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09 - Teoria / Aspectos da Sociologia na contemporaneidade - Brasil e mundo

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Nesse capítulo, conheceremos um pouco mais a respeito do 
surgimento e do desenvolvimento da Sociologia no Brasil, além 
de aspectos dessa ciência na contemporaneidade. O tema 
“reforma agrária”, sobretudo em relação ao Brasil, receberá 
especial atenção.
Aspectos da Sociologia na
contemporaneidade: Brasil e mundo 10
A Sociologia é uma ciência 
de grande importância para 
a compreensão das mais 
variadas relações sociais 
que os seres humanos 
estabelecem em todo o 
mundo. Esse conhecimento, 
desde que bem utilizado, pode 
ser útil para criar melhores 
condições de convivência 
entre as pessoas, seja no 
âmbito socioeconômico, seja 
no âmbito político-cultural.
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1. Reforma agrária
Se considerarmos a história do Ocidente, iniciaremos a 
trajetória de organização e desenvolvimento das sociedades 
grega e romana a partir do domínio de alguns grupos sociais 
sobre a terra e da exclusão de outros.
Assim, notamos que a questão da terra é o elemento bá-
sico das distinções sociais no mundo antigo greco-romano. 
Aqueles que se assenhoreavam da terra eram considerados 
aristocratas em oposição aos elementos populares, ou seja, 
aqueles que não possuíam terras. 
Essa clivagem serviu também para a exploração eco-
nômica dos despossuídos, marcando um modelo em que o 
controle dos meios de produção, no caso a terra, permitia o 
exercício do poder e ganhos consideráveis sobre os grupos 
populares da sociedade. 
De certa maneira, guardadas as especificidades de cada 
época da história do Ocidente, esse modelo de organização 
social serviu de baliza para o entendimento das diferenças no 
interior da sociedade. 
Falar, então, de mudanças sociais e de melhorias nas 
condições de vida da população, de forma geral, é entender 
a questão agrária. 
Em Atenas, por exemplo, no século VI a.C., foi o tirano 
Psístrato que reduziu as diferenças sociais ao realizar uma 
distribuição de terras para os thetas, homens do povo ate-
niense que não possuíam domínios territoriais. 
Em Roma, as tentativas de reforma promovidas pelos ir-
mãos Graco, no século II a.C., estiveram vinculadas à distribui-
ção do ager publicus (terras públicas) aos plebeus.
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Os irmãos Graco foram tribunos da plebe que defenderam a distribuição 
de terras e a criação da “lei frumentária”, que permitia a distribuição 
do trigo entre os plebeus. A questão agrária foi importante na história 
de Roma e contou com a oposição da elite romana. Um membro 
da aristocracia romana contrário à reforma agrária foi o senador 
Cícero, que chegou a afirmar no Senado: “Aqueles que desejam a 
popularidade e, por este motivo, agitam a questão agrária a fim de 
expulsar os proprietários de suas terras, abalam os fundamentos do 
Estado”. A reforma agrária romana abalou os membros do Senado, 
os grandes latifundiários, resultando em perseguições e mortes.
Todas essas iniciativas, além de muitas outras na história, 
tiveram conteúdo social e foram marcadas por agitações popu-
lares, violência e tentativas de reordenamento da sociedade. 
A. O caso brasileiro: do início à consagração 
da estrutura fundiária concentradora
Pensar a história do Brasil também é situá-la no debate 
em torno da questão agrária. Afinal, a história de ocupação 
portuguesa, de colonização, foi pontuada pela tomada de ter-
ras dos indígenas e pela apropriação, por meio de expedien-
tes jurídicos lusos, do território, atendendo aos interesses 
metropolitanos e fornecendo vastos domínios aos que se in-
teressavam em colonizar o espaço americano, definido como 
português pelo Tratado de Tordesilhas (1494). 
O sistema de capitanias hereditárias e a exigência de 
distribuição de terras (sesmarias) já indicam não apenas 
o controle do território por parte de Portugal, mas também 
a definição de um sistema de concentração fundiária no 
Brasil colonial.
 A terra era do Estado, e os colonos possuíam o direito 
de posse e uso dela. Esse modelo de distribuição territorial 
existiu até a independência e chegou ao Segundo Reinado 
da história do Brasil. Só em 1850, com a Lei de Terras, é que 
se fechou o ciclo de distruibuição pelo sistema de sesma-
rias e se instituiu propriamente a propriedade privada da 
terra no país. 
Devemos associar a aprovação dessa lei (1850) ao pro-
cesso lento de emancipação do escravo. A Lei Eusébio de 
Queirós, outro ato legislativo de 1850, foi o primeiro passo 
nesse sentido, ao proibir o tráfico internacional de escravos 
para o Brasil. Para muitos, era uma questão de tempo, em 
breve a escravidão acabaria e aquela massa escrava poderia 
pleitear terra, junto aos poderes públicos, para trabalhar de 
forma independente de seus antigos donos. 
A ideia, então, era impedir o acesso à terra e fazer com 
que os futuros “ex-escravos” continuassem na dependência 
dos seus senhores. Afinal, tornando-se livres, não poderiam 
pleitear terras junto à autoridade pública pelo sistema de 
sesmarias, tendo que comprá-las. Como não tinham recursos 
para a compra, acabariam, apesar de livres, na dependência 
dos seus ex-senhores. 
Lei de terras
Nº 601, de 18 de setembro de 1850
A partir dessa data só poderiam ser ocupadas terras 
por compra e venda ou autorizada pelo imperador.
Findava-se o regime de sesmarias.
As terras ainda não ocupadas passariam 
a ser propriedade do Estado.
Só poderiam ser adquiridas terras por meio de compra 
nos leilões, mediante pagamento à vista.
As terras já ocupadas seriam regularizadas 
como propriedade privada.
O resultado dessa política de exclusão do acesso à 
terra foi que, apesar da dimensão territorial continen-
tal do Brasil, poucos ficaram com grandes extensões e 
muitos desprovidos de domínios territoriais. Em outras 
palavras, o Brasil mantinha uma estrutura fundiária alta-
mente concentrada. 
Ainda existiam espaços livres, de domínio do Estado, 
que logo foram ocupados e, assim, populações sertanejas 
passaram a viver em comunidades mais ou menos isoladas. 
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Vários conflitos surgiram quando interesses econômicos 
das elites passaram a valorizar esses espaços ocupados. 
Como as populações não possuíam títulos de propriedade, 
logo apareciam documentos produzidos em cartórios, afir-
mando a propriedade da terra para este ou aquele membro 
da oligarquia brasileira e, por meio desse expediente (grila-
gem), os sertanejos eram expulsos de forma violenta dos 
espaços ocupados. 
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Em 1996, forças policiais mataram 19 trabalhadores rurais na 
marcha realizada pelo MST em defesa da reforma agrária. Conhecido 
como o massacre de Carajás, é um dos vários casos de violência 
no campo contra movimentos que defendem quer a modificação, 
quer a manutenção da estrutura fundiária brasileira.
B. Terra, conflitos sociais e 
modernização no Brasil
Devemos situar os conflitos sociais no interior de uma so-
ciedade historicamente agrária no Brasil, a fim de compreen-
der a questão da terra. Não é de se estranhar, então, que os 
primeiros movimentos sociais dignos de nota foram aqueles 
que se desenvolveram no campo. 
A história republicana foi marcada pelo desenvolvi-
mento de uma economia urbana, pelo deslocamento de 
populações do campo para as cidades e pela presença das 
fábricas no espaço citadino. Portanto, o êxodo rural ocor-
reu em virtude da situação difícil vivida no campo brasilei-
ro. Muitos que se dirigiram às cidades foram expulsos do 
campo devido às péssimas condições de vida e à violência 
praticada contra os sertanejos com a anuência das autori-
dades públicas. 
O movimento de Canudos e a Guerra do Contestado são 
exemplos significativos das atuações do poder público contra 
populações que dependiam do uso da terra para sobreviver. 
Alijados