RECOMENDAÇÕES PARA TERAPIA ANTI-RETROVIRAL EM ADULTOS INFECTADOS PELO HIV
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RECOMENDAÇÕES PARA TERAPIA ANTI-RETROVIRAL EM ADULTOS INFECTADOS PELO HIV


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pode aumentar a replicação do HIV.
Recomendações para Terapia Anti-retroviral em Adultos Infectados pelo HIV 31
Está bem estabelecido na literatura que a supressão 
viral é essencial para a longa efetividade do tratamento 
anti-retroviral e que a supressão parcial leva à falha 
virológica mais precoce e emergência de resistência 
viral. Portanto, com a potência atual da terapia anti-
retroviral, a adesão torna-se uma das mais importantes 
variáveis que interferem na efetividade do primeiro 
esquema anti-retroviral.
Para garantir a supressão viral sustentada, é ne-
cessário que o paciente tome mais de 95% das doses 
prescritas; ressalva-se que esses dados foram extraídos 
de estudos que utilizaram IP não-potencializados e que 
ainda não existem resultados definitivos de estudos 
que comparem Inibidores da Transcriptase Reversa 
Não-Análogos de Nucleosídeos (ITRNN) e Inibidores 
da Protease potencializados com ritonavir (IP/r) e sua 
relação com adesão em longo prazo.
Os fatores que influenciam a adesão ao tratamento 
são múltiplos e podem estar relacionados a diferentes 
aspectos, tais como:
 O tratamento: eficácia do regime prescrito, efei-
tos adversos, posologias incompatíveis com as 
atividades diárias do paciente, grande número de 
comprimidos, interações medicamentosas, perda 
da motivação no decorrer do tempo ou necessidade 
de restrição alimentar.
 A pessoa que vive com HIV: as percepções e inte-
resse do paciente sobre seu tratamento e doença, 
desconhecimento da importância do tratamento, 
dificuldade em compreender a prescrição, falta de 
informação sobre as conseqüências da má adesão, 
presença de seqüelas de manifestações oportunistas 
(principalmente neurológicas), condições materiais 
de vida, presença eventual de depressão, entre outros 
fatores.
 A organização do serviço/equipe de saúde: horá-
rios de consultas e dispensação de medicamentos 
inflexíveis e não adaptados à rotina do usuário, 
barreiras de acesso ao serviço, ausência de atividades 
direcionadas à adesão, falta de vínculo entre usuário 
e equipe de saúde: a discriminação a algumas popu-
lações (particularmente usuários de álcool e outras 
drogas, travestis e pessoas em situação de exclusão 
social), entre outros, também dificulta a adesão.
Não se pode predizer a adesão a partir da \u201cper-
sonalidade\u201d ou \u201ccomportamento\u201d do paciente. É um 
fenômeno fortemente ligado à vivência ao longo do 
tratamento e podem surgir mudanças durante todo 
esse período. Não é um processo linear. Dificuldades 
ocorrem ao longo do tempo, com momentos de maior 
ou menor adesão para todos os pacientes. Portanto, 
não é uma característica do paciente \u201cser aderente\u201d, mas 
sim uma condição momentânea o \u201cestar aderente\u201d.
O início da TARV é relatado em alguns estudos 
como um dos momentos mais importantes na história 
das Pessoas que Vivem com HIV (PVH). Em pacientes 
em terapia inicial, estudos observacionais sugerem que 
o aparecimento de efeitos adversos é um dos fatores 
que levam à perda da adesão, incluindo os efeitos tran-
sitórios como náuseas, vômitos e dor abdominal.
O convívio diário com preconceitos e discrimina-
ção, especialmente no trabalho e entre a família, tam-
bém pode contribuir para a baixa adesão. Além disso, 
opiniões e atitudes negativas relacionadas à medicação 
também aparecem em alguns estudos como fatores que 
podem influenciar a adesão ao tratamento, como, por 
exemplo, as crenças de que \u201ctomar muito remédio faz 
mal\u201d ou que não é bom fazer uso da medicação por 
períodos longos.
Adesão ao tratamento
Guia de Tratamento32
Em geral, os pacientes não abordam espontane-
amente suas dificuldades relacionadas à adesão. Ao 
mesmo tempo, quando o profissional de saúde per-
gunta se o paciente tem tomado seus medicamentos 
corretamente, em geral recebe respostas genéricas e 
estereotipadas. Em contrapartida, a equipe de saúde 
pode identificar as dificuldades de adesão do paciente, 
quando estimulado a falar sobre sua vida cotidiana e 
sobre a forma como usa os medicamentos.
Drogas ilícitas freqüentemente constituem um tabu 
e seus padrões de uso não são abordados pelos profis-
sionais de saúde. Os estereótipos associados ao uso de 
drogas dificultam que os usuários sejam abordados em 
sua singularidade, impedindo que a equipe de saúde os 
auxilie em dificuldades específicas. O uso do álcool é 
considerado um importante fator associado à falta de 
adesão ao tratamento de doenças crônicas em geral, 
tendo-se apresentado como um desafio para as pessoas 
que vivem com HIV/aids.
No entanto, há estudos que indicam o estilo de vida 
caótico de alguns usuários de álcool e outras drogas 
como fator determinante para a não-adesão, e não o 
uso de drogas em si.
No Brasil, faz parte do \u201csenso comum\u201d da popula-
ção que bebidas alcoólicas e medicamentos não podem 
ser utilizados concomitantemente. Esse \u201cconceito\u201d 
pode contribuir para que mesmo pessoas com alta ade-
são ao tratamento, e que fazem \u201cuso social\u201d de álcool, 
suspendam a medicação (\u201cferiado do tratamento\u201d) para 
consumir bebidas alcoólicas, ainda que socialmente.
Entre os fatores que estão associados à melhoria 
da adesão, incluem-se: a confiança do paciente no 
tratamento, suporte social adequado, experiência do 
médico e regularidade nas consultas.
O início do tratamento, as trocas de esquema e 
a ocorrência de efeitos adversos são momentos 
essenciais de reforço à adesão ao tratamento. O 
apoio à adesão deve começar mesmo antes do iní-
cio da terapia anti-retroviral, persistindo ao longo 
de todo tratamento, conforme as necessidades de 
cada paciente, mesmo para aqueles considerados 
inicialmente como \u201caderentes\u201d (Documento de 
Diretrizes de Adesão, PN-DST/AIDS, 2007).
Portanto, além do início do tratamento, o médico 
deve estar atento a todas as etapas do seguimento clíni-
co, especialmente a mudança de esquema anti-retrovi-
ral, as possíveis variações de humor (como nas reações 
depressivas) e no medo de enfrentar o diagnóstico e 
de revelá-lo à família ou ao(à) parceiro(a).
Algumas intervenções que resultam em impacto 
positivo na adesão ao tratamento incluem uma combi-
nação de estratégias, tais como fornecimento de infor-
mação sobre a doença e o tratamento, aconselhamento 
e mensagens escritas. 
Portanto, é essencial que o paciente tenha conhe-
cimentos básicos sobre a doença e seu tratamento, 
as formas de transmissão (essencial para a pre-
venção secundária), a história natural da doença, 
o significado e utilidade dos exames laboratoriais 
(como a contagem de linfócitos CD4+ e a carga 
viral) e os possíveis efeitos adversos em curto 
e longo prazos. Tendo acesso às informações e 
promovendo a própria autonomia, o paciente se 
fortalece para enfrentar as adversidades trazidas 
pela doença e seu tratamento.
A oferta pelos serviços de saúde de ações direcio-
nadas à adesão, tais como grupos, consulta indi-
vidual, interconsultas, garantia de atendimento 
fora da data agendada, atividades na comunidade 
e no domicílio, são importantes particularmente 
para populações sob maior risco de má adesão ao 
tratamento (Documento de Diretrizes de Adesão, 
PN DST/AIDS, 2007).
Referências bibliográficas
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Recomendações para Terapia Anti-retroviral em Adultos Infectados pelo HIV 33
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