Capitulo 4
2 pág.

Capitulo 4


DisciplinaÉtica Profissional do Engenheiro58 materiais408 seguidores
Pré-visualização1 página
Grupo
\u201cÉtica Empresarial\u201d
Robert Henry Srour
A legitimação ética
Convergências e confrontações
Os padrões morais não estão suspensos em situações-limite, quando um agente sacrifica o direito do outro para garantir o seu. Neste momento cabe perguntar-se: o que a coletividade pensa disso? A legitimidade do furto famélico (ação que visa a salvar o agente de perigo atual) resulta de uma reflexão fundada na ética da responsabilidade: ainda que imoral, o ato é ético. Quando são bons os fins, aceitam-se os meios. A crença de que existe apenas uma teoria \u2013 a da ética da convicção \u2013 dificulta a percepção de que essa ação não está isenta de conotação moral.
Quando pessoas comuns falam de ética ou de moral, elas se referem à firmeza de caráter: ser ético é não abrir mão das suas convicções íntimas, ter princípios, ser um modelo de virtude e de retidão. Há clara hegemonia discursiva da ética da convicção e das morais que preside. Porém, desconhecer a existência da ética da responsabilidade ou acreditar que a teoria ética se resume à da convicção confere a esta última uma exclusividade que os fatos não sustentam. Muitas vezes as duas éticas coincidem ou se chocam de modo frontal.
A concepção de que os que seguem ordens não podem importar-se com as conseqüências delas advindas, porque isso foge à sua competência, desemboca de maneira disciplinada e quase religiosa numa ética da convicção em que se coloca a hierarquia corporativa acima dos deveres do cidadão.
A ética da responsabilidade pode ou não legitimar determinadas ações dependendo da base de apoio. É típica dos homens de ação, dos estadistas, dos políticos, dos empresários, dos administradores, dos técnicos, daqueles que põem a mão na massa, exercitam cálculos, equacionam custo e benefícios, se comprometem com o funcionamento das atividades sociais. É típica dos homens que se dispõem a cometer heresias e inovações morais, ainda que mantendo os pés no chão.
Por sua vez, a ética da convicção é típica dos homens de contemplação, dos missionários, dos pregadores, dos monges, dos crentes, dos artistas, dos cientistas, dos visionários, mas também, curiosamente, dos burocratas que convergem regras em dogmas. É típica daqueles que se comprometem com crenças ou normas, com utopias ou ortodoxias, e que estão pouco afeitos às ambigüidades e à gerência do cotidiano.
Diferentemente dos \u201cresponsáveis\u201d, que, por realismo pragmático, se vêem obrigados a tomar decisões dolorosas, a realizar ginásticas mentais e engenhosas alianças, movidos pela utilidade coletiva de suas ações, os \u201cconvictos\u201d ficam ao abrigo dos acordos políticos, não admitem trair os fundamentos originários de seu ideário, nem aceitam dobrar-se ao jogo das concessões inerentes ao processo de negociação. Mantêm imaculadas suas bandeiras e não se deixam seduzir pelas injunções do poder; combatem sem trégua, inspirados pela pureza de seus ideais; buscam o martírio pessoal em nome de valores perenes como se fossem monges guerreiros ou \u201cguevaristas\u201d, soldados da fé ou mártires do amanhã.
A ética da convicção é a preferida para ser divulgada à massa dos membros das organizações. Acomoda-se bem à sustentação da ordem estabelecida, ao respeito à disciplina e à hierarquia, assim como ao cultivo de prescrições que assegurem a perpetuidade das instituições. Quando as morais que dela derivam são introjetadas pelos subalternos, o controle sobre eles torna-se barato e seguro é bem mais fácil tratar com agentes cujos comportamentos são normalizados, visto que eles obedecem a obrigações explicitas e alimentam certezas confortáveis.
A ética da responsabilidade supõe, em contraposição, reflexões e deliberações. É preferencialmente praticada pelas cúpulas organizacionais ou pelas elites, uma vez que possibilita interpretações ou variações em torno de um tema. Aliás, há poucas morais que se moldam por ela, porque, diante de dilemas angustiantes, ela prospecta soluções possíveis e não soluções prontas.
Os agentes sociais e as organizações em que atuam têm óbvias dificuldades para manter uma direção única ao longo de suas trajetórias históricas e tendem a oscilar de uma teoria ética a outra, numa incoerência clássica que reflete contradições inerentes às suas próprias condições de existência. E pior: tendem a oscilar entre o comportamento estritamente responsável e o duvidoso. Max Weber já havia nos alertado quanto a isso quando escreveu que a ética \u201cnão é uma carruagem que se pode parar a seu bel-prazer para nela subir ou para dela descer segundo o caso\u201d. A conduta altruísta, seja qual for a teoria ética esposada, não obstante as extremas dificuldades para tanto. Pois há presunção de que a vigilância da sociedade civil não perdoaria as empresas que agissem quer de forma inidônea ou irresponsável, que de forma casuística.
As ações coletivas ou individuais, que tenham repercussões morais e que não sejam egoístas, estão inscritas na órbita de uma das duas teorias éticas em função do modo como a escolha é feita. Assim, dependendo da forma e do conteúdo que essas ações embutem, elas se filiam a uma das quatro vertentes éticas:
de princípio, quando valores e normas convertem-se em mandamentos; 
da esperança, quando ideais tornam-se exigências sagradas;
da finalidade, quando fins são considerados indispensáveis para o bem da própria coletividade;
utilitarista, quando são presumidas conseqüências amplamente favoráveis aos interesses da maior parte dos membros de uma coletividade.