziu efeitos bastante severos na economia brasileira e a derrota da Aliança Liberal (uma frente regional formada por parcelas dos setores dominantes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, associada a antigos militares rebeldes e com forte apelo aos setores populares) nas eleições de 1929, ajudaram a construir o cenário que levaria à crise final da República Velha e à Revolução de 1930.

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Com o movimento revolucionário de 1930, nasceria um novo tipo de Estado, que se mostraria diferente do Estado oligárquico, não somente pela centralização ou por um maior grau de autonomia, mas também em função dos seguintes elementos:

A atuação econômica voltada gradativamente para os objetivos de promover a industrialização;

A atuação social, tendente a dar algum tipo de proteção aos trabalhadores urbanos, incorporando-os, a seguir, a uma aliança de classes promovida pelo poder estatal;

O papel central atribuído às Forças Armadas – em especial ao Exército – como suporte de criação de uma indústria de base e como fator de garantia da ordem interna.

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Um dos resultados políticos mais significativos do movimento revolucionário de 1930 foi o afastamento da oligarquia paulista do centro do poder. Tal deslocamento, todavia, não significou que os setores sociais que se encontravam articulados e/ou associados aos vitoriosos de 30 tivessem condições de ocupar tal posição para legitimar o novo regime ou para solucionar a crise econômica.

Com a vitória da Revolução de 1930 e com a deposição do último presidente do período oligárquico da história republicana brasileira, Washington Luiz, em 24 de outubro, o poder foi exercido por uma junta governativa que transmitiria em 3 de novembro o governo ao candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1929, Getúlio Vargas, que se tornava chefe do Governo Provisório. Em 11 de outubro foi promulgado o Decreto no 19.398 que dava perfil institucional aos poderes discricionários deste cargo.

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Com a vitória da Revolução de 1930 e com a deposição do último presidente do período oligárquico da história republicana brasileira, Washington Luiz, em 24 de outubro, o poder foi exercido por uma junta governativa que transmitiria em 3 de novembro o governo ao candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1929, Getúlio Vargas, que se tornava chefe do Governo Provisório - em 11 de novembro foi promulgado o Decreto no 19.398 que dava perfil institucional aos poderes discricionários deste cargo.

Ao se definir como um regime passageiro e ao assumir o compromisso com a revisão da legislação vigente e com a recondução do país a um ambiente de normalidade legal, por via da convocação de uma assembléia constituinte, o Governo Provisório buscava assegurar sua legitimidade através do compromisso com a constitucionalização.

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Apesar da oposição de setores revolucionários do movimento tenentista ao processo de constitucionalização e ao retorno do país à normalidade legal, um código eleitoral foi promulgado através do decreto no 21.076 de 24 de fevereiro de 1932.

Este código eleitoral, além de regulamentar o alistamento dos eleitores e as eleições em âmbito federal, estadual e municipal, trazia algumas inovações bastante significativas:

A implantação do sufrágio universal direto e secreto – o voto secreto era considerado como um elemento essencial para o processo de moralização eleitoral no Brasil e se constituía em um dos pontos centrais da campanha desenvolvida pela Aliança Liberal nas eleições de 1929 em que Vargas foi derrotado por Júlio Prestes.

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 A extensão do direito do voto a todos os brasileiros, maiores de 21 anos, alfabetizados, sem distinção de sexo – a concessão de direito de voto às mulheres nas mesmas condições dos homens resultou de pressões realizadas por grupos feministas sobre o Governo Provisório que em final de agosto de 1931, através de um código eleitoral provisório, concedia voto limitado às mulheres, concessão esta que atingia apenas alguns grupos (mulheres solteiras ou viúvas com renda própria e mulheres casadas que tivessem a permissão do marido).

O estabelecimento da representação proporcional para todos os órgãos coletivos de natureza política do país – tal procedimento garantia que as minorias teriam representação no Legislativo.

O estabelecimento da representação classista que foi regulada pelo decreto 22.653 de 20 abril de 1933 e que determinava a eleição de quarenta congressistas como representantes de empregadores e empregados, escolhidos através de eleição realizada por seus sindicatos ou por associações profissionais.

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 A criação da Justiça Eleitoral composta por um Tribunal Superior no Distrito Federal, por Tribunais Regionais em todos as capitais dos estados e por juízes eleitorais nas comarcas e nos distritos, aos quais passou a caber a condução do alistamento dos eleitores, a direção dos pleitos e da apuração eleitoral, assim como a proclamação dos eleitos, retirando definitivamente de órgãos do Legislativo a faculdade de fiscalizar as eleições e de reconhecer os candidatos eleitos.

 Sob a égide do Código Eleitoral de 1932, foram realizadas as eleições para a Assembléia Nacional Constituinte (fixadas para 3 de maio de 1933, através do decreto no 21.402, que criou também a Comissão que deveria elaborar o anteprojeto da futura constituição).

 A promulgação do Código Eleitoral de 1932 representou na verdade a disposição do Governo Provisório em atender às demandas pela constitucionalização que vinham de S. Paulo, Minas e Rio Grande do Sul - permaneciam, porém, as dúvidas, sobretudo em S. Paulo, acerca da convocação das eleições para a Assembléia Nacional Constituinte e da disposição do governo em controlar os “tenentes”.

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 Após alguns incidentes, como o empastelamento do jornal Diário Carioca, pró-constitucionalização e as mortes de quatro rapazes que participavam de uma tentativa de invasão à sede de um jornal tenentista em S.Paulo, os ânimos se acirraram e, em 9 de julho de 1932, eclodiu em S.Paulo a revolução contra o governo federal.

Mesmo com o desequilíbrio entre as forças federais e as forças paulistas, a luta se arrastou por quase três meses e terminou com a derrota militar de S.Paulo - apesar da derrota militar, a questão da reconstitucionalização