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METAMORFOSE MACHADIANA A TRANSIÇÃO ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO EM A CHINELA TURCA

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METAMORFOSE MACHADIANA – A TRANSIÇÃO ENTRE O REAL E O
IMAGINÁRIO EM “A CHINELA TURCA”
O presente trabalho se propõe a analisar o conto “A chinela turca”, cuja aparição primeira se
deu em 1875, assinada pelo pseudônimo Manassés, mas que fora mais tarde, em meados de 1822,
publicada no livro “Papéis Avulsos” de Machado de Assis. Desta forma, buscaremos explorar em
“A chinela turca” os enigmas que compõe a ficção machadiana, atendando-se principalmente à
chamada dupla face da narrativa, fundamentada pela ambiguidade gerada pelo embate entre o real e
o imaginário. Para tanto, utilizaremos como recurso teórico os estudos de Antônio Candido (1995).
Entende-se pela palavra “ambiguidade” no contexto aqui apresentado, como a coexistência
de dois ou mais sentidos distintos. Dentro do gênero conto, devido à brevidade filosófica que este
assume, Machado constrói a ambiguidade através de aforismos e metáforas e, na obra em questão, a
elipse se torna a principal ferramenta que possibilita ao público, vários níveis de leitura e que
desboca, segundo o esquema proposto por Candido (1995), em duas questões marcantes, sendo elas
respectivamente, o aspecto da modernidade em contraste com tons arcaicos e a problemática entre o
fato real e o fato imaginado.
Nas palavras do autor, “a sua técnica (Machado de Assis) consiste essencialmente em
sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida (como os ironistas do século XVIII); ou
em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial; ou
em sugerir, sob aparência do contrário, que o ato corriqueiro. Aí está o motivo da sua modernidade,
apesar de seu arcaísmo de superfície.” (CANDIDO, 1995, p.6). Ao passo que, a problemática entre
o fato real e o fato imaginado atua como um dos eixos que norteiam as problemáticas elencadas
por Machado de Assis, das quais o romance Dom Casmurro (1899) figura como principal obra
relacionada a esta. Ora, ambas as características machadianas podem ser encontradas em “A chinela
turca”, narrativa cujo leitor crê ler a verdade, enquanto de fato, lê uma mentira.
Para melhor entender os mecanismos linguísticos que tecem a dicotomia entre o real e o
imaginário dentro da história, dividiremos o referido conto em cinco períodos distintos, a nomear:
I. Introdução do enredo; II. Chegada do Major Lopo Alves; III. Prisão de Duarte; IV. Chegada e
fuga da mansão; V. Revelação do duplo enredo. Os seguintes parágrafos se dedicarão a melhor
explanar as ideias aqui elencadas.
I. De primeiro momento, a diegese é instaurada em uma noite de 1850, ao colocar o
leitor de frente com Duarte, um bacharel que ansiosamente se apronta para um baile, onde
encontrará sua amada. Ao anunciar “Vede o bacharel Duarte (...)” (ASSIS, 1888, p.295) é
como se a personagem fosse colocada em cena diante da observação onisciente do narrador.
“Através de uma analepse, sabemos que o rapaz estava ansioso para ver Cecília, moça
recém-conquistada: Datava de uma semana aquele namoro. Seu coração, deixando-se
prender entre duas valsas (…). (ASSIS,p.295). O sumário e a elipse ocorrentes nesse
primeiro parágrafo têm o objetivo de fornecer concisão ao enunciado.” (CARDOSO,
Patrícia Alves, 2013, p.104).
II. No decurso da história, enquanto o Bacharel aguarda o baile, Major Lopo Alves,
figura autoritária mas que, deveria ser tratada com simpatia e respeito, visto parentesco com
a moça amada, o interrompe, e em uma onda de entusiasmo conta que voltou a produzir,
após assistir uma peça ultrarromântica – escola pela qual o movimento realista se opunha,
essa oposição se faz clara em momentos onde “o narrador critica a estrutura do drama
com os excessos de um romantismo trágico” (CARDOSO, Patrícia Alves, 2013, p. 105) – e
que gostaria de ouvir a opinião de Duarte, acerca de seu mais recente escrito.Com intenção
em demonstrar a oposição ação (o tratamento simpático fornecido ao Major) X intenção
(pressa em ir ao baile) a focalização passa a ser nos pensamentos de Duarte, enquanto isso,
há também um véu de comicidade que se dá pelo jogo entre interesse e paciência.
“Com um comentário do enunciador, há a introdução de uma elipse que é fundamental
para a arquitetura desse conto: Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha
ferocidade; mas a leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos espantosos (...)
(ASSIS, 1994, p.297). São esses fenômenos espantosos que conduzirão o resto da narrativa,
portanto, é a omissão dos fatos da diegese que gerará os sentidos na trama. Pelo fato de a
elipse ser implícita, o leitor acredita que o rapaz, cansado de ouvir o fastidioso drama do
major, deixou de prestar atenção e aquele foi embora ressentido. O que parece pensamento,
na verdade é um sonho e a ocorrência deste só é revelada ao final do texto: (...) fugiam-lhe
ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecília; via-a com os olhos
azuis (…). (ASSIS, 1994, p.297). Portanto, o que parecia realidade (diegese) era de fato um
delírio (trama). A manutenção dessa elipse é importantíssima.” (CARDOSO, Patrícia Alves,
2013, p. 106).
A ida repentina de Lopo Alves nada mais era do que a manifestação de um desejo inconsciente
de Duarte. Neste momento é possível inferir que já este já estivesse dormindo, devido ao vácuo
temporal dos acontecimentos, e então se é gerada a impressão de que o fato realmente ocorre: “De
repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se,
cravava nele uns olhos odientos e maus, e saía arrebatadamente do gabinete (...)” (ASSIS, 1994,
p.297)
III. Após a saída do Major, uma nova história entre em cena: Duarte é preso por um
homem que se diz policial após uma estranha acusação, o roubo de uma chinela turca.
Duarte, assim como o leitor, não entende de fato o motivo daquele rapto. Afinal, nunca
antes fora mencionado no texto a existência de uma chinela turca.
“Fica claro o papel do enunciador, que é o de mediar para o leitor a história ocorrida
nos delírios do Duarte. Enquanto ele reproduz o sonho, realidade até então para o
enunciatário, faz interferências oniscientes. Esse processo pode ser notado quando,
através de uma analepse, a personagem explica ao rapaz a origem da chinela: A dona,
que é uma de nossas patrícias mais viageiras, esteve, há cerca de três anos, no Egito
(…). (ASSIS, 1994, p.298). Segue o comentário do sujeito da enunciação: A história,
que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto da indústria muçulmana, é
verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao
caso dizê-la. (ASSIS, 1994, p.298). Como vemos, o narrador conta para o leitor que
tudo não passa de mentira, porém, ao limitar a inverdade apenas à história do policial,
faz com que o leitor continue enganado, isto é, o enunciador decide deixar o
enunciatário livre em sua ilusão.” (CARDOSO, Patrícia Alves, 2013, p. 107).
IV. O auge do imaginário se instala, no entanto, com a chegada de Duarte à mansão,
levado obviamente, pelos policiais. Ali Duarte é apresentado a uma moça parecida com
Cecilia, sua amada, e pedem para ao bacharel três coisas, respectivamente: casamento com
a moça misteriosa; escritura de um testamento, para garantir à sua esposa, acesso as suas
riquezas; e por fim, o suicídio. “Todos esses fatos sustentam a atenção do leitor, cada vez
mais interessado no desvendar dos fatos”. (CARDOSO, Patrícia Alves, 2013, p. 108)
“- Meu caro doutor, esta é a noiva.
A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de
casar.
- Três coisas vai o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o
velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira
engolir droga do Levante...
- Veneno! interrompeu Duarte.
- Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.”
(ASSIS, p. 298)
Neste ponto da narrativa, absolutamente nada do que acontece com Duarte parece
real: enquanto este tenta fugir de tal situação pulando pela janela, assim como o Padre o
houvera aconselhado, as cenas que seguem seu ato de rebeldia setornam um tanto
chocantes, visto que o bacharel acaba por se envolver numa violenta briga com um de seus
sequestradores, e com muita dificuldade, segue em sua fuga, transformando-a em um tenso
momento de ação, até que finalmente encontrar uma casa. Cansado, ferido e ofegante,
Duarte entra naquela casa e para sua surpresa, se encontra com o Major Lopo Alves (de
novo). E assim, retornamos ao início com o Major concluindo a obra que havia escrito “—
Então! Que tal lhe pareceu?” (ASSIS, p. 300).
V. Por fim, chega o momento em que o leitor percebe que o bacharel tinha sido, na
verdade, absorvido pelo seu imaginário (provavelmente em um sono profundo), e em seu
trance, ele figurava como personagem da história que narrada pelo Major. Durante o
percurso da narrativa, o leitor não percebe que a estória agora está em outro plano, e que
não mais se trata da realidade de Duarte, senão, de uma realidade ficcional que faz parte da
narrativa escrita pelo Major, que submerge ao personagem principal, quanto ao leitor. Só
percebemos que tudo era parte do imaginário quando, aos moldes Machadianos, quando a
história é concluída, através do aforismo "...provaste-me ainda uma vez que o melhor
drama está no espectador e não no palco.". (ASSIS, p. 300). “Esse final é riquíssimo de
sentidos; até mesmo metaliterário. Isto porque evidencia-se a importância que se dá ao
processo de refiguração da intriga, centrado no leitor. Por mais sagaz que seja o narrador, o
enunciatário também deve compactuar com os objetivos de quem escreve. Além de irônica,
essa conclusão gera vários sentidos, pois somada à questão do leitor está também a da
criação artística. Afinal, a aventura sonhada foi muito mais expressiva, criativa e atraente
do que o drama mórbido do major.”
Resumidamente, “A chinela turca” se trata de um texto que possui um narrador
heterodiegético e onisciente, cujo foco narrativo se mantém, na maior parte do tempo, em terceira
pessoa, onde o narrador aplica para as falas o recurso de discurso indireto livre, e a metáfora é uma
figura que está sempre presente em todo o texto. O espaço real é fechado já que sempre se
mantiveram na casa do bacharel Duarte, enquanto que no plano imaginário, o espaço é aberto, já
que o bacharel parte da casa num carro até uma mansão. O tempo é psicológico, pois todos os
acontecimentos principais sucedem numa fantasia inconsciente na cabeça de Duarte enquanto eles
estão num quarto, no entanto, há momentos em que o tempo também é cronológico, com o intuito
de demonstrar o estado tedioso em que o Bacharel se encontra, ao descrever os ponteiros do relógio
batendo vagarosamente.
Para concluir, pode-se dizer que A Chinela Turca é mais um conto de Machado de Assis que
faz com que o leitor ponha em cheque a veracidade dos atos, através de uma narrativa altamente
ambígua, já que ele mesmo não percebe que não se encontra mais na realidade que acreditava estar.
Todos os fatos não passam mais que de um sonho, que começaria no trecho “Voava o tempo, e o
ouvinte já não sabia a conta dos quadros.” (ASSIS, p. 297). É somente no final do conto que a
realidade é revelada; esses aspectos metafóricos e fantásticos fazem parte da narrativa Machadiana,
sobre tudo, se trata de um texto que possui uma linguagem agradável e até humorística, que mantém
características próprias da época e que se mistura com o imaginário, deixando no leitor uma dose de
reflexão para pensar sobre o que realmente está acontecendo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CARDOSO, Patrícia Alves. A dupla face machadiana em “A chinela turca”. Intercursos Revista
Científica, v.12, n. 2, Jul-Dez. 2013.
ASSIS, J. M. M. de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. II
CANDIDO, Antonio. Esquema Machado de Assis _ in: Vários Escritos. 3ª ed. rev. e ampl. - São Paulo:
Duas Cidades, 1995.
ISER, Wolfgang: O Fictício e o Imaginário – Perspectivas de uma Antropologia Literária. Rio de
Janeiro: Eduerj.