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Trabalho - Mito, Linguagem E Música em Levi-Strauss

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TRABALHO 
Mito, Linguagem E Música 
 
Introdução 
Ao se tratar do assunto de mito, linguagem e música em Lévi-Strauss, é 
necessário ter em mente, primeiramente, a noção de estrutura. O princípio fundamental 
dessa noção é que ela não se dá na realidade empírica, mas sim, aos modelos 
construídos a partir dela. O objetivo do autor na sua obra Antropologia Estrutural 
(1975) é revelar as estruturas ocultas, que estão presentes nas relações sociais. Muitas 
vezes, a noção de estrutura social foi confundida com a de relações sociais. Estas 
últimas são as matérias primas empregadas para a construção do modelo que tornará 
manifesta a estrutura social. 
No capítulo intitulado A noção de estrutura em etnologia da obra citada acima, 
Lévi-Strauss aponta quatro condições necessárias de um modelo para merecer o nome 
de estrutura, sendo 
Em primeiro lugar, uma estrutura apresenta um caráter de sistema. 
Consiste em elementos tais que uma modificação de qualquer um deles 
acarreta uma modificação de todos os demais. 
Em segundo lugar, todos os modelos pertencem a um grupo de 
transformações, cada uma das quais correspondendo a um modelo da mesma 
família, de modo que o conjunto dessas transformações constitui um grupo de 
modelos. 
Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever 
de que modo reagira o modelo em caso de modificação de um de seus 
elementos. 
Finalmente, o modelo deve ser de tal modo construído que seu 
funcionamento possa dar conta de todos os fatos observados (LÉVI-
STRAUSS, 2008, p. 302). 
 
Entende-se a partir disso, que no caráter sistêmico, a modificação de um de seus 
elementos afeta todos os outros; no caráter grupal, um modelo deve corresponder a um 
grupo de transformações na sociedade, existindo, portanto, não só uma estrutura, mas 
um conjunto de estruturas; com o caráter de previsibilidade, as configurações de uma 
estrutura devem permitir que se tenha uma ideia prévia de como ele reagirá caso se 
modifique algum de seus elementos; já no caráter totalizante, um modelo explicativo da 
sociedade deve ser construído de modo que possa dar conta da explicação de todos os 
fatos que possam ser observados nesta sociedade num dado momento. 
 
Desenvolvimento 
 O ponto de partida será entender o que é um mito e sua correlação com a 
linguagem de acordo com Lévi-Strauss. A princípio houve diversas explicações para os 
mitos, uns acreditavam que cada sociedade expressava nos mitos sentimentos 
fundamentais, como por exemplo o amor, ódio, vingança, etc. Já outros, viam o mito 
como tentativa de explicação de fenômenos de difícil compreensão, astronômicos, 
meteorológicos, etc. 
 No entanto, psicólogos e etnólogos necessitavam substituir tais explicações e 
interpretações, investiram nas explicações psicológicas e sociológicas que tinham a 
mitologia como reflexo da estrutura social e das relações sociais. Segundo Lévi-Strauss, 
nota-se uma contradição, visto que: 
Tudo pode acontecer num mito. A sucessão dos eventos não parece estar aí 
submetida a nenhuma regra de lógica ou de continuidade, qualquer sujeito 
pode possuir qualquer predicado, qualquer relação concebível é possível. 
Contudo, os mitos, aparentemente arbitrários, se reproduzem com as mesmas 
características e, muitas vezes, os mesmos detalhes, em diversas regiões do 
mundo. Daí a questão: se o conteúdo do mito é inteiramente contingente, 
como explicar que, de um extremo a outro da terra, os mitos se pareçam 
tanto? (LÉVI-STRAUSS, 1958, 223) 
 
 Não obstante, tal contradição assemelha-se aos primeiros filósofos, visto que 
esses raciocinavam quanto a linguagem do mesmo modo que Lévi-Strauss com a 
mitologia. A língua em diversos grupos de sons correspondia a certos sentidos, dessa 
forma procuravam compreender qual necessidade interna unia tais sentidos a tais sons, 
porém foi inútil, visto que os mesmos sons se assemelham em outras línguas, em 
sentidos diferentes. Só foi possível resolver tal contradição, no momento em que se 
notou que a função significativa da língua não estava diretamente ligada aos sons entre 
si, mas como os sons combinam entre si. 
 Lévi-Strauss, entretanto, afirma que “aproximar o mito da linguagem não 
resolve nada: o mito faz parte da língua, é pela palavra que o conhecemos, ele pertence 
ao discurso” (LÉVI-STRAUSS, 1958, 224). É necessário, portanto, segundo o autor, 
edificar que o mito está ao mesmo tempo além da linguagem e na linguagem. Claude 
Lévi-Strauss menciona Saussure (1857-1913), que via a linguagem em um duplo 
aspecto, estrutural e estatístico, além disso, a língua segundo ele pertencia a um tempo 
reversível e a fala a um tempo irreversível. Jogando dessa forma, a língua e a fala para 
sistemas temporais. 
De acordo com o autor, um mito também pode ser definido por um sistema 
temporal, já que condiz com as propriedades da língua e da fala. Visto que “um mito 
sempre se refere a eventos passados, “antes da criação do mundo” ou “nos primórdios”, 
em todo caso, “há muito tempo” (LÉVI-STRAUSS, 1958, 224-225). Não obstante, o 
valor inerente do mito é que permanece por pior que seja a tradução, além disso, 
supostos eventos referem-se simultaneamente ao passado, ao presente e ao futuro. O 
autor compara eventos míticos a ideologias políticas, dando como exemplo a Revolução 
Francesa, visto que é um evento passado que tem consequências longínquas, assim 
como um mito. Ao referir-se a essa dupla estrutura, histórica e a-histórica, o mito pode 
permanecer ao menos tempo no âmbito da fala e da língua. 
Não obstante, de acordo com Lévi-Strauss: 
Resumamos as lições provisórias a que chegamos. São três. 1) 
Se os mitos possuem um sentido, este não pode decorrer dos 
elementos isolados que entram em sua composição, mas na maneira 
como esses elementos estão combinados. 2) O mito pertence à ordem 
da linguagem, faz parte dela; entretanto, a linguagem, tal como é 
utilizada no mito, exibe propriedades específicas. 3) Tais propriedades 
só podem ser busca- das acima do nível habitual da expressão 
linguística; em outras palavras, elas são de natureza mais complexa do 
que as que se encontram numa expressão linguística de um tipo 
qualquer. Se forem aceitos esses três pontos, ainda que como 
hipóteses de trabalho, decorrem deles duas consequências muito 
importantes.1) Como todo ser linguístico, o mito é formado de 
unidades constitutivas. 2) Essas unidades constitutivas implicam a 
presença de todas aquelas que intervêm normalmente na estrutura da 
língua, a saber, os fonemas, os morfemas e os semantemas. Mas elas 
estão em relação a estes últimos como eles próprios em relação aos 
morfemas, e estes em relação aos fonemas. Cada forma difere da que a 
precede por um grau mais alto de complexidade. Por essa razão, 
chamaremos os elementos que são próprios do mito (e que são os mais 
complexos de todos) de grandes unidades constitutivas (LÉVI-
STRAUSS, 1958, 226) 
A relação estabelecida por Lévi-Strauss entre mito e música é descrita na 
introdução de O cru e o cozido, em que se argumenta que o mito não poderá ser 
entendido de uma maneira linear, assim como também uma partitura de música jamais é 
lida unicamente dessa forma. A leitura completa de um mito não ocorre linha por linha, 
da esquerda para a direita. Pelo contrário, o mito deve ser entendido em sua totalidade, 
sendo que seu significado é transmitido não apenas pela sucessão dos fatos, mas por 
várias junções desses fatos. Por esse ponto, Lévi-Strauss propõe uma leitura do mito 
como a leitura de uma partitura de música, em que não faz sentido analisar pauta por 
pauta, mas sim a página inteira. As notas lidas sozinhas não possuem sentido algum, 
apenas será entendido caso haja a junção delas. Da mesma forma, portanto, ele propõe 
que um mito seja lido como uma partitura, ou seja, de forma integral. 
A principal característica da música e do mito, é que ambos acionam estruturas

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