O DIREITO NA REPÚBLICA VELHA

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apenas os JUIZADOS FEDERAIS, sendo sua lotação por Estado distribuída da seguinte forma: 1 juiz seccional, 3 juízes substitutos e 3 juízes suplentes.
Os Tribunais de Relação das Províncias passavam a Tribunais de Justiça dos Estados (19 Tribunais), como órgãos de cúpula da Justiça Comum Estadual. ostentando, inicialmente, as mais variadas denominações:
A República manteve os juízes de direito (que no Rio Grande do Sul eram denominados de Juízes de comarca), os juízes municipais (denominados em alguns Estados como juízes distritais), os tribunais do júri e os juízes de paz (que continuavam sendo eletivos).

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 A justiça estabeleceu-se em DOIS NÍVEIS: a justiça federal e as justiças estaduais, além do Supremo Tribunal Federal.
 A justiça federal (os juízes e os tribunais federais) julgariam causas fundadas na Constituição e as de interesse da União.
 O STF julgaria ORIGINARIAMENTE os crimes comuns do Presidente e de quaisquer ministros, dos ministros diplomáticos, causas entre União e Estados, conflitos entre juízes federais ou entre estes e os juízes estaduais.
 Julgaria em GRAU DE RECURSO, as causas julgadas pelos juízes e tribunais federais, competindo-lhe a revisão criminal e em RECURSO EXTRAORDINÁRIO, as decisões dos tribunais e dos juízes dos Estados quando se discutisse a vigência e a validade de leis federais negadas por alguma justiça estadual, as divergências entre tribunais estaduais e questões de Direito Criminal ou Civil Internacional.
 O controle da constitucionalidade era difuso, mas a declaração de inconstitucionalidade de leis e decretos somente se produzida para casos concretos – a justiça não revogava nem declarava uma lei inconstitucional ERGA OMNES, como pode fazer hoje.

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UMA SÍNTESE IMPORTANTE...
 A constituição de 1891 estabeleceu a federalização do poder (que abriria caminho para o fortalecimento dos poderes locais, fortalecimento este que se consubstanciou no POLÍTICA DOS GOVERNADORES, definido na gestão de Campos Sales), promoveu a separação entre Igreja e Estado, eliminou o Conselho de Estado e o contencioso administrativo – do ponto de vista tributário estabeleceu-se uma divisão de tributos entre a União e os Estados, determinando-se que os Estados escolheriam alguns de seus impostos para os Municípios.

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 Durante a década de 1920, a desilusão com o regime republicano da Constituição de 1891 era muito grande em virtude do seguinte quadro:
A mentira eleitoral resultante das práticas dos “currais eleitorais” e do “voto de cabresto”, agravada pelas “degolas” que ocorriam na apuração no Congresso.
As intervenções federais pretensamente baseadas no Art. 6º da Constituição – em muitos casos, intervenções militares.
O revezamento (pelo menos, em tese) entre Minas e São Paulo no comando do executivo federal.
Os acordos resultantes da “política dos governadores” em que os chefes locais fraudavam os resultados das eleições federais e estaduais e em troca os governadores lhes retribuía com nomeações de delegados e subdelegados, juízes de paz, professores e outros cargos com que garantiam seu poder, protegendo os apaniguados e perseguindo os adversários.

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 Com o desencanto com a ordem constitucional de 1891, ganhou força um movimento revisionista (onde se destaca a figura de Rui Barbosa) que buscava corrigir os defeitos da Constituição de 1891, em prol da democracia e do liberalismo.
 A iniciativa da revisão coube a Artur Bernardes em 1926 e que se mostrou tímida (restrição da aplicação do HABEAS CORPUS à proteção ao direito de ir, vir e permanecer sem que se estabelecessem outros remédios jurídicos mais rápidos que garantissem outros direitos individuais, permissão de veto parcial nas votações de projetos de leis e submissão dos vencimentos dos juízes aos impostos gerais).
 Com a crise mundial iniciada em 1929 e com o desgaste das instituições da República Velha, esta etapa da história republicana brasileira seria superada pelo regime instalado com a Revolução de 1930.

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O DIREITO PENAL NO CÓDIGO DE 1890
 As leis penais sofreram sensíveis mudanças ao final do século XIX em razão da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República. Este último acontecimento histórico interrompeu um trabalho que ia caminhando no Parlamento para alterar o código anterior. Leis avulsas haviam eliminado, por exemplo, as penas de galés e reduziram para 30 anos o que antes era prisão perpétua.
Sob a denominação de Código Penal, em 11 de outubro de 1890 foi promulgado o novo diploma, com o Decreto 847.
A estrutura desse código, com 412 artigos, estava assim estabelecida: Livro I — Dos crimes e das penas (art. 1º a 86); Livro II — Dos crimes em espécie (arts. 87 a 363); Livro III — Das contravenções em espécie (arts. 364 a 404); Livro IV — Disposições gerais (arts. 405 a 412).

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ALGUNS ASPECTOS DO CÓDIGO PENAL DE 1890
 Nos artigos 1º e 4º o código definia os Princípios da Legalidade e da Territorialidade.
 As penas que deveriam ser aplicadas eram variadas (art. 43):
 a) prisão celular.
    b) banimento.
    c) reclusão.
    d) prisão com trabalho obrigatório.
    e) prisão disciplinar.
    f) interdição.
    g) suspensão e perda do emprego publico, com ou sem inabilitação para exercer outro.
    h) multa.
 Muitas dessas penas confundiam-se entre si, assemelhando-se muito, umas às outras.

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 Havia uma pena prevista no art. 49 e que se destinava aos menores de 21 anos e que deveria ser cumprida em estabelecimentos industriais especiais.
 De acordo com o art. 44, não haveria penas infamantes e a pena restritiva de liberdade individual não poderiam exceder a 30 anos.
Previa-se a progressão da pena (art. 50, §§ 1º e 2º) e o art. 27 estabelecia as condições de inimputabilidade:
 § 1º Os menores de 9 anos completos.
    § 2º Os maiores de 9 e menores de 14, que obrarem sem discernimento.
    § 3º Os que por imbecilidade nativa, ou enfraquecimento senil, forem absolutamente incapazes de imputação.
    § 4º Os que se acharem em estado de completa privação de sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime.
    § 5º Os que forem impelidos a cometer o crime por violência física. irresistível, ou ameaças acompanhadas de perigo atual.
    § 6º Os que cometerem o crime casualmente, no exercício ou prática de qualquer ato licito, feito com atenção ordinária.
    § 7º Os surdos-mudos de nascimento, que não tiverem recebido educação nem instrução, salvo provando-se que obraram com discernimento.

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 A defesa da liberdade para o exercício dos cultos religiosos (art. 185 e art. 186) esbarrava na criminalização do espiritismo e de algumas de suas práticas (explicitada no art. 157 – Capítulo III: Dos crimes contra a saúde pública).
No art. 261, havia a previsão do crime de falso testemunho que era penalizado diferentemente para causas cíveis (§ 1º - prisão celular, de 03 meses a 01 ano), causas criminais em depoimentos de absolvição dos acusados (§ 2º - prisão celular, de 06 meses a 02 anos) e causas criminais em depoimentos de condenação (§ 3º - prisão celular, de 01 a 06 anos).
 O Título VIII tratava DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA DA HONRA E HONESTIDADE DAS FAMÍLIAS E DO ULTRAJE PUBLICO AO PUDOR, sendo que o Capítulo I deste título tratava da VIOLÊNCIA CARNAL.

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 O art. 268 previa a punição para o crime de estupro, fazendo-se todavia uma diferenciação de penalização de acordo com a condição “sócio-moral” da mulher - se o estupro fosse cometido contra MULHER VIRGEM ou não, mas HONESTA, a pena para o acusado seria de prisão celular, de 01 a 06 anos (caput do art. 268). Se cometido contra MULHER PÚBLICA OU PROSTITUTA, a pena seria de prisão celular de 06 meses a 02 anos (§ 1º do art. 268).
 A caracterização do estupro encontrava-se fixada no art. 269, definindo os meios de que se poderia valer o agressor, além da força física, para o atingimento de suas intenções libidinosas (uso de anestésicos e narcóticos em geral, como por exemplo, o ÉTER e o CLOROFÓRMIO e de práticas de HIPNOTISMO).
O crime de adultério tinha tratamento semelhante àquele do Código