Semin.09.Estadão-Sarney
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CENSURA NO ESTADÃO
A íntegra da decisão judic ial
em 22/10/2009
Em artigo publicado neste Observatório ("Estadão, censura e autocensura") a respei to da
censura sofrida pelo diário paulist a, o jurista Dalmo de Abreu Dallari afirmou que "embora a
decisão judicial seja de 30 de julho e não obstante estar dedicando grande espaço ao assunto,
diariamente, até agora o jornal não publicou o texto da decisão que proibiu a divulgação de dados".
E adiante: "Só ficou proibid a a publicação dos dados obtidos durante a investigação sigilosa. Nada
impede a publicação da decisão judicial, como também a public idade de todos os dados que forem
obtidos sobre a pessoa e os negócios de Fernando Sarney, desde que obtidos por qualqu er outro
meio que não a investigaç ão criminal sigilosa." O texto da decisão judicial vem reproduzido a
seguir.
Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Ofício GPR nº 009/GD/2009
Brasília – DF, 18 de agosto de 2009.
Referência : Mandado de Segurança nº 200900211261-7
Impetrante : Jornal O Estado de São Paulo S/A
Informante : Desembargador Relator do AGI nº 200900210738-6
Interessado : Fernando José Macieira Sarney
Relator : Desembargador Waldir Leôn cio Junior
Excelentíssimo Senhor Desembargador Relator
Em atenção ao Ofício nº 18929, da e. 2ª Câmara Cível deste Tribunal, de 14.08.2009, recebido neste
Gabinete em 17.08.2009, cumpre-me prestar a Vossa Excelência as informações relativas ao
Mandado de Segurança em epígrafe.
Cuida-se de Mandado de Segurança com pedido de li minar, impetrado em face de decisão
monocrática deste Desembargador, no Agravo de Instrumento nº 2009002010738-6, em curso na 5ª
Turma Cível deste TJDFT, este interposto em sede de "Ação Inibitória c/c pedido liminar" nº
2009011113988-3, em curso na 12ª Vara Cível do DF, proposta por Fernando José Macieira Sarney
em desfavor do Jornal O Estado de São Paulo, ora impetrante.
A decisão prolatada por esta Re latoria nos autos do Agravo de Instrumento, conced endo a
antecipação da tut ela recursal ali visada, restou vazada com os seguintes fundamentos, verbis:
"Cuida-se de agravo de instrumento interposto em face de decisão em que restou indeferido pedido
liminar visando a concessão de tu tela de natureza inibitória "para deter minar que o réu e, por via
oblíqua, os demais veículos de comunicaç ão que estão utilizando do material disponibil izado por
ele, se abstenham de publicar dados sigilosos sobre o autor con tidos na investigação polic ial em
questão", bem como a imposição de "multa (§ 5º, do art. 461 do CPC), no valor di ário de
R$300.000,00 (trezentos mil reais) em caso de descumprimento da med ida" (fl. 52), ora reprisado
nesta sede recursal.
Os fundamentos da decisão agravada estão presentes às folhas 81/85, vaz ados nos seguintes termos:
"Cuida-se da ação nomeada à epígrafe em que se busca o provimento judic ial para impedir a
publicação de matér ia jornalística a respeito de dados que estão sob o manto de segredo de justiça
em procedimento de invest igação criminal do inquérito 2007.37.00.0001752-4. Pondera haver o
receio de a divulgação das conversas telefônicas que extravasara m do inquérito polici al sigiloso
venha causar prejuízo inca lculável à honra do requeren te. Requer, em sede antecipada da tutela, a
tutela inibitóri a a fim de que o réu fosse impedido de public ar qualquer matéria ou nota jornalística
ofensiva ao autor, mediant e a cominação de mul ta diária em caso de desobediência.
Observo que o bem que o requerente busca concretizar não é o afastamento da viol ação do segredo
da justiça conferido à invest igação criminal, porquanto essa tutela, pelo cri tério de repartição de
competências, está atr ibuída à jurisdição penal. Contudo, seu intento é impedir a divulgação de
conversas colhidas em intercep tações telefônicas que poderão gerar conclusões ou convicções
ofensivas à conduta ética do requer ente ou até violar o direito de sua privacidade.
Feitas estas considerações, passamos ao exame, pois, dos pressupostos básicos do pedido de
antecipação da tut ela formulado pelo auto r.
Atento à exposição da inici al e aos documentos que a instruem, a despeito das possíveis publicações
ou divulgações de gravações telefôn icas oriundas do inquérito polic ial 2007.37.00.0001752-4
colocando em dúvida a reput ação e a conduta éti ca do requerente, observo que nosso ordenamento
jurídico estabelece, nas disposições do artigo 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federa l, que livre
é a manifestação do pensamen to e a expressão da atividade intelectual, artística, científ ica e de
comunicação, independen te de censura ou licença. Normas às quais se subsume a regulamentação
do exercício da comunic ação e liberdade de imprensa, como é a hipótese question ada nos autos.
É certo que o exercício de uma liberdade públi ca, como o da liberdade de expressão, deve estar
condicionado a certos lim ites que impedem os abusos ou violação de direitos subjetivos.
A par disso, todavia, a Constituição Federal, assegura, no artigo 220, que a liberd ade de expressão
não sofrerá qualquer forma de restrição, sendo vedado qualquer embaraço a plena liberdade de
informação jornalísti ca de qualquer veículo.
A liberdade de imprensa há de ser exercida com a final idade de resguardar o interesse público da
informação. Os desvios de finalidade, os abusos e a violação de direito devem ser punidos na forma
da lei.
A pretensão do autor de impedir de plano a circulação ou divulgação de matéri a jornalística avul ta
se como um sacrifício do direi to constitucional de informação e liberdade de imprensa que nem
mesmo a lei poderá, ao amp aro da constituição vigen te, § 1º, do artigo 220, constituir .
Salvo as regras de contenção existent es em norma de repressão penal ou med iante violação concr eta
de direitos subjetivos, poderá o autor invocar a reparação de even tuais danos que atingir a sua
honorabilidade, se for o caso.
A própria lei civil e penal já impõe seu cará ter inibitório aos abusos no exercíc io do direito de
informação, restando, a partir daí, encaminhar as sanções pert inentes em caso de descumprimento
ou violação de direitos.
Não há proporcionalidade razoáve l entre o sacrifício do direito constitucional de informação e
liberdade de imprensa e o direito individual que o Requerente quer assegurar com a obrigaç ão de
não publicar ou não informar .
Por outro lado, a divulgação das conversas te lefônicas que o requerente pret ende se acautelar
tornou-se um fato notório ampla mente divulgado por toda a imprensa adquirindo a configuraç ão de
um fato público, para o qual não se justifica a intromissão judicial para conter a exposição da mídia
ou até do próprio conteúdo da informa ção sob o argumento da tutela do direito da personalidade.
Diante dessas considerações, não há como reconhecer a verossimilhança da alegaç ão e do direito
invocado pelo autor, vez que a regra constitucional alberga plena liberdade de expressão, garantido,
por outro lado, o direito de resposta e a indenização por dano daí decorrente.
Ante estas ponderações, indefiro o pedido de antec ipação de tutela."
Com efeito, posta a questão nestes l indes, dispõe a atual redação do art. 12, do Código Civil, quanto
à possibilidade deferida ao que se sentir viol ado na esfera dos direitos da personalidad e, de "exigir
que cesse a ameaça, ou a lesão". De outro lado, não se pode olvidar a firm e orientação
jurisprudencial no sentido de que "a proteção aos sigilos bancário, telefôni co e fiscal não é direito
absoluto, podendo os mesmos serem quebrados quando houver a prevalência do direito público
sobre o privado, na apuração de fatos delituosos ou na instrução dos processos criminais" (STJ, 5ª
Turma, Resp 690877/RJ, Rel. Min. Gilson Dipp, data de public ação: 30.05.2005).
Na hipótese em exame, contudo, não se põe em questão a prerrogativa do Estado quanto ao
exercício das medidas de exc eção em face dos direitos da personalidade, notadament e o da
privacidade, na regular aplicação da lei penal, norteado tal proceder pelo inexorável inter esse
público. A bem da verdade, o que se traz a exame nesta instância jurisdicional, como visto, é a
conduta de particulares, empresa jornalística, consisten te na obtenção e ampl a divulgação de dados
obtidos por interceptação judicial de comunic ações telefônicas, velados pe lo segredo de justiça, em
atividade privada de imprensa, desprovida de qualquer ofici alidade investigatór ia, em detrimento de
pessoa submetida a medida cautelar de quebra de sigilo telefôn ico.
Importa ressaltar, por oportuno, a grande preocupação na quadra judicial, nos diversos órgãos que
compõem o Judiciário Naciona l, quanto ao estabeleci mento de severas medidas atin entes à
preservação do sigilo legal imposto a essa espécie de dados extraídos da vida privada no interesse
da investigação crimin al, a exemplo do que dispõem as recentes Resoluções editadas pelo Conselho
Nacional de Justiça – CNJ, nº 59, de 09 de setembro de 2008 e 84, de 06 de ju lho de 2009, além de
constituir crime a condu ta prevista no art. 10, da Lei nº 9296/96, consistente em "quebrar segredo
da Justiça, sem autorização judici al ou com objetivos não autor izados em lei".
O Supremo Tribunal Federal, em casos semelhantes ao ora em exame, quanto ao te ma em debate,
tem asseverado que, verbis:
"Há, deveras, risco elevado de divulgação que, sem nenhum proveito às atividades inv estigativas e
ao presuntivo interesse público que as informaria, pode importar danos gravíssimos à inti midade, à
fama e aos negócios privados do ora impe trante. A imprensa – e é fato notório – tem, em datas
muito recentes, denunciado revelações abusivas e ilíc itas de dados sigilosos colhidos no seio de
Comissões Parlamentares de Inquérito, com seqüelas pessoais gravosas e incontornáveis. Sobre