DO GOVERNO PROVISÓRIO AO ESTADO NOVO

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do país defendida pelas elites paulistas vingou, e após meses de debates que se seguiram às eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, a Constituição foi promulgada em 14 de julho de 1934.

 A Assembléia Constituinte que elaboraria o texto constitucional de 1934 foi composta por 214 representantes eleitos e 40 deputados classistas, cujo quantitativo e modo de escolha foram fixados pelo Decreto no 22.653, de abril de 1933.

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 Dentre os principais aspectos que merecem destaque na análise da Constituição de 1934, podemos destacar:

 A Constituição de 1934 recepcionou o constitucionalismo social de Weimar (Constituição Alemã de 1919), fixando em nosso ordenamento jurídico os direitos sociais, sob a forma de preceitos da legislação trabalhista - na verdade, a Carta de 1934 seguiu as tendências de incorporação de dispositivos de proteção social que se encontravam presentes em constituições como a Constituição Mexicana de 1917, a própria Constituição Alemã anteriormente citada e a Constituição Republicana Espanhola de 1931.

Considerações sobre a ordem econômica e social estiveram presentes pela primeira vez em um ordenamento constitucional brasileiro – a autonomia sindical, a jornada de oito horas de trabalho, a previdência social, os dissídios coletivos, proibição da diferença de salário para um mesmo trabalho por motivos de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil, fixação do salário mínimo, repouso hebdomadário (repouso semanal), férias anuais remuneradas, indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa, regulamentação do exercício de todas as profissões, reconhecimento das convenções coletiva de trabalho encontravam-se garantidos em legislação trabalhista, assim como a família passou a ser objeto de proteção especial.

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 Implantação da Justiça do Trabalho para dirimir as questões entre empregados e empregadores (em relação à Justiça do Trabalho não se aplicava o que estava disposto no Capítulo IV do Título I, referente ao Poder Judiciário).

Foi mantida a divisão tripartite dos poderes, sendo que o Executivo foi fortalecido com uma maior capacidade para decretar o estado de sítio – foi mantido o mandato de quatro anos para o presidente da República, sem direito à reeleição e a figura do vice-presidente foi abolida.

Instituiu-se o mandado de segurança como garantia de defesa de direito certo e incontestável que estivesse ameaçado ou que fosse violado por ato claramente inconstitucional de qualquer autoridade e mantiveram-se os direitos e as garantias individuais que constavam do texto constitucional de 1891.

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 O Legislativo manteve-se bicameral, apesar de um certo esvaziamento das prerrogativas do Senado Federal em matéria legislativa, o que de certa forma foi compensado com a atribuição de funções de perfil mais federativo, tais como a promoção da coordenação dos poderes federais entre si, a manutenção da continuidade administrativa, a guarda da Constituição, a colaboração na elaboração de leis e a prática de atos que fizessem parte de sua competência.

Uma interessante competência atribuída ao Senado pela Carta de 1934, e que teria se constituído em uma curiosa reminiscência do Poder Moderador, consistia na fiscalização da legalidade dos regulamentos expedidos pelo Poder Executivo e na suspensão da execução dos dispositivos ilegais - tal competência dizia respeito não somente a uma função política, mas também a uma função jurisdicional.

A União foi autorizada a monopolizar determinadas indústrias ou atividades econômicas por força do interesse público, ao mesmo tempo em que condicionou o aproveitamento industrial das minas e das jazidas minerais, bem como das águas e da energia hidráulica a autorização ou concessão federal – estabeleceu uma separação entre a propriedade do solo e a propriedade das riquezas do subsolo.

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 O tema da segurança nacional aparecia pela primeira vez nesta constituição - tudo o que dissesse respeito à segurança nacional seria examinado pelo Conselho Superior de Segurança Nacional, sob a presidência do Chefe do Executivo federal e dele fazendo parte os Ministros de Estado, o Chefe do Estado-Maior do Exército e o Chefe do Estado-Maior da Armada.

Dentre as disposições relacionadas às questões de segurança nacional previstas na Constituição de 1934, podemos destacar a obrigatoriedade do serviço militar, tornando as obrigações definidas em texto legal para com a segurança nacional em pré-requisitos essenciais para o exercício de função pública por parte de qualquer brasileiro.

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 A Constituição de 1934 teve uma vigência efêmera - cerca de três anos após a entrada em vigor desta constituição, ela era substituída pela carta constitucional de 1937, que na verdade, segundo Francisco Campos teve valor puramente histórico.

Para Bonavides e Paes de Andrade (1991, 3ª edição), a Constituição de 1934 teve uma vigência de curta duração por se mostrar dúbia, uma verdadeira colcha de retalhos, marcada por indecisões e ambigüidades – de um lado um liberalismo que deitava raízes nas formulações da carta de 1891 e que se manifestava no capítulo das liberdades e garantias individuais, nas eleições livres, no voto universal, na livre organização dos partidos, na autonomia dos poderes, dos estados e dos municípios e de outro lado uma forte tendência centralizadora, plasmada na ampliação das atribuições do Poder Executivo, aliada a uma regulação de todas as instâncias do corpo social e a uma maciça intervenção do Estado na economia.

Apesar de efêmera, a carta de 34 imprimiu a marca social dos direitos do homem, tendo sido, todavia, colhida no roldão das agitações políticas que sacudiram o país e que prepararam o caminho para o golpe do Estado Novo.