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01 - Teoria / Nascimento e consolidação da sociologia

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K 1 Nascimento e consolidação da sociologia
Em vários países da Europa, o século XIX foi o tempo 
de muitas novidades tecnológicas: locomotivas, bondes, 
fios elétricos. Lâmpadas incandescentes afastaram a es-
curidão da noite. A sociedade tornou-se rápida e dinâmica, 
e o mundo passou a ser visto pela velocidade dos novos 
veículos; o tempo, congelado por meio da fotografia. A so-
ciologia, como ciência, é fruto desse novo panorama que 
se apresentou na Europa Ocidental, resultante das conse-
quências do Renascimento Cultural, da Revolução Científi-
ca, do Iluminismo, da Revolução Francesa e da Revolução 
Industrial, pois era imprescindível que se buscasse enten-
der os processos e elementos relativos à modernidade. Da 
Europa, esse mundo novo e suas características se esten-
deriam para outros continentes.
1. As origens da sociologia
As mudanças tecnológicas que se cristalizaram no sécu-
lo XIX resultaram de uma revolução pela qual passou parte 
significativa dos países europeus. A industrialização e a urba-
nização geraram novos hábitos que foram incorporados pela 
sociedade. A própria percepção temporal foi transformada e 
tornou-se distinta daquela existente em períodos anteriores, 
quando era condicionada pelos ciclos e fenômenos naturais. 
Naquele momento histórico, a vida encontrava-se acelerada 
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pelo ritmo alucinante que a cidade vinha desenvolvendo e 
que foi absorvido por vários de seus habitantes.
Concomitantemente a esse novo mundo, outras socie-
dades iam sendo conhecidas pelo Ocidente, por meio da ex-
pansão europeia em direção à África e à Ásia. Uma das conse-
quências desse processo foi o contato com outros povos, o 
que aguçou a curiosidade dos europeus.
Esses fatores são alguns dos principais motivos que ex-
plicam o nascimento das Ciências Humanas, em particular da 
sociologia e da antropologia.
A. A ciência e o nascimento das “humanidades”
O novo cenário que se apresentava na Europa não foi cons-
truído do dia para a noite. Tais transformações sistêmicas guar-
davam raízes principalmente do século anterior, o século XVIII, 
também conhecido por Século das Luzes, uma clara referência 
ao impacto e importância das ideias iluministas que começaram 
a se espalhar pelo continente europeu, com foco principal na In-
glaterra, na França e na região que corresponde à atual Alema-
nha, na época dividida em vários pequenos reinos germânicos.
As ideias iluministas romperam diretamente com a ordem 
estabelecida pelo Antigo Regime, em termos políticos, e com 
as explicações religiosas providenciadas pelo clero católico, 
em termos intelectuais. A razão natural tornou-se o principal 
instrumento de análise e compreensão do mundo ao redor da 
humanidade. Dessa forma, houve uma ruptura com as formas 
de pensamento baseadas nos dogmas e no conservadorismo 
religioso. Esse fato causou impacto na pesquisa científica, a 
qual passou a ser apoiada por práticas dedutivas e indutivas 
na tentativa de alcançar o conhecimento mais racional possí-
vel sobre o funcionamento da natureza e suas leis, consoli-
dando a Revolução Científica iniciada no século XVII.
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Estátua do filósofo francês Voltaire (1694-1778) – cujo verdadeiro 
nome era François Marie Arouet – no Hôtel de Ville de Paris. 
Voltaire foi um dos principais nomes do Iluminismo francês.
A disseminação dos princípios iluministas também in-
fluenciou a burguesia europeia, que se identificou com tais 
princípios. Com isso, a ideia de felicidade passou a se tornar 
um objetivo palpável, já que a compreensão da natureza im-
plicava, para os iluministas, a busca por meios de controlá-la. 
Essa motivação tornou-se também uma das responsáveis 
pelo salto tecnológico ocorrido a partir do fim do século XVIII.
Os conceitos de felicidade, liberdade e progresso torna-
ram-se, neste contexto, sinônimos e principais sustentáculos 
do pensamento racional, condutor das transformações da 
sociedade, superando o período da tradição nobiliárquico-
-clericial. Essa superação, por sua vez, foi identificada com a 
ocorrência das revoluções burguesas, particularmente a Re-
volução Industrial inglesa e a Revolução Francesa (denomi-
nadas ‘dupla revolução’), ambas responsáveis por alterar em 
definitivo o cenário europeu, tanto do ponto de vista econômi-
co quanto do ponto de vista político.
Esse processo revolucionário iniciou-se na Inglaterra, em 
1689, quando a Revolução Gloriosa consolidou o poder do 
Parlamento sobre a instituição real e expandiu-se pela Europa 
com a propagação dos ideais iluministas, promovida, poste-
riormente, por Napoleão Bonaparte.
Dessa maneira, os países europeus que experimentaram 
de perto essas transformações viram-se subitamente modi-
ficados, abandonando em definitivo o modelo social consti-
tuído por um rei cercado de súditos – cujo único objetivo era 
satisfazer a vontade de seu soberano –, substituindo-o pelo 
modelo republicano, fundado na participação política.
B. O nascimento da sociologia
Para entender a história da sociologia, é necessária a 
apresentação de um panorama de seus principais autores, 
que pode ser considerado como um dos mais representativos 
caminhos do mundo moderno. Dar visibilidade às principais 
teorias sociológicas que procuraram entender certos nexos 
das relações sociais é um esforço de compreensão dos pró-
prios contextos históricos que produziram tais teorias. Há 
também um esforço em estabelecer a possibilidade de lançar 
luzes ao entendimento do atual estágio de desenvolvimento 
dos movimentos sociais numa sociedade global influenciada 
pelos debates entre os vários pensamentos sociológicos des-
de seus primórdios.
Para alguns historiadores do pensamento social, a ori-
gem de uma ideia da ciência sociológica poderia ser encon-
trada no pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.), mais 
precisamente na Política, em que já se encontrariam análi-
ses das instituições de sociabilidade do homem no espaço 
chamado cidade. Outros autores defendem a organicidade 
do pensamento sociológico iniciada com o filósofo e escritor 
francês Montesquieu (1689-1755). A obra O espírito das leis 
(publicada originalmente em 1748) remete a uma análise 
dos regimes políticos e procura apreender todos os setores 
do conjunto social em suas articulações, nas suas relações 
múltiplas e variáveis.
Para pensar o campo preciso da sociologia, deve-se procu-
rar sua gênese no século XIX entre uma série de pensadores 
que, de alguma forma, assimilaram o racionalismo iluminista 
e cientificista produzido até então. Nesse amplo universo, es-
tão desde uma sociografia (sociologia empírica e quantitativa) 
de Pierre-Guillaume-Frédéric Le Play (1806-1882) e Lambert 
Adolphe Jacques Quételet (1796-1874), passando pela física 
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social de Auguste Comte (1798-1857) – herdeiro intelectual de 
Saint-Simon (1760-1825) –, até as teorias funcionalistas de 
Émile Durkheim (1858-1917), o posicionamento crítico de Karl 
Marx (1818-1883) e o pensamento de Max Weber (1864-1920). 
Pode-se citar ainda os pensadores Pierre-Joseph Proudhon 
(1809-1865), Alexis de Tocqueville (1805-1859), autores que 
também são considerados representantes da formação do 
pensamento sociológico clássico.
Daremos destaque, num primeiro momento, ao pensa-
mento de Saint-Simon e Auguste Comte, responsáveis pelas 
bases fundamentais da sociologia. 
C. Saint-Simon
No cenário do século XIX de expansão da visão racionalis-
ta de mundo e de substituição de monarquias absolutistas por 
monarquias parlamentares e repúblicas liberais, desponta a 
figura de Saint-Simon (1760-1825), nascido Claude-Henry de 
Rouvroy. Desapegou-se de seus bens materiais aos 40 anos, 
tornando-se um dos principais defensores dos ideais iluminis-
tas e da aplicação da razão natural às questões humanas.
Saint-Simon identificava o uso do pensamento racional 
como