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ARTIGO PROJETO NA EI (1)

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espetáculo do mundo” (REZENDE, 1992). A indagação de uma criança parece muitas vezes fútil aos olhos do adulto. O que há no sexto planeta para ser explorado? Os oceanos? As montanhas? As cidades? Os desertos? Os rios? 
O que há no cotidiano das crianças do campo para ser explorado, conhecido e (re) conhecido, descoberto e (re) descoberto, criado e (re) criado? Quando colocamos o olhar e a escuta sensível às questões e curiosidades das crianças, estamos oportunizando a construção de saberes que se entrelaçam na dinâmica das relações e interações compondo redes de significações. 
A partir destas reflexões, vamos abordar a experiência de uma educadora com sua turma de educação infantil do campo. O projeto por nome “Passeio na casa do Amigo feliz” foi um nome escolhido pela própria turma. O relato abaixo demonstra como o projeto teve início. 
Em uma roda de conversa no ano de 2016 durante o período letivo, uma das crianças relata que na casa de uma determinada colega tem rio e que seria legal irmos até lá para conhecer. Em seguida outra criança manifesta interesse em receber a turma em sua casa também. A partir daí dialoguei com elas sobre a possibilidade de irmos à casa de todos os colegas fazermos uma espécie de exploração já que se trata de zona rural e cada sítio possui elementos diferentes com cotidianos e organizações diferentes, na qual iniciamos as visitas nas casas dos colegas da turma. Em 2017, na mesma comunidade, com a nova turma do Pré I e as crianças que iniciaram na turma do Pré II, em um dos momentos da roda de conversa um colega conta que um dia eu havia feito um passeio na casa dele quando sua irmã estudava comigo. (Referindo-se ao ano passado), com isso os demais colegas manifestaram interesse em realizar os passeios em suas casas também. Organizamos uma agenda através de sorteio para dar início às atividades dos passeios, que seriam realizados um por semana. Com isso indaguei às crianças o que elas gostariam de observar e fazer na casa do colega. A partir daí realizei reunião com as famílias para socializar a ideia das crianças e assim alinhar as visitas exploratórias. (Relato da educadora da turma)
	Neste contexto, abaixo segue o roteiro dos passeios exploratórios elaborado pela educadora. Vale ressaltar que não se trata de um roteiro rígido. Em cada visita surgem interesses diferentes, expectativas, vivências e novas experiências. O roteiro é apenas um instrumento de intenções pedagógicas para as explorações.
	Como é o dia a dia do meu coleguinha?
	Conhecendo a família
· Com quem meu colega convive? Quantas pessoas moram na casa?
· Brinquedos e brincadeiras preferidas
· O que ele gosta de comer?
· Ele vê televisão? Qual seu desenho preferido?
	Observação no quintal
· Quais animais existem na casa do meu colega?
· Que tipo de planta tem no quintal?
· O que produz no sítio do meu colega?
· Tem rio?
· O que ele mais gosta de fazer no sítio
	Vivências e experiências 
Ao longo da observação as crianças fazem perguntas ás famílias, ouvem e são ouvidas, brincam, interagem com os espaços, com a natureza e com o lugar onde o colega vive. Ao final, realizamos uma roda de conversa sobre o passeio e em seguida concretizamos com um lanche coletivo.
Além de observar, perguntar, ouvir e investigar as crianças tem a oportunidade de vivenciar um pouco do cotidiano de cada colega. As brincadeiras são compartilhadas ali mesmo no quintal do colega. No retorno de cada passeio exploratório, desenham suas observações em seguida realizamos a socialização coletiva e a educadora, como escriba, relaciona tudo o que foi relatado e registrado. Destes registros a educadora elabora o planejamento e a rotina semanal. 
Procuro ouvir muito as crianças. Após chegarmos do passeio, iniciamos uma roda de conversa para eles relatarem o que vivenciaram no cotidiano do colega, e também respondendo às perguntas que eles realizam enquanto suas dúvidas. Logo em seguida eles desenham o que viu e vivenciou no passeio, pois consideramos que sempre há algo a mais para expressar. À medida que elas vão contando e mostrando os desenhos, como escriba descrevo o que as crianças desenharam, pois através do desenho eles expressam o que foi significativo naquele contexto. A partir destes ricos detalhes elaboro as práticas pedagógicas para desenvolver no espaço de educação infantil, como por exemplo, em um dos passeios conhecemos um dos brinquedos preferido do colega, a pipa. E foi algo que chamou a atenção da turma. Portanto, surgiram perguntas do tipo: Como faz a pipa? Como ela voa tão alto? As cores da pipa. Depois disso, fizemos pesquisa sobre a pipa, conhecemos vários tipos de pipa, a origem e as técnicas para brincar, e assistimos um desenho do menino da pipa. Em seguida propus as crianças a confecção de pipa, processo que eles adoraram e contamos com ajuda de pessoas da comunidade. Assim, podemos considerar que a rotina da semana também tem a interferência das crianças, como as brincadeiras que aprendem no passeio ou os assuntos de curiosidades que surgem, e até dúvidas que surgem nas rodas de conversas. (Relato da educadora)
	Ao optar por ouvir as crianças, a educadora demonstra respeito ao sujeito de direitos que pontuamos no primeiro item do texto. O sujeito da autonomia, que sabe o que quer, produz seus próprios conhecimentos na relação com o outro e com o meio. 
	A mediação do professor é fundamental nos processos de interação. As contribuições de Vygotsky (1987) expressa que o homem é um ser social e que se constitui na relação com o outro e com o meio social por intermédio da linguagem. Nesse sentido, a criança vai se constituindo enquanto criança do campo compondo suas próprias narrativas. As narrativas construídas entre e com as crianças, a educadora e as famílias compõem o conjunto de práticas cotidianas que chamamos de currículo.
	Abaixo segue um quadro que organizamos para demonstrar como a educadora organiza sua rotina a partir dos passeios exploratórios entrelaçando as interações e as brincadeiras no cotidiano escolar. 
	Dias da semana
	Interações
Mediadas
	Interações e Brincadeiras optativas
	Interações e Brincadeiras livres
	2ª feira
	*Roda de conversa, história contada pela educadora ou por uma criança voluntária
*Destaques do passeio exploratório da semana anterior
*Registro do cotidiano no fim de semana
	*Cantinhos pedagógicos: (leitura livre, teatro, faz de conta, jogos). 
	*Brincadeiras no pátio (pomar, parque, jardim ou no entorno da escola)
*Brincadeiras na areia 
	3ª feira
	*Roda de conversa, história escolhida e contada pelas crianças;
*Músicas infantis escolhida pela turma 
*Hora da curiosidade – pesquisa sobre temas referentes ao passeio exploratório
	*Jogos e brincadeiras nos espaços externos: futebol, pular corda, amarelinha, cantigas de roda
	*Brincadeiras no espaço da sala: boneca, carrinho ou jogos
	4ª feira
	*Roda de conversa, 
*Leitura compartilhada
*Músicas infantis 
*Atividade na horta
	*Pintura com tinta, giz de cera ou lápis de cor
*Confecção de brinquedos significativos do passeio
	*Brincadeiras livres no parque infantil ou no pátio da escola com o brinquedo confeccionado.
	5ª feira
	* Roda de conversa
*Passeio exploratório
	*Passeio exploratório
	*Passeio Exploratório 
	6ª feira
	*Roda de conversa, 
*Registro do passeio exploratório. 
*Atividade com tinta, recorte ou colagem, desenho, pintura, massa de modelar e outros
	*Brincadeira de faz de conta 
	*Brincadeiras livres no pátio (bola, pipa, pião, bambolê, corda, peteca, etc)
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
O projeto “Passeio na casa do Amigo feliz” procura promover momentos que possibilita às crianças a liberdade de interagir e compartilhar de seus mundos. A partir das explorações e interações vivenciadas na casa dos colegas, elas recriam situações que fazem parte de seus contextos e trazem essas práticas para a instituição, ou seja, a escola torna-se uma extensão de seus cotidianos e os currículos são narrativas vivas, concretas e significativas. A criança é concreta no aqui agora, está inteira em todos os momentos

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