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Material de Apoio- Análise Textual - Aula 1 - A LINGUAGEM

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MATERIAL DE APOIO – AULA 1 – ANÁLISE TEXTUAL
A LINGUAGEM
A linguagem é uma faculdade muito antiga da espécie humana e, segundo os estudiosos, deve ter precedido os elementos mais rudimentares da cultura material (confecção de ferramentas, armas, vestuário, etc.).
Pode-se, pois, com base nas considerações feitas até agora, definir Linguagem como um sistema de signos capaz de representar, através de alguma substância significante (som, cor, imagem, gesto), significados que resultam de uma interpretação da realidade e da categorização mental dos resultados dessa interpretação.
As chamadas Línguas Naturais, a pintura, a Música, a Dança, os Sistemas Gestuais, bem como sistemas particulares de signos tais como o Código Morse, os Mitos, os Logotipos, os Quadrinhos, são exemplos de diferentes linguagens utilizadas pelo ser humano. Algumas dessas linguagens são universais (como as Línguas Naturais e a Música, presentes em todas as culturas do mundo); outras desenvolveram-se nas chamadas culturas letradas, após o desenvolvimento e a especialização dos usos da escrita. Quando entram em jogo signos como as cores, os desenhos e as imagens de modo geral, fala-se em Linguagem Visual, em oposição a Linguagem Verbal.
Cabe observar que o que se costuma designar como “linguagem” animal (das formigas, das abelhas) não passa de um sistema de comunicação entre os membros de uma espécie. Embora muito sofisticados, tais sistemas não chegam a constituir linguagem no sentido aqui definido, uma vez que falta aos animais a consciência de que usam um sistema de signos para comunicar-se com seus semelhantes. Por essa razão, tais sistemas não podem ser vinculados a atividades cognitivas como a interpretação e representação da realidade.
Dentre os exemplos de linguagem citados, cabe destacar as Línguas Naturais (Inglês, Chinês, Francês, Português, Russo, Guarani, etc), que são sistemas de signos linguísticos.
Dado que a linguagem decorre das práticas sociais de uma cultura humana e as representa e modifica, o exercício da linguagem é atividade predominantemente social: a faculdade de representar e de interferir na realidade através do uso da linguagem é compartilhada por todos os membros de uma comunidade humana. É por isso que as linguagens desenvolvidas pelo homem pressupõem conhecimento, por parte de seus usuários, do valor simbólico dos seus signos. Se não houvesse acordo com relação a esse valor (ou seja, se não fosse possível, para todos os usuários de uma mesma forma de linguagem, identificar no mundo aquilo a que determinado signo faz referência ― por exemplo, relacionar a cor verde, nos sinais de trânsito, à autorização para prosseguir; identificar o sentido pretendido pelo ator ao atribuir uma interpretação aos elementos de um texto), qualquer interação através da atividade da linguagem estaria por definição prejudicada, uma vez que não haveria comunicação possível.
Variação e norma
Como falante do Português, você já deve ter percebido que há situações em que a língua se apresenta sob uma forma bastante diferente daquela que você se habituou a ouvir em seu ambiente doméstico ou através dos meios de comunicação. Essa diferença pode manifestar-se tanto em termos do vocabulário utilizado como em termos da pronúncia, da morfologia e da sintaxe. Essa diferenciação no interior de uma mesma língua perfeitamente natural e decorre do fato de que as línguas naturais não são sistemas monolíticos, invariáveis e imutáveis no espaço e no tempo. Muito pelo contrário, as línguas são sistemas dinâmicos e extremamente sensíveis a fatores como (dentre outros) a região geográfica, o sexo, a idade, a classe social dos falantes e o grau de formalidade do contexto.
As variedades regionais e sociais
Um dos aspectos mais conhecidos da variação linguística é a diferenciação que caracteriza os chamados dialetos ou variedades regionais. Com relação à Língua Portuguesa falada no Brasil, sabe-se, por exemplo, que as variedades faladas nos estados do Nordeste são diferentes daquelas faladas nos estados do Sul e que, no interior dessas regiões geográficas, podem também ser observadas diferenças entre os estados e mesmo entre regiões e cidades dos estados.
Outra importante dimensão da variação linguística é a social. As chamadas variedades populares são aquelas faladas pelas classes sociais menos favorecidas, enquanto as variedades cultas são normalmente associadas às classes de maior prestígio social, constituindo a referência para a norma escrita. Na dinâmica relação que se estabelece entre as modalidades oral e escrita, verifica-se, ao longo do tempo, uma influência recíproca entre as variedades orais cultas e a norma escrita, de tal maneira que a escrita passa a incorporar determinados traços da oralidade culta e essa vai também adquirindo traços da escrita.
A variação de natureza social costuma apresentar diferenças significativas em termos fonológicos (“craro” por “claro”, “muié” por “mulher”, etc.) e morfossintáticos (“nós fumu” por “nós fomos”, “os menino” por “os meninos”, etc.). São essas, na verdade, as diferenças linguísticas que costumam entrar em conflito com a norma oral e com a norma escrita ditas cultas.
As variedades estilísticas: registros
Por registro linguístico ou variações de estilo entende-se variações nos enunciados linguísticos que estão relacionados aos diferentes graus de formalidade do contexto de interlocução, o qual se explica, por sua vez, em termos do maior ou menor conhecimento e proximidade entre os falantes. Em um dos extremos do que se pode tomar como um eixo contínuo de formalidade a linguagem (uso coloquial, em situações familiares). No outro extremo desse mesmo eixo, temos as situações formais de uso da linguagem (por exemplo, as escolhas linguísticas que caracterizam uma palestra feita para uma platéia desconhecida, sobre matéria científica). Assim, um bilhete escrito para um amigo exemplifica o contexto de uso da escrita coloquial, ao passo que um ensaio acadêmico exemplifica o contexto de uso formal da escrita. Existem, naturalmente, diversos pontos intermediários no eixo de graus de formalidade, tanto em termos da oralidade como da escrita.
Aula 2 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
A construção de sentidos: COESÃO TEXTUAL
“É preciso saber alinhavar as idéias de um texto, para que haja harmonia e clareza no todo.” (Marina Ferreira)
A coesão textual é, portanto, o conjunto de recursos linguísticos responsáveis pelas ligações que se estabelecem entre os termos de uma frase, entre orações de um período ou entre parágrafos de um texto. É a “costura” necessária para que as partes componham harmonicamente o todo, deixando o texto agradável à leitura. Existem dois tipos de coesão: a REFERENCIAL e a SEQUENCIAL.
COESÃO REFERENCIAL
É a que permite a recuperação de termos do texto e ocorre por meio de dois processos:
SUBSTITUIÇÃO: Ocorre quando uma palavra é retomada ou precedida por um elemento gramatical que traz as marcas do que substitui. Pronomes, advérbios, numerais e verbos são os recursos usados nessas retomadas.
Ex.: “Pintores e fotógrafos buscam o que excede dos limites físicos dos objetos. Façamos o mesmo.”
A expressão pronominal “o mesmo” recupera a ação da primeira frase.
REITERAÇÃO: Ocorre quando expressões do texto são repetidas pelo uso da mesma expressão, de sinônimos, de expressões nominais definidas ou de nomes genéricos (coisa, gente, negócio).
EX.: “Drumond, o ‘anjo-torto’ apresentou-se triste em muitos de seus poemas”
“anjo-torto”- Expressão nominal definida
COESÂO SEQUENCIAL
É a que permite fazer progredir o texto, sem a retomada de itens. Pode ser obtida por dois processos:
SEQUENCIAÇÃO TEMPORAL: Ocorre por ordenação linear de elementos, uso de expressões que assinalam a ordenação de sequências temporais, emprego de partículas temporais e correlação de tempos verbais.
EXEMPLOS:
*Ordenação linear de elementos:
Olhemos devagar o que nos cerca, entendamos seu sentido íntimo.
* Expressões que assinalam a ordenação de sequências temporais:
Anteriormenteanalisamos a coerênica dos textos; agora, estamos estudando a coesão.
*Emprego de partículas temporais:
Que falta eu sinto dele hoje.
*Correlação de tempos verbais:
Bastaria que em redor delas se armasse o silêncio.
Sequenciação por conexão: Ocorre no emprego de:
* Preposições e locuções prepositivas:
O homem se sente só, apesar da agitação das cidades.
*Conjunções e locuções conjuntivas:
“Eu levo a vida assim tão só porque não tenho um xodó.”
Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. No entanto, não gostam de fazer amizades.
* Pausas: A pontuação é um importante elemento coesivo.
A coesão pode ajudar na construção da coerência, mas não necessariamente. Textos literários, principalmente, podem fazer sentido sem que se utilizem mecanismos coesivos em sua construção.
Exemplo em que a falta de coesão afeta a coerência: “Eram cinco horas, porém não vou ler agora esse documento e já fomos dispensados do trabalho.”
Existe aí incoerência motivada por uma confusão de tempos verbais e pelo uso indevido da conjunção porém – problemas de coesão que poderiam ser resolvidos dando sentido à sequência:
“São cinco horas. Não vou ler agora esse documento, pois já fomos dispensados do trabalho.”
Agora note o poema:
Nada na barriga
Navalha na liga
Valha.
Aparentemente um texto desconexo, no entanto, com sentido: a fome faz valer o gesto violento provocado por uma navalha escondida na liga da meia. Com coerência, sem coesão.
Os textos descritivos não utilizam tantos elementos de coesão quanto os narrativos, que precisam deles para manter o andamento da história. Nas dissertações, o uso de um vocabulário ligado ao assunto em questão e o uso de conectivos que estabelecem relações de causa, condição, finalidade, etc. têm grande possibilidade de ocorrer.
Os poemas, como nenhum outro tipo de texto, podem explorar os versos, sons e ritmos como elementos de coesão. E tanto a linguagem poética como a da propaganda trabalham também com a disposição espacial das palavras, um mecanismo lingüístico importante na construção do sentido.
Aula 3 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
A ARTICULAÇÃO DO TEXTO
A estruturação de um período já foi, com muita propriedade, comparada à articulação de um esqueleto com seus vários ossos. Da mesma forma que de uma articulação de ossos resulta um braço, de duas ou mais orações num só período resulta uma articulação de pensamentos, lembra-nos o professor Mattoso Câmara.
Como você já percebeu, um texto não se faz de um amontoado de palavras ou de orações. É necessário que os termos que formam uma oração e as orações que formam um período apresentem uma relação, uma dependência de significados, enfim, que haja uma articulação de pensamentos.
Assim como um osso liga-se ao outro num esqueleto, as palavras, os termos da oração e as orações ligam-se para formar um texto. Essa ligação se dá pelo nexo estabelecido entre várias partes do texto, tornando-o coeso (nexo significa “ligação, vínculo”; daí expressões do tipo “Ficou falando coisas sem nexo”).
A coesão é decorrente de relações de sentido que se operam entre elementos do texto. Muitas vezes a interpretação de um termo depende da interpretação de outro termo ao qual faz referência, ou seja, a significação de uma palavra vai pressupor a de outra.
Numa frase como:
“Lá era possível adquiri-las a um preço relativamente baixo”.
a significação do advérbio de lugar lá e da forma pronominal -las – palavras de referência – fica comprometida (lá onde?; adquirir o quê?), pois o sentido delas pressupõe a existência de outras palavras às quais devem estar se referindo.
Já se disséssemos:
“Naquela exposição havia muitos tipos de flores, lá era possível adquiri-las a um preço relativamente baixo”.
o sentido do advérbio lá e da forma pronominal -las fica claro, pois eles guardam íntima relação com outros termos da frase (lá = naquela exposição; -las = flores). Dizemos então que essas palavras funcionam na frase acima como elementos de coesão, já que a significação delas pressupõe a existência de outras palavras.
OS CONECTIVOS
A coesão também é resultante da perfeita relação de sentido que deve haver entre as partes de um texto. Por isso, o uso adequado de conectivos (palavras que relacionam partes da oração ou orações de um período) é importante para que haja coesão textual. Observe a frase abaixo:
“Embora saísse de casa com bastante antecedência, Luciana chegou atrasada à reunião que decidiria a compra do material, porque seu carro quebrou no caminho”.
Temos aí quatro orações formando um período composto por subordinações. Observe que há, entre os segmentos do texto (as orações que o formam), uma perfeita relação de sentido, dada pelo uso adequado dos conectivos.
A conjunção embora introduz uma oração que encerra idéia de concessão; o pronome relativo que retoma o substantivo reunião da oração anterior; e finalmente a conjunção subordinativa porque introduz uma oração que exprime idéia de causa.
Conectivos são elementos que relacionam partes do discurso estabelecendo entre elas relações de significado. Possuem valores próprios: usamos embora para exprimir concessão; porque para exprimir causa; mas para exprimir adversidade; se para exprimir condição, etc. Dessa forma, a troca de um conectivo por outro de valor diferente implicará a quebra da coesão.
Há conectivos distintos para estabelecer valores idênticos. Na frase acima, para estabelecer a relação de concessão, poderíamos substituir embora por, por exemplo, apesar de; para estabelecer a relação de causa, poderíamos substituir porque por, por exemplo, já que ou uma vez que. Veja:
“Apesar de sair de casa com bastante antecedência, Luciana chegou atrasada à reunião que decidiria a compra do material, já que (ou uma vez que) seu carro quebrou no caminho”.
A SELEÇÃO VOCABULAR
Na produção de texto, a seleção vocabular também é importante elemento de coesão, já que, muitas vezes, substituímos uma palavra que já empregamos por outra que lhe retoma o sentido. Observe:
“Os advogados do réu apresentaram um pedido ao juiz, no entanto o magistrado não acatou a solicitação dos patronos do acusado”.
Nessa frase, as palavras magistrado, solicitação, patronos e acusado funcionam como elementos de coesão, pois retomam, respectivamente, os termos juiz, pedido, advogados e réu.
Veja que a seleção vocabular utilizada na frase acima, além de dar coesão ao texto, tem função estilística, pois permite que não se repitam as mesmas palavras.
QUANDO NÃO HÁ COESÃO
Não há coesão em um texto quando, por exemplo, empregam-se de modo inadequado conjunções e pronomes, deixando palavras ou frases desconectadas, quando a escolha vocabular é inadequada, quando há ambiguidade, regências incorretas, etc.
O jornal Folha de S. Paulo, em sua edição de 2 de abril de 2000, na página 1-4, publicou a seguinte frase, atribuída a um vereador da Câmara Municipal de São Paulo:
“Trata-se de armação de uma máfia na tentativa de desqualificar, denegrir e macular quem sempre esteve na luta pela corrupção e pela ética na política”.
Aos leitores mais atentos, a frase provocou espanto e indignação. Nela, a relação de regência entre o substantivo luta e seu complemento corrupção é estabelecida pela contração pela (preposição + artigo), que tem o sentido de “a favor de”. O vereador afirma, portanto, que sempre esteve na luta em favor da corrupção!
Ora, se o vereador é pela ética na política, ou seja, se ele é a favor da ética na política, como pode estar empenhado na luta em favor da corrupção? O próprio jornal, na edição 8 de abril, em sua seção Erramos, tratou de corrigir o engano com a seguinte nota:
Onde se lê “Trata-se de armação de uma máfia na tentativa de desqualificar, denegrir e macular quem sempre esteve na luta pela corrupção e pela ética na política”, o certo é “Trata-se de armação de uma máfia na tentativa de desqualificar, denegrir e macular quem sempre esteve na luta contra a corrupção ...”.
Nesse caso, a quebra de coesão textual foi decorrente de uma regência incorreta, ouseja, do emprego de uma preposição em lugar de outra, alterando completamente o sentido do texto, já que lutar pela corrupção tem sentido completamente oposto a lutar contra a corrupção.
Observe alguns outros exemplos:
“Marcos encontrou uma obra na biblioteca que estava mal conservada”.
“Eram dois irmãos muito parecidos somente no aspecto físico. Do ponto de vista da personalidade, eram bastante diferentes. O mais velho era calmo e tímido, já o mais novo era irritadiço e extrovertido, enfim, um era o antídoto do outro”.
Na primeira frase, a ausência de coesão é decorrente do mau emprego do pronome relativo que: em decorrência de sua colocação, pode estar se referindo a dois antecedentes distintos, tornando a frase ambígua. Quem estava mal conservada? A obra ou a biblioteca? Para tornar a frase coesa, bastaria colocar a oração adjetiva junto ao termo a que se quer fazer referência. Assim:
“Marcos encontrou uma obra que estava mal conservada na biblioteca”.
Desse modo, fica claro que a obra é que está mal conservada.
Na segunda frase, a ausência de coesão é decorrente do mau emprego da palavra antídoto, cujo significado é contraveneno. Se, do ponto de vista da personalidade, os dois irmãos eram opostos, a palavra adequada para marcar essa oposição seria antítese ou antípoda, que encerram a idéia de oposição, contrariedade. Assim:
“Eram dois irmãos muito parecidos somente no aspecto físico. Do ponto de vista da personalidade, eram bastante diferentes. O mais velho era calmo e tímido, já o mais novo era irritadiço e extrovertido, enfim, um era o antípoda (ou a antítese) do outro.
Um tipo muito comum de impropriedade de linguagem presente em textos escolares, jornalísticos e até mesmo em enunciados de vestibulares é o uso indevido da dupla negação. Leia o texto seguinte:
“Nos camarins, após o show, os integrantes da banda mostravam-se encantados com a recepção da estréia brasileira, com um público inflamado de 10 mil, que em nenhum momento dos 90 minutos de espetáculo não parou de vibrar com a música energética, direta e honesta do Midnight Oil”.
Para perceber se falta coesão no texto que você produz, a melhor atitude é lê-lo atentamente, procurando estabelecer as relações entre as palavras que formam as orações, as orações que formam os períodos e, finalmente, entre os vários períodos dos que formam o texto.
Aula 4 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
COERÊNCIA TEXTUAL
Produzimos textos porque pretendemos informar, divertir, explicar, convencer, discordar, ordenar, etc., ou seja, o texto é uma unidade de significado produzida sempre com uma determinada intenção. Assim como a frase não é uma simples sucessão de palavras, o texto tambem não é uma simples sucessão de frases, mas um todo organizado capaz de estabelecer contato com nossos interlocutores, infuindo sobre eles. Quando isso ocorre, temos um texto em que há coerência.
A coerência é resultante da não-contradição entre os diversos segmentos textuais que devem estar encadeados logicamente. Cada segmento textual é pressuposto do segmento seguinte, que por sua vez será pressuposto para o(s) que lhe suceder(em), formando assim uma cadeia em que todos eles estejam concatenados harmonicamente. Quando há quebra nessa concatenação, ou quando um segmento textual está em contradição com um anterior, perde-se a coerência textual.
A coerência é tambem resultante da adequação do que se diz ao contexto extraverbal, ou seja, àquilo a que o texto faz referência, que precisa ser conhecido pelo receptor.
Ao ler uma frase como “No verão passado, quando estivemos na capital do Ceará, Fortaleza, não pudemos aproveitar a praia, pois o frio era tanto que chegou a nevar”, percebemos que ela é incoerente em decorrência da incompatibilidade entre um conhecimento prévio que temos da realidade com o que se relata. Sabemos que, considerada uma realidade “normal”, em Fortaleza não neva (ainda mais no verão!).
Claro que, inserido numa narrativa ficcional fantástica, o exemplo acima poderia fazer sentido, dando coerência ao texto – nesse caso, o contexto seria a “anormalidade” e prevaleceria a coerência interna da narrativa.
No caso de apresentar uma inadequação entre o que informa e a realidade “normal” pré-conhecida, para guardar a coerência o texto deve apresentar elementos linguísticos instruindo o receptor acerca dessa anormalidade.
Uma afirmação como “Foi um verdadeiro milagre! O menino caiu do décimo andar e não sofreu nenhum arranhão.” É coerente, na medida em que a frase inicial (“Foi um verdadeiro milagre!) instrui o leitor para a anormalidade do fato narrado.
COERÊNCIA E COESÃO
A coesão textual é elemento facilitador para a compreensão do texto, mas é a coerência que lhe dá sentido. Podemos ter textos desprovidos de elementos de coesão, mas coerentes, bem como textos que apresentam mecanismos de coesão, mas que não são coerentes.
COERÊNCIA DISSERTATIVA
Na dissertação apresentamos argumentos, dados, opiniões, exemplos, a fim de defender uma determinada ideia ou questionar determinado assunto.
Se, por exemplo, numa dissertação, expusermos argumentos, dermos exemplos e dados contrários à privatização de empresas estatais, não poderemos apresentar como conclusão que a Petrobras deva ser imediatamente privatizada, pois tal conclusão estaria em contradição com os pressupostos apresentados, tornando o texto incoerente.
Nas dissertações, a coerência é decorrente não só da adequação da conclusão ao que foi anteriormente apresentado, mas da própria concatenação das ideias apresentadas na argumentação.
Na produção de textos dissertativos, muitas vezes discutimos assuntos polêmicos sobre os quais não há consenso. Em dissertações que discutem temas como a pena de morte e a legalização do aborto, estão presentes convicções de natureza ética e religiosa que variam de indivíduo para indivíduo. Portanto, qualquer que seja a tese que defendamos, sempre haverá pessoas que discordarão dela. O que importa em um texto dissertativo não é a tese em si, pois como vimos, as pessoas têm – felizmente – opinões diferentes sobre um mesmo tema, mas a coerência textual, ou seja, a argumentação deve estar em conformidade com a tese e a conclusão deve ser uma decorrência lógica da argumentação.
COERÊNCIA NARRATIVA
Nas narrações atribuímos ações a personagens. Essas ações se sucedem temporalmente, isto é, uma ação posterior pressupõe uma ação anterior com a qual não pode estar em contradição, sob pena de tornar a narração inverossímil.
Se, num primeiro momento, afirmamos que um determinado personagem, ao sair para fazer compras, deixou em casa o único talão de cheques que tinha, não podemos, em seguida, dizer que ele pagou as compras que fez com um cheque.
Nas narrações, as incoerências podem tambem ser decorrentes da caracterização do personagem com relação às ações atribuídas a ele. Se um determinado personagem é, no início da narração, caracterizado como uma pessoa que não suporta animais, não podemos dizer em seguida, sem apresentar uma justificativa convincente, que ele criava em casa cachorros e passarinhos. A ação “criar cachorros e passarinhos” está em contradição com o pressuposto apresentado de que “ele não suporta animais”.
COERÊNCIA DESCRITIVA
Nas descrições apresentamos um retrato verbal de pessoas, coisas ou ambientes, enfatizando elementos que os caracterizam. Ao tratar da descrição de um funeral, recorremos a figuras como “roupas negras”, “pessoas tristes”, “coroas de flores”, “orações”, etc. Nesse caso, as figuras utilizadas são coerentes com a cena que está sendo descrita.
Se descrevemos um dia ensolarado de verão, não podemos afirmar que as pessoas andam pelas ruas protegidas por pesados casacos, pois essa descrição seria incoerente, já que a figura “pesados casacos” está em contradição com o pressuposto “dia ensolarado de verão”.
Aula 5 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
OS GÊNEROS
Podemos afirmar que todo texto se estrutura a partir de características gerais de um determinado gênero (texto narrativo, descritivo,dissertativo, instrucional, informativo; a correspondência pessoal ou comercial; a poesia; etc.)
Os gêneros se constituem a partir do uso prático da língua em situação comunicativa. Eles se diferenciam pelos conteúdos específicos que veiculam, pelas características particulares dos textos produzidos nas diferentes situações e pelas configurações específicas utilizadas neste ou naquele texto.
O TEXTO NARRATIVO
A narração é um tipo de texto marcado pela temporalidade. Ou seja, como seu material é o fato e a ação que envolve personagens, a progressão temporal é essencial para o seu desenrolar: essas ações direcionam-se para um conflito que requer uma solução. A trama que se constrói com os elementos do conflito desenvolve-se necessariamente numa linha de tempo e num determinado espaço.
O fio da narrativa – a organização dos fatos no tempo e o ponto de vista pelo qual são relatados – é conduzido por um narrador que pode participar ou não dos acontecimentos, que pode ou não estar envolvido neles. Esse aspecto é fundamental para o resultado final do texto.
O TEXTO DESCRITIVO
A descrição normalmente vem associada ao gênero narrativo. Um texto narrativo-descritivo é aquele predominantemente narrativo, com passagens descritivas. O texto a seguir foi retirado do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis. Observe como entremeiam-se ações e caracterísiticas dos personagens, num trabalho de verdadeira sondagem do narrador para desvendar os mistérios que cercam as atitudes do personagem focalizado.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranquilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante e perguntava alguma coisa acerca do ferido; (...)
O TEXTO DISSERTATIVO E ARGUMENTATIVO
Sempre que desejamos expor opiniões ou persuadir alguém de alguma coisa, recorremos a um tipo de texto que se diferencia dos demais em vários aspectos, um deles fundamental: enquanto na narração e na descrição utilizamos o concreto (personagens, ambiente, espaço e tempo determinados) e com ele construímos figuras, na dissertação e na argumentação empregamos o abstrato (conceito, ideias, concepções).
Na dissertação, expomos ideias ou opiniões fundamentadas na observação, no conhecimento de mundo ou no conhecimento específico que acumulamos e desenvolvemos. Na argumentação, nós nos propomos a influernciar o interlocutor; portanto, selecionamos argumentos (razões, exemplos, raciocínios) com esse objetivo muito claro.
O tipo de texto que decorre desses posicionamentos deve caracterizar-se pela cuidadosa ordenação lógica. O encadeamento do raciocínio deve organizar-se de tal forma que leve o ouvinte ou leitor, no caso da dissertação, a compreender a ideia defendida e, na argumentação, a convencer-se da veracidade de uma determinada posição tomada.
Aula 6 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
CONTO
Das narrativas orais à atualidade, o conto vestiu-se de inúmeras roupagens, inclusive assimilando recursos de outros gêneros textuais, resultando numa riqueza de tipos de difícil classificação. É comum encontrarmos antologias que reúnem contos por nacionalidade: o conto brasileiro, o conto russo, o conto francês, etc.; ou antologias que os reúnem por regiões: o conto brasileiro do Norte, do Sul, etc.; ou por subgêneros: contos maravilhosos, fantásticos, de terror, de mistério, policiais, de amor, de ficção científica; e por outras classificações: o conto tradicional, o conto moderno, o conto contemporâneo, etc.
Características de conto:
narrativa concentrada e limitada ao essencial;
apresenta os elementos básicos da narrativa: fatos, personagens, tempo e lugar;
o enredo apresenta normalmente a seguinte estrutura: apresentação, complicação, clímax e desfecho;
número reduzido de personagens;
tempo e espaço bastante delimitados;
pode apresentar narrador-observador ou narrador-personagem;
linguagem predominatemente de acordo com o padrão culto, formal ou informal, da língua.
EXEMPLOS
No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, e agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. (...)
CRÔNICA
A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.
“Graça a Deus” ― seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós.
Características da crônica:
geralmente é publicada em jornais e revistas;
relata de forma artística e pessoal fatos colhidos no noticiário jornalístico e no cotidiano;
consiste em um texto curto e leve;
tem por objetivo divertir e/ou refletir criticamente sobre a vida e os comportamentos humanos;
pode apresentar os elementos básicos da narrativa: fatos, personagens, tempo e lugar;
o tempo e o espaço são normalmente limitados;
pode apresentar narrador-observador ou narrador-personagem;
linguagem geralmente de acordo com o padrão culto formal ou culto informal da língua.
EXPLORANDO O GÊNERO
Leia esta crônica, de Ignácio de Loyola Brandão:
Adolescentes do ano 2000
Elas se telefonam, se beijam, marcam encontros e se reúnem nervosas diante da escrivaninha, cadernos e livros abertos e espalhados. Não devo dizer escrivaninha, é termo da minha adolescência, e entre a minha e a de minha filha se passaram 47 anos, o Brasil mudou, as palavras mudaram. No entanto, alguma coisa permanece imutável. Percebo ao passar pelo corredor, vendo-as no quarto, deitadas no chão, sentadas à escrivaninha, livros e cadernos compulsados sofregamente. Não, não se diz caderno, e sim fichário. Elas estão ansiosas, inquietas. São dias de prova. O clima é o mesmo da minha adolescência. Na aula a atenção se dirigia pouco ao professor. A menos que fosse criativo e soubesse segurar a classe. Se houvesse, como hoje, jovens professores, as meninas gostariam mais. Por que professores pareciam velhos e sisudos? (...)
TEXTO ARGUMENTATIVO
Não há uma regra ou um modelo único para a construção de um texto dissertativo-argumentativo. As possibilidades para se iniciar, desenvolver ou concluir um texto desse tipo são muitas e depedem do tema, das idéias que o autor pretende desenvolver, do enfoque que deseja dar a elas e de sua própria criatividade.
Apesar disso, é conveniente conhecer essa variedade de possibilidades, a fim de ampliar seus recursos de expressão nessa modalidade de texto.
Como você sabe, a estrutura convencional do texto dissertativo-argumentativo é constituída de três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão. Vejamos as possibilidades existentes na construção de cada uma dessas partes.
INTRODUÇÃO
A introdução pode ser constituída por um ou mais parágrafos. Quando o texto é construído pelo método dedutivo (do geral para o particular), é nela que se lança a tese, isto é, a idéia principal do texto a ser desenvolvida.
DESENVOLVIMENTO
O desenvolvimento é constituído por parágrafos que fundamentam a idéia principal do texto. Geralmente, cada parágrafo correspondente a um dos argumentos que sustentam a idéia principal, embora possa haver desdobramento e, no caso, ser necessário mais de um parágrafo para um único argumento.
A força desses argumentos depende muito da consistência do raciocínio e das “evidências” ou “provas” que contêm, capazes de fundamentar o ponto de vistado autor. Além disso, é necessário que haja coerência e coesão entre os argumentos, para que as idéias se desenvolvam de modo progressivo e harmônico, sem contradições ou idéias desconexas do conjunto.
São variados os tipos de parágrafos que servem ao desenvolvimento. Os mais frequentemente utilizados são aqueles que apresentam:
enumeração
causas e consequências
comparação e contraste
exemplificação
citação ou testemunho
CONCLUSÃO
Geralmente situada no parágrafo final dos textos dissertativo-argumentativos, a conclusão pode ser desenvolvida a partir de três formas básicas:
síntese
proposta
surpresa
Aula 7 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
Formas de Desenvolvimento do parágrafo dissertativo-argumentativo
Existem diferentes formas de organizar o parágrafo dissertativo-argumentativo. Todas elas depedem da relação entre a ideia-núcleo e as ideias secundárias. Os parágrafos mais comuns são os organizados por:
Declaração inicial
Politica e televisão são duas instâncias da sociedade brasileira que parecem reunir o maior número de pessoas despreparadas e desqualificadas. É como se escolhessem a dedo as piores pessoas (com raras exceções) para legislar ou executar, animar shows de auditório ou de entrevistas, etc.
É a forma mais comum de se desenvolver o parágrafo dissertativo-argumentativo. A ideia-núcleo abre o parágrafo com uma afirmação ― no caso do parágrafo acima, o baixo nível dos políticos e apresentadores de TV no Brasil ― e é desenvolvida por ideia secundária.
Interrogação
Você já pensou como seria bom ter uma biblioteca escolar aberta a todos, que funcionasse 24 horas por dia, todos os dias da semana, e que pudesse ser visitada de qualquer lugar do mundo? Pois esta biblioteca já existe: é a Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro ― Bibvirt (www.bibvirt.usp.br). Criada e desenvolvida pela Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, a Bibvirt é um exemplo prático de como atender a uma necessidade real e atual da comunidade utilizando-se das novas tecnologias de comunicação e informação.
Observe que a interrogação de abertura do parágrafo não é essencial. Ela cumpre um papel retórico, uma vez que o próprio autor responde à pergunta. É uma forma simpática de envolver o leitor e despertar sua atenção.
Definição
O calazar é, assim, uma doença, uma endemia grave e um sintoma. Ele é o sintoma de um país doente, de cidades sujas, de famintos infectados que fogem dos grotões e acabam relegados a outro tipo de rincão, social e espacial, em mocambos, favelas e ambientes assemelhados das periferias urbanas. E a partir daí o mal se expande e contamina regiões até ricas. O calazar é, pois, sintoma das típicas mazelas brasileiras.
O objetivo do parágrafo é conceituar a doença calazar do ponto de vista da saúde e das condições sociais que a geram. No caso, o “sintoma” a que faz referência a ideia-núcleo é a miséria e o isolamento de populações que têm vivido em condições subumanas.
Divisão
Dois grupos norte-americanos se debruçaram sobre essa forma de regeneração, obtendo resultados diferenciados, mas não inconciliáveis. Uma equipe, da Universidade Princeton, verificou que a reposição aumenta quando camundongos são submetidos a tarefas de aprendizado intenso. Outra, do Instituto Salk, constatou resultados semelhante com exercícios físicos continuados
Observe que, nesse parágrafo, a ideia-núcleo apresenta uma divisão, ao fazer referência a dois núcleos de pesquisa neurobiológica. As ideias secundárias desenvolvem essa divisão, expondo as conquistas científicas de cada um desses grupos.
Exemplificação
Não é mais possível escrever a frase “eu subi para cima”, no programa Word, da Microsoft, impunemente. “Fui a Bahia”, assim sem crase, também nem pensar. “Me dê os papéis”, “assistir o filme”, “aluga-se casas” e outros equívocos do gênero também estão proibidos. Isso porque a Microsoft incorporou à última versão do seu processador de texto (...), que já contava com um revisor ortográfico, o software de revisão gramatical desenvolvido pela Itautec com o apoio da USP e da Unicamp.
Note que o parágrafo é introduzido com o relato de várias situações cotidianas em que alguém redige textos no computador, fazendo uso do programa Word. Esses fatos servem como exemplos da ideia-núcleo, que o autor se propõe a desenvolver: o lançamento de um novo software, com mais recursos de revisão gramatical.
Alusão histórica
No passado, acordos semelhantes traduziram a repugnância da comunidade internacional contra as armas químicas e bacteriológicas, utilizadas de forma cruel e indiscriminada durante a Primeira Guerra Mundial. São esses mesmos acordos que hoje permitem punir a ditadura de Saddam Hussein, suspeita de manter tais arsenais químicos.
A alusão histórica é utilizada quando se deseja explicar algo do presente a partir de fato do passado, como no parágrafo acima. Serve também para comparações com a realidade atual. Ela pode ocupar parte do parágrafo ou o parágrafo inteiro.
Ilustração
Uma menina capixaba de 10 anos foi ontem sumetida a uma cirurgia, em ambiente limpo, atendida por profissionais credenciados, com o objetivo de interromper uma gravidez, mais que indesejada, decorrente da inominável violência que é o estupro. Se, após décadas no limbo, não tivesse passado a ter efeitos práticos mais amplos o dispositivo do Código Penal que permite o aborto em certos casos, talvez essa jovem estivesse sujeita a violências ainda maiores.
Diferentemente da estrutura convencional do parágrafo, que se inicia pela ideia-núcleo, esse tipo de parágrafo é introduzido por uma pequena narrativa que serve como ilustração do assunto (no caso do parágrafo acima, o aborto em uma menina de 10 anos). A ideia-núcleo, coincidindo com a conclusão, é explicitada apenas no final do parágrafo (no caso, a importância da lei, que permite abortos como esses, decorrentes de estupro).
Esse tipo de parágrafo causa um efeito emocional direto sobre o leitor, pois o faz vivenciar de perto a questão em análise.
Aula 8 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
A INTRODUÇÃO DO TEXTO DISSERTATIVO
A introdução de um texto é a parte que se destina a abrir o assunto, numa espécie de convite à reflexão.
Iniciar bem um texto faz com que o leitor tenha vontade de continuar a lê-lo. É nesse começo que, em linhas gerais, se define o que será dito e, em certa medida, também já se define o caminho que será trilhado para dizê-lo.
Numa introdução, é aconselhável mostrar por que o tema merece atenção, justificando com dados concretos, exemplos reais, situação histórica, e muitos outros elementos que se revelarem convenientes para cada assunto abordado.
Na introdução, há muito de convite. Cabe atrair a atenção desde o começo, colocando-se uma pitada de tentação para induzir à leitura ou à audição. A introdução deve ser como a isca que se mostra fascinante para atrair e pegar. Seduzir os receptores no ponto de partida, para viajarem juntos em toda a exposição. Para prender é preciso despertar. E despertar, sobretudo, uma impressão favorável.
Introduções possíveis:
Com uma afirmação geral sobre o assunto
Com uma consideração histórico-filosófica
Com uma citação
Com uma comparação
Com uma ou mais perguntas
Com uma narração
A CONCLUSÃO DO TEXTO DISSERTATIVO
A conclusão é fecho, arremate, acabamento.
Se a introdução é tão importante para apresentar a ideia geral do assunto, para prender a atenção, e o desenvolvimento para fornecer exemplos, dados, comparações, causas/consequências, a conclusão é igualmente importante para sintetizar o que foi dito, dando uma resposta à questão exposta no início.
A conclusão de uma dissertação deve aparecer totalmente sintonizada com o restante do texto. Se, para seu autor, ela fecha um raciocínio, para o leitor ela abre possibilidades reflexivas, introduzindo-o a apensar mais sobre o assunto.
Análise das partes que segmentam um texto dissertativo-argumentativo:
JÁ NÃO HÁ MAIS FUTURO PARA O ANALFABETO DIGITAL
	Introdução
Apresentação da idéia central.Daqui a pouco tempo, muito menos do que podemos imaginar, quem não dominar a informática não encontrará lugar no mercado de trabalho. Mesmo se estiver à procura de uma vaga como office-boy.
	Introdução
Neste primeiro parágrafo, lança-se a idéia de que, em pouco tempo, “quem não dominar a informática não encontrará lugar no mercado de trabalho”. Essa pode ser considerada a idéia central do texto.
	Desenvolvimento da idéia central através de argumentos que a com-provem (exemplos, comparações e outras informações). Apresentação das causas e conseqüências do assunto em discussão.
	Nos Estados Unidos, e de maneira crescente no Brasil, qualquer profissional autônomo que se preze faz pesquisa na Internet. Mais e mais, a casa vira escritório e o contato com o mundo exterior se dá pela rede de computadores. Hoje, muitas ofertas de emprego são feitas eletronicamente. O interessado em uma nova colocação entra na Internet e consulta as páginas eletrônicas das empresas que lhe interessam. Quem não tiver acesso a um computador já reduz suas chances de emprego pela metade.Não há futuro para o analfabeto digital. Até porque se redefine o analfabetismo: dominar os códigos das redes eletrônicas é tão importante como até agora tem sido saber ler e escrever.
	1º Argumento
Neste parágrafo, procura-se firmar a idéia central através de alguns exemplos:
a) nos Estados Unidos, os profissionais autônomos fazem pesquisa na Internet;
b) nos dias atuais, muitas ofertas de emprego são feitas eletronicamente.
2º Argumento
Neste parágrafo, a importância de saber ler e escrever e a de dominar os códigos eletrônicos são tratadas como equivalentes, procurando evidenciar, mais uma vez, que “não há futuro para o analfabeto digital”.
	
	O aluno que decora livros e tira 10 em todas as provas está com os dias contados. Ter informações não é tão relevante como processá-la, encará-la de vários ângulos, o que exige capacidade crítica e flexibilidade para se habituar a um ritmo de mudanças jamais visto. (...)
	3º Argumento
Neste parágrafo, acrescenta-se que “ter informação não é tão relevante como processá-la”.
Essa posição parte do exemplo da provável extinção do tipo de aluno que decora livros sem, no entanto, analisá-los criticamente.
	Conclusão
Reafirmação da idéia central ou apresentação de sugestões para o assunto em discussão.
	O bom profissional nos dias atuais define-se pela capacidade de encontrar e associar informações, de trabalhar em grupo e de se comunicar com desenvoltura. Terá futuro o estudante que souber lidar com imprevistos e se adaptar rapidamente às mudanças, fazer pesquisas e interpretar os dados.
	Conclusão
Neste último parágrafo, é traçado o perfil de como devem ser o profissional dos dias atuais e o estudante do futuro, mostrando, assim, a necessidade de se combater o “analfabetismo digital”.
Aula 9 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
RECURSOS DE ESTILOS
Alguns recursos de estilo
Quando são utilizados recursos de estilos, os elementos da linguagem são desviados do seu uso normal, criando uma linguagem nova. Este desvio intencional tem por finalidade sugerir determinada imagem.
Comparação e metáfora
A comparação é figura de largo uso na linguagem. Consiste em identificar dois objetos a partir de uma característica que lhes é comum.
Acompanhe um trecho da música Um índio, de Caetano Veloso:
Um índio descerá
de uma estrela colorida brilhante
De uma estrela que virá
numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na
América num instante
Depois de exterminada
a última nação indígena
E o espírito dos pássaros
das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais
avançadas das tecnologias
Virá
Impávida que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
É possível estabelecer, a partir do exemplo, uma estrutura de comparação que percorre as seguintes etapas:
termo comparado (o que compara): um índio
termos comparantes (objeto(s) com o(s) qual(quais) se compara(m):
Muhammad Ali, Peri, Bruce Lee
termos comparativos (como, tal como, tão como, semelhante a, que nem, feito): que nem, como
pontos de comparação (o resultado da comparação em qualidades ou defeitos): a impavidez, a paixão, a tranquilidade, a infalibilidade
A metáfora, figura de sustentação da linguagem literária, é uma comparação em que não se explicita nem o termo comparado, nem o termo comparativo, nem o ponto de comparação.
Há uma coisa ou uma ideia a ser definida ou expressa. Há uma outra coisa ou ideia em que o autor ou o falante percebeu haver alguma semelhança ou relação com a primeira. A semelhança resultante da intersecção das duas ideias é a metáfora.
Acompanhe um trecho da letra de Tigresa, de Caetano Veloso;
Uma tigresa de unhas negras
E Íris cor de mel
Uma mulher uma beleza
que me aconteceu
É possível estabelecer qual é o processo metafórico resultante do texto:
Mulher que tem as qualidades de tigresa: uma mulher sexy, bela, sensual
idéia a ser definida + = Ideia imaginária com que se MULHER = TIGRESA
Há, portanto, uma comparação implícita, em que não aparecem os termos comparativos (como, tal como, tão como, etc.)
Se o poeta tivesse dito: “Conheci uma mulher que era como uma tigresa de unhas negras”, haveria, gramaticalmente, uma comparação.
Não foi o que ocorreu. Ele pulou uma etapa e igualou a relação.
Metonímia ou sinédoque
Metonímia significa mudança de nome.
A relação de sentido e a associação de ideias provocam, às vezes, a substituição de um termo por outro.
Note, por exemplo, quando se diz: “Estou vendo o Spielberg de novo”, dando a entender: “Estou vendo o filme do Spielberg de novo”. Trata-se da substituição da obra pelo autor, figura bastante frequente.
Temos metonímia nas situações seguintes
Entre autor e obra:
Ler Machado de Assis, em vez de “Ler a obra de Machado de Assis”.
Entre continente e conteúdo:
Tomar um copo d’água, em vez de “Tomar a água que estava no copo”.
Entre causa e efeito:
Viver de trabalho, em vez de “Viver do produto do trabalho”.
Ganhar a vida, em vez de “Ganhar os meios de vida”.
Sua a camisa para viver, em vez de “Porque trabalha muito para viver, sua a camisa”.
Entre a parte e o todo:
Morar na cidade, em vez de “Morar numa parte da cidade”.
Não ter teto onde morar, em vez de “Não ter casa para morar”.
Substituição do objeto pela matéria:
Ele não vale um níquel, em vez de “Ele não vale uma moeda feita de níquel”.
Substituição do produto pelo lugar ou marca:
Fumar um havana, em vez de “Fumar um charuto fabricado em Havana”.
Tomar umas brahmas, em vez de “Tomar umas cervejas fabricadas pela Brahma”.
Aula 10 – Material de Apoio – Profª Rossana – Análise Textual
POLISSEMIA
É a propriedade de uma palavra apresentar vários sentidos.
Ex.:	Não consigo prender o fio de lã na agulha de tricô.
Enrosquei minha pipa no fio daquele poste.
Observe que, nas duas ocorrências da palavra fio, ela apresenta sentidos diferentes: “fibra”, no 1º enunciado e “cabo de metal” no 2º. Apesar disso, há um sentido comum entre elas: sequência, eixo, alinhamento.
Outro exemplo:
Imagine um anúncio que apresente a frase “Todo mundo pro xadrez” e a imagem de várias camisas com estampas de quadrados alternados.
A palavra “xadrez” apresenta polissemia, uma vez que, ao considerarmos a parte verbal (emprego de palavras) do anúncio, o sentido dessa palavra é “cadeia”. Já em relação à parte visual do anúncio, “xadrez” significa a estampa das camisas. A Polissemia, nesse caso, é empregada pelo anunciante como recurso para se comunicar com as pessoas e elas comprarem blusas com estampa de “xadrez” : “Todo mundo pro xadrez”.
Ambiguidade
A ambiguidade (ambi = dualidade), quando empregada de forma intencional , se torna um importante recurso de expressão. É o que acontece no exemplo sobre o anúncio das camisas de xadrez: utiliza-se a ambiguidade como recurso para se comunicar com o consumidor de forma mais direta, descontraídae divertida. Esse recurso é também denominado DUPLO SENTIDO, que é frequentemente utilizado como recurso de expressão em textos poéticos, publicitários e humorísticos, em quadrinhos e anedotas. Observe que, nesse caso, a ambiguidade é empregada como recurso de construção.
A ambiguidade como problema de construção:
Leia com atenção:
“Durante o jogo, Lúcio deu várias caneladas em Guilherme. Depois entrou o Pedro no jogo e ele levou vários empurrões e pontapés.”
Como não assistimos à partida, temos dificuldade para compreender o texto e a intenção comunicativa do locutor, pois o texto é ambíguo. Afinal, quem levou empurrões e pontapés? Pedro, que entrara no jogo por último? E, no caso, quem o teria agredido? Ou foi Lúcio, que antes agredia Guilherme e, depois da entrada de Pedro, passou a ser agredido por este?
Se tivéssemos assistido ao jogo, certamente essa ambiguidade se dissiparia. E a intencionalidade do texto seria outra: apenas comentar.
Diferentemente da linguagem oral, que conta com certos recursos para tornar o sentido preciso – os gestos, a expressão corporal ou facial, a repetição, etc. -, a linguagem escrita conta apenas com as palavras. Por isso, temos de empregá-las adequadamente se desejarmos clareza e precisão nos textos que produzimos.

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