O PERÍODO DA REGÊNCIA E DO SEGUNDO REINADO

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para reformular o aparelho repressivo oriundo do Primeiro Reinado foi a criação da Guarda Nacional.

 Em agosto de 1831 foi promulgada a lei que criava a Guarda Nacional - a idéia consistia em organizar um corpo armado de cidadãos confiáveis com capacidade de reduzir os excessos do governo centralizado e as ameaças das “classes perigosas”, ou seja, das classes populares.

 Além do controle das classes populares, a criação da Guarda Nacional refletiu a preocupação do governo brasileiro após a abdicação de D. Pedro I e das elites locais com o Exército – esta instituição mostrava-se mal organizada e formada por pessoas que eram mal pagas, insatisfeitas e propensas a se aliarem às “classes perigosas”, ou seja, ao povo, nas rebeliões urbanas.

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 Na prática, esta instituição ficou incumbida de manter a ordem no município onde fosse formada, contribuindo tanto para reafirmar o poder das elites locais, como para garantir os interesses do Estado Imperial, através do consenso entre estas elites – a Guarda Nacional era composta obrigatoriamente por cidadãos com direito de voto nas eleições primárias que tivessem de 21 a 60 anos e o alistamento obrigatório acabou desfalcando os quadros do Exército.

Até 1850, os oficiais inferiores da Guarda Nacional eram eleitos pelos integrantes da corporação, em eleição presidida pelo juiz de paz – aos poucos, o estabelecimento de uma hierarquia se sobrepôs ao princípio eletivo e as eleições se tornaram “letra morta” antes mesmo que a lei fosse mudada.

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SOBRE O CÓDIGO DE PROCESSO CRIMINAL DE 1832...
 O Código de Processo Criminal do Império alterou significativamente o direito brasileiro, pondo fim ao sistema judicial antigo derivado das Ordenações Filipinas. Na verdade, a denominação deste Código, de acordo com a lei de 29 de novembro de 1832 era “Código de Processo Criminal de primeira instância com disposição provisória acerca da administração da Justiça Civil”. Dentre as novidades introduzidas pelo Código de Processo Criminal podemos destacar:

 O modelo de investigação criminal típico das Ordenações (o processo inquisitorial) foi substituído por um JUIZADO DE INSTRUÇÃO, de perfil CONTRADITÓRIO, sob a direção de um JUIZ DE PAZ, leigo e eleito.

 Foram introduzidos o Conselho de Jurados (o Tribunal do Júri) e o recurso do HABEAS-CORPUS – havia dois conselhos de jurados: o da acusação (ou de pronúncia) com 23 jurados e o de sentença com 12 jurados.

 A primeira parte do Código reorganizou a justiça criminal, extinguindo as ouvidorias de comarca, os juízes de fora, os juízes ordinários, passando a justiça criminal a contar com os JUÍZES DE DIREITO, os JUÍZES MUNICIPAIS, JUÍZES DE PAZ e JURADOS.

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 Em nível de recurso havia as JUNTAS DE PAZ (formadas por cinco juízes de paz que apreciavam os recursos sobre as decisões dos juízes de paz) ou os TRIBUNAIS DA RELAÇÃO ou TRIBUNAIS PROVINCIAIS (para julgamento dos recursos das sentenças (revisão das decisões) dos JUÍZES DE DIREITO – para o SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA havia apenas o recurso de revista (os recursos de revista que lhe eram oferecidos, eram analisados com base exclusiva em nulidade manifesta ou injustiça notória no julgamento da causa pelas instâncias inferiores)

 Os JUÍZES DE DIREITO eram nomeados pelo imperador e tinham atuação na COMARCA e sua função principal era presidir o Conselho de Jurados (presidiam os dois júris, o de acusação e o de sentença) – eram vitalícios e deviam ser bacharéis em direito com prática de um ano no foro;

 Os JUÍZES MUNICIPAIS eram nomeados pelos Presidentes de Província, por um período de três anos, por meio de listas tríplices elaboradas pelas Câmaras Municipais, sendo escolhidos entre pessoas bem conceituadas – eram formados em direito ou podiam ser advogados de comprovada habilidade (na falta de bacharéis em direito, os Tribunais da Relação “passavam provisão” para os que tivessem conhecimento da prática forense) e sua atuação se dava nos TERMOS (subdivisões da COMARCA).

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OBSERVAÇÃO IMPORTANTE!!!
Apesar da autonomia municipal ter sofrido um revés importante com a lei de 01/10/1828 *, o Código de Processo Criminal de 29/11/1832, durante o tempo em que esteve em vigor (reformado em 1841) restabeleceu, de certa forma, a autonomia dos municípios, habilitando-os a exercer, por si sós, atribuições judiciárias e policiais, ao mesmo tempo em que ampliou os poderes dos JUÍZES DE PAZ em relação àquelas atribuições previstas na lei de implantação dos JUIZADOS DE PAZ.

 Dentre as atribuições ampliadas dos JUÍZES DE PAZ, podemos destacar:

 Competência para julgar ações cuja pena máxima não excedesse a cem mil-réis ou seis meses de cadeia.

 prender criminosos procurados pela Justiça fora de sua jurisdição.

 efetuar a formação de culpa e a pronúncia dos acusados, indicar os inspetores de quarteirão e elaborar, juntamente com os párocos locais e o presidente da Câmara Municipal, a lista dos jurados.

ATENÇÃO!!!
 Durante a assembléia constituinte de 1823 que antecedeu a Constituição de 1824, havia dois posicionamentos sobre a natureza jurídica do município: um a favor da sua autonomia e outro defendendo a função meramente administrativa do poder municipal. Mas em 01/10/1828, foi editada a lei que regulamentava o exercício das funções municipais, definindo, em seu artigo 24, "serem as câmaras corporações meramente administrativas, na exercendo jurisdição alguma contenciosa". Assim, os municípios atravessaram o período imperial sem rendas próprias para prover as suas necessidades e sem autonomia para outras resoluções que porventura surgissem.

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A ORGANIZAÇÃO DA JUSTIÇA CRIMINAL DE ACORDO COM O CÓDIGO CRIMINAL DE 1832
JUÍZES DE PAZ (nos Distritos)
JUÍZES MUNICIPAIS (nos Termos ou Municípios
JUÍZES DE DIREITO (nas Comarcas)
JUNTAS DE PAZ
CONSELHO DE JURADOS (nos Municípios)
TRIBUNAIS DE RELAÇÃO (TRIBUNAIS PROVINCIAIS)
SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA
Primeira Instância
Segunda Instância
Terceira Instância

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SOBRE O ATO ADICIONAL DE AGOSTO DE 1934...
 O Ato Adicional promulgado a 12 de agosto de 1834, resultou de um longo processo de debates que se iniciaram na imprensa e nas ruas, tendo como tema o FEDERALISMO, a partir de 1830 e em comissão especial da Câmara dos Deputados a partir de maio de 1831 que foi encarregada de elaborar uma proposta de reformas.

 O projeto inicial que ficou conhecido como “projeto Miranda Ribeiro” (proponente do projeto e membro da comissão, toda formada por liberais moderados) previa: monarquia federativa, supressão do Conselho de Estado, do Poder Moderador e do mandato vitalício do Senado, criação de assembléias provinciais e de intendentes nos municípios com funções executivas, repartição das rendas públicas em nacionais e provinciais e mudança da forma do governo regencial de REGÊNCIA TRINA para REGÊNCIA UNA, com vice-regente e eleita pelas assembléias provinciais.

 Este projeto foi enviado para o Senado em 13 de outubro de 1831, onde, depois de intensos debates, uma série de emendas acabou por derrubar o projeto Miranda Ribeiro.

 As emendas implementadas pelo Senado foram todas rejeitadas na Câmara, o que levou, em setembro de 1832, à reunião das duas casas legislativas em Assembléia Geral, o que levou a uma “solução de compromisso”, através da lei de 12/10/1832 que retirava do projeto original os seguintes itens: extinção do Poder Moderador e do Senado vitalício, a autonomia municipal e a qualificação de “monarquia federativa”. Por esta lei, as eleições para a Regência Uma seriam diretas (sem a eleição de vice-regente).

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 Como o projeto original da Câmara saiu muito modificado das negociações, uma nova comissão foi formada na Câmara (composta pelos deputados Paula Araújo, Bernardo de Vasconcellos e Limpo de Abreu) com o objetivo de elaborar um novo projeto de reformas que seria apresentado na sessão do dia 07 de junho de 1834.

 Mais uma vez, os temas polêmicos foram objeto de intensos debates entre os LIBERAIS EXALTADOS (que defendiam a ampliação das reformas descentralizadoras) e os CARAMURUS (conservadores)