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Alterações gravídicas

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Adaptações do organismo materno à gestação 
Já no início da gestação, a presença de células trofoblásticas no ambiente intrauterino altera a homeostase 
local e, em seguida, por meio da produção celular de hormônios e outras substâncias, o funcionamento de 
quase todos os sistemas maternos se adapta à nova condição. 
A função da placenta é especialmente endócrina, produzindo moléculas muito similares, se não idênticas, aos 
hormônios gerados por todas as glândulas do organismo. A produção de estrógenos e de progestógenos em 
altos níveis leva, respectivamente, a fenômenos angiogênicos e vasodilatadores. Além do componente 
endócrino, a placenta também atua na resposta vascular, por meio da elaboração de maior quantidade de 
prostaciclina, comparativamente à produção de tromboxano, de renina, de angiotensina e de hormônios 
adrenais que agem na quantidade e na composição dos derivados do sangue e na reatividade vascular. 
Consequentemente, é possível observar alterações essenciais para a adaptação do organismo materno à 
gravidez, em especial relacionadas aos sistemas circulatório (hematológico e cardiovascular) e endócrino 
(abrangendo também o metabolismo). As manifestações dessas adaptações em outros órgãos e sistemas são 
consideradas modificações do organismo materno à gestação e podem ser classificadas como locais (presentes 
nos órgãos genitais e/ ou sexuais) ou gerais (que surgem nos sistemas digestório, urinário, respiratório, 
nervoso, esquelético e em pele e anexos). 
Sistema circulatório 
Adaptações hematológicas 
A primeira adaptação circulatória observada na gestante se constitui de alterações do volume e da constituição 
do sangue. O volume sanguíneo materno aumenta consideravelmente durante a gravidez, atingindo valores 30 
a 50% maiores do que os níveis pré-gestacionais. O papel da hipervolemia no organismo materno está 
associado ao aumento das necessidades de suprimento sanguíneo nos órgãos genitais, especialmente em 
território uterino, cuja vascularização apresenta-se maior na gestação. Além disso, tem função protetora para 
gestante e feto em relação à redução do retorno venoso, comprometido com as posições supina e ereta, e para 
as perdas sanguíneas esperadas no processo de parturição. 
O aumento da volemia materna decorre do acréscimo de volume plasmático e, em menor proporção, da 
hiperplasia celular. Em geral, o aumento de volume plasmático é da ordem de 45 a 50%, enquanto o volume 
de células vermelhas se eleva em cerca de 30%, estabelecendo, portanto, estado de hemodiluição. 
Consequentemente, a viscosidade plasmática está menor, o que reduz o trabalho cardíaco. Esses processos 
adaptativos se iniciam já no primeiro trimestre de gestação, por volta da sexta semana, com expansão mais 
acelerada no segundo trimestre, para, finalmente, reduzir sua velocidade e estabilizar-se nas últimas semanas 
do período gravídico. 
A fisiologia da hipervolemia materna ainda não foi completamente elucidada, mas parece se tratar do 
surgimento de novo equilíbrio entre fatores envolvidos na retenção e na excreção de sódio e água, resultantes 
da vasodilatação sistêmica e do aumento da capacitância dos vasos. O sistema renina-angiotensina-aldosterona 
tem maior atividade na gestação de forma a suplantar a ação de mecanismos excretores, como o aumento da 
filtração glomerular e do peptídeo atrial natriurético. 
Durante a gravidez, apesar do aumento progressivo dos níveis séricos de peptídeo atrial natriurético, o 
aumento lento da volemia torna os receptores menos sensíveis ao seu estímulo, permitindo o acúmulo de sódio 
e água pelo organismo materno. Assim, a atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona suplanta os 
mecanismos de manutenção da volemia. 
Eritrócitos: Apesar da hemodiluição fisiológica observada na gestante, o volume eritrocitário absoluto 
apresenta aumento considerável. Em média, mulheres grávidas possuem 450 mL a mais de eritrócitos, com 
maior incremento no terceiro trimestre. A produção de hemácias está acelerada, provavelmente, em função do 
aumento dos níveis plasmáticos de eritropoetina, o que é confirmado pela discreta elevação do número de 
reticulócitos apresentado pelas gestantes. A vida média dessas células é menor durante a gestação. A 
Saúde da mulher 
Por: ANA CLARA MELO 
concentração de hemoglobina se encontra reduzida durante a gravidez, resultado da hemodiluição previamente 
discutida. Considerando-se que a produção eritrocitária seja maior no terceiro trimestre, essa redução relativa 
dos valores de hemoglobina é menor no fim da gravidez. Desse modo, gestantes com hemoglobina menor que 
11 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres ou 10,5 g/dL no segundo trimestre seriam consideradas anêmicas. 
Apesar dessa variação ocorrer, é consenso utilizar valores de hemoglobina inferiores a 11 g/dL para a definição 
de anemia na gestação. Da mesma forma, o hematócrito, cujos valores normais em não gestantes estão entre 
38 e 42%, chega a nível fisiológico de 32% durante a gravidez. 
Leucócitos: Existe aumento da produção da maioria dos elementos figurados do sangue na gravidez. O 
aumento dos níveis sanguíneos de leucócitos ocorre principalmente à custa de células polimorfonucleares. 
Apesar do maior número de neutrófilos, sua função se encontra deprimida, com diminuição de fenômenos 
quimiotáxicos e da expressão de molécuas de aderência. As proteínas inflamatórias da fase aguda apresentam 
aumento em todo o período gestacional. A velocidade de hemossedimentação, por sua vez, eleva-se por conta 
do aumento de fibrinogênio e de globulinas no sangue, perdendo seu valor em investigações diagnósticas na 
gravidez. 
Plaquetas: Os níveis plaquetários estão discretamente reduzidos na gravidez normal. Parte desse evento 
ocorre pelo fenômeno da hemodiluição, mas o consumo de plaquetas também está envolvido nesse processo, 
e certo grau de coagulação intravascular no leito uteroplacentário pode ser uma justificativa para esse achado. 
O aumento da produção de tromboxano A2 está associado à maior agregação plaquetária e, assim, à redução 
da contagem plaquetária. Um discreto aumento do baço também pode ser responsável pela queda observada 
no número de plaquetas na gravidez. Por essa razão, considera-se plaquetopenia na gestação uma contagem 
inferior ou igual a 100.000/mm3. Praticamente todos os fatores de coagulação apresentam-se elevados na 
gestação, com exceção dos fatores XI e XIII. A atividade fibrinolítica parece estar reduzida na gestação à custa 
da elevação de inibidores dos ativadores de plasminogênio (precursor da plasmina, que remove fibrina, 
metabólito final da cascata de coagulação), PAl-1 e PAI-2, e do inibidor da fibrinólise ativado pela trombina. 
Metabolismo do ferro: Uma série de eventos contribui para esse estado de deficiência a de ferro: consumo 
pela unidade fetoplacentária, utilização para produção de hemoglobina e de mioglobina para aumento da 
massa eritrocitária e da musculatura uterina, e depleção por perdas sanguíneas e pelo aleitamento. Por esse 
motivo, a não ser que haja suplementação adequada, a maioria das gestantes apresentará anemia ferropriva. 
Adaptações cardiovasculares 
Adaptações hemodinâmicas: Após a expansão volêmica, outras adaptações circulatórias devem ocorrer no 
organismo materno para comportar esse incremento de conteúdo sanguíneo. Na gravidez, o aumento da 
frequência cardíaca basal, geralmente em 15 a 20 bpm, e a elevação do volume sistólico determinam aumento 
do débito cardíaco. Esse processo se inicia por volta da quinta semana de gravidez, estabiliza-se por volta de 
24 semanas e atinge seu ápice no pós-parto imediato, com incremento de 80% no débito cardíaco. A postura 
da gestante pode exercer grande influência no débito cardíaco, especialmente nas últimas semanas da gravidez 
em função do grande volume uterino. A posição supina pode reduzir o débito cardíaco em 25 a 30%, em 
comparação com o decúbito lateral esquerdo, por conta