O DIREITO NA REPÚBLICA VELHA

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de 1830, estando prevista a sua punição no art. 279 – Capítulo IV: DO ADULTÉRIO OU INFIDELIDADE CONJUGAL.

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O PROCESSO HISTÓRICO DE ELABORAÇÃO DE NOSSA PRIMEIRA CODIFICAÇÃO CIVIL (O CÓDIGO DE 1916)
 Proclamada a Independência, foi promulgada a Lei de 20 de outubro de 1823 que determinou vigorassem no Império do Brasil as Ordenações Filipinas, as Leis e Decretos de Portugal promulgados até 25 de abril de 1821, até que se publicasse um novo Código;
A Constituição de 1824 expressou “a necessidade de se organizar, o quanto antes, um Código Civil e um Criminal, fundado nas sólidas bases da Justiça e da Eqüidade” - em 1830 e 1850 foram promulgados os Códigos Criminal e Comercial, respectivamente.

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Para a legislação civil, adotou-se um outro critério, o de aperfeiçoá-la em duas fases distintas: primeiro, seria feito o levantamento e a consolidação de toda a legislação vigente até ali (“formar um novo corpo, mas de direito já vigente”); a seguir, com o auxílio do que fora feito, seria elaborado o texto do novo Código Civil (“formar um corpo novo de direito novo”).

Em 15 de fevereiro de 1855, o Governo, representado pelo então Ministro da Justiça, José Tomás Nabuco de Araújo, celebrou contrato com o Bacharel Augusto Teixeira de Freitas, a quem foi concedido o prazo de cinco anos para “coligir e classificar toda a legislação pátria, inclusive a de Portugal, anterior à Independência do Império”.

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Teixeira de Freitas iniciou seu trabalho situando os limites do Direito Civil, que toma na sua significação mais rigorosa. Observou, com a nitidez que a doutrina da época não percebera, que a distinção entre o Direito Civil e o Direito Penal está na natureza da sanção.

Segundo Freitas, “não são as pessoas e as coisas que se devem distinguir, mas suas obrigações e seus direitos”.

Conclui, portanto, que “na distinção dos direitos reais, e dos direitos pessoais repousa todo o sistema do Direito Civil”.

E acrescenta que “os chamados direitos absolutos - liberdade, segurança e propriedade - entram na compreensão da legislação criminal, que os protege e assegura com a penalidade. Desses direitos, o de propriedade unicamente entra na legislação civil. É no direito de propriedade que havemos de achar os direitos reais”.

Essa limitação de matéria civil hoje certamente não teria razão de ser, pois os direitos da personalidade integram também o Direito Privado, mas o autor expressava idéia que correspondia ao desenvolvimento da ciência e a cultura naquela época histórica.

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Depois de haver realizado com pleno êxito a tarefa de promover a Consolidação das Leis Civis do Império, em 1859, Augusto Teixeira de Freitas foi contratado pelo governo imperial para elaborar o primeiro anteprojeto, contrato esse rescindido em 1872.

O Esboço de código civil elaborado por Freitas foi dividido em duas partes (uma geral e outra especial).

Na parte geral eram regulados os designados elementos do direito, quais sejam: o sujeito, o objeto e o fato jurídico.

Na parte especial (subdividida em três livros), encontra-se a disciplina sobre os direitos pessoais e os direitos reais.

Não poderiam ser esquecidas, ainda, a influência do privatismo doméstico e as condições sociais, ou melhor, a estrutura social brasileira, ao tempo da elaboração do Código - Teixeira de Freitas almejava em seu projeto de Código Civil a incorporação do direito comercial no direito civil.

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Seguiu-se a contratação de Nabuco de Araújo, que veio a falecer em 1878, prosseguindo os trabalhos de redação com Felício dos Santos.

Com a Proclamação da República, a tarefa de redação do código foi conferida ao senador Coelho Rodrigues, cujo projeto não foi aceito. Por fim, em 1899, foi contratado Clóvis Beviláqua, redator do texto que viria a se transformar no Código Civil Brasileiro.

O Código Civil de 1916 reproduzia as concepções predominantes ao final do século XIX e início do século XX. Hoje, ante o novo diploma civil, a maior parte desses entendimentos encontra-se ultrapassada, uma vez que estavam baseados no individualismo então reinante, especialmente no que respeita ao direito de propriedade e à liberdade de contratar – refletia, na verdade, o ambiente liberal-conservador que marcava a sociedade brasileira naquele período.

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Pelo Código Civil de 1916, a FAMÍLIA apresentava um perfil transpessoal, hierarquizada e patriarcal, tendo ocorrido a incorporação de princípios morais, dando-lhes conteúdo jurídico.

Pode-se dizer, com isso, que o Código manteve-se fiel à tradição e ao estado social, conservando a indissolubilidade do matrimônio, o regime de comunhão universal e a legítima.

Em vários dispositivos do Código, o homem se apresentava como o “cabeça do casal”, cabendo à a mulher função de colaboração do marido no exercício dos encargos da família, cumprido a ela velar por sua direção material e moral .

O casamento do menor de 21 anos necessitava do consentimento de ambos os pais, mas, no caso de haver discordância, prevalecia a vontade paterna. O que configurava uma posição privilegiada da figura masculina na sociedade conjugal.

A mulher era considerada relativamente incapaz (art. 6°, II), de modo que, muitas mulheres sequer chegaram a ser capazes durante toda sua vida, pois como poderiam casar-se a partir dos dezesseis anos e só adquiririam a capacidade aos 21 anos, aquelas que casaram antes dessa idade não chegaram a possuir a capacidade plena.

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O Código apresentava o INSTITUTO DA PROPRIEDADE em termos absolutos e o INSTITUTO DO CONTRATO sob a perspectiva LIBERAL.

 Apesar do caráter absoluto da propriedade, o Código Civil de 1916, no campo destinado ao direito de vizinhança, algumas limitações a esse direito:

o proprietário, ou inquilino de um prédio teria o direito de impedir que o mau uso da propriedade vizinha pudesse prejudicar a segurança, o sossego e a saúde dos que o habitam (art. 554).

O dono do prédio rústico, ou urbano, que se achasse encravado em outro, sem saída pela via pública, fonte ou porto, teria o direito de reclamar do vizinho que lhe deixe passagem forçada (art. 559).

Outro artigo, que implicava em limitação ao direito de propriedade, é o 572, pois o proprietário poderia levantar em seu terreno as construções que lhe aprouvesse, salvo direito dos vizinhos e os regulamentos administrativos.

No que se referia ao CONTRATO, na doutrina liberal do século XIX, este tinha, como direção, o dogma da AUTONOMIA DA VONTADE, sem limites. As partes poderiam livremente estipular o conteúdo das cláusulas contratuais, que o tornava obrigatório. Não se levava em conta o desequilíbrio na formação ou na execução do contrato.

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Segundo Antonio Carlos Wolkmer, o Código Civil de 1916, em que pesem seus reconhecidos méritos de rigor metodológico, sistematização técnico-formal e avanços sobre a obsoleta legislação portuguesa anterior, era avesso a grandes inovações sociais que já se infiltravam na legislação dos países mais avançados do Ocidente, refletindo a mentalidade patriarcal, individualista, e machista de uma sociedade agrária preconceituosa, presa aos interesses dos grandes fazendeiros de café, dos proprietários de terra e de uma gananciosa burguesia mercantil.
UMA OBSERVAÇÃO FINAL A RESPEITO DO CÓDIGO CIVIL DE 1916.

Lvia
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