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Ensaio - O matuto na metropole - limiar entre o blazer e o flanêur

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS 
 
CCSA – Centro de Ciências Sociais Aplicadas 
DPCS – Departamento de Política e Ciências Sociais 
Curso de Graduação em Ciências Sociais 
Disciplina Antropologia Urbana 
 
Tamires Clei Nunes1 
 
O matuto na metrópole: limiar entre o blazer e o flanêur 
Luzes, sombras, cheiros, sons, semáforo, lotação, diversidade de pessoas... E nesse 
contexto caótico que o homem do campo, “xucro”, “caipira”, se depara ao ir numa média ou 
grande cidade pela primeira vez. É um turbilhão de sensações tanta coisa nova acontecendo ao 
mesmo tempo, ele olha a sua volta e tudo lhe parece exótico, mas ele está ali imerso tentando 
identificar os signos que compõem aquela dinâmica organizacional já que esse cotidiano 
apresenta-se a esse novo ator em caráter relativizado. 
Imaginemos o caipira ao desembarcar na rodoviária e procurando um meio de chegar ao 
centro da metrópole, inúmeras situações acontecendo ao mesmo tempo, diversos ônibus, 
embarque e desembarque, serviços de ambulantes sendo oferecidos, pedintes, engraxates, 
pessoas em situação de rua, taxis, moto táxis, enfim... Esse sujeito fica apático pelo excesso 
de informações causado por esse cotidiano citadino e sua atenção consequentemente fica 
difusa, onde ele não da conta de apreender toda a dinâmica em tempo real, os nervos tendem a 
parar de reagir com a normalidade deste cotidiano. 
Diante dessa reação George Simmel (1903) clássifica como atitude blazer, da qual é 
justificável pela necessidade da autopreservação da personalidade do individuo, numa atitude 
de reserva, onde o mesmo não se relaciona para se preservar, e nesta altura do jogo social, o 
matuto já está a desconfiar dos outros exóticos que observa, eles estão correndo de um lado 
para o outro, conectados em seus smartphones, digitando, atendendo ligações, ouvindo 
música e não percebem que o matuto está pedindo informações de como se chega ao centro da 
cidade, nesse jogo a regra é a desconfiança mutua, além do mais, parar para alguém é perda 
de tempo e isso implica em perda de dinheiro. 
 
1 Bacharel em Ciências Sociais 
A cidade é um campo de embate e reconciliação entre os pares ou diferentes, é dúbia ao 
passo de apontar uma homogeneidade e heterogeneidade ao mesmo tempo. Como numa 
situação do caipira pedir informações para se locomover e o único que parasse e ouvi-lo e 
fosse gentil, um sujeito com estilo roqueiro, tatuado, com piercing, com vestes e cabelos 
diferentes aos olhos do caipira, talvez, nessa situação o matuto superaria o estereotipo de que 
sujeitos assim são perigosos, por exemplo. 
Continuando a pensar nas aventuras e desventuras do sertanejo, em seu primeiro contato 
com metrópole, outra situação que ele logo pode se deparar nas suas andanças, é que a 
cidadania citadina é vista na chave do consumo, ele perceberá que ser cidadão depende do ato 
de consumir. Se ele para em um restaurante, onde as mesas e cadeiras estão na calçada, e 
senta-se para descansar, logo virá o garçom com um cardápio, onde o constrangerá por estar 
ocupando um lugar de consumo sem ao menos consumir se quer uma água mineral de dois 
reais. Logo, as cidades modernas não são para as pessoas e sim para a manutenção do 
capitalismo na circulação de dinheiro por meio de bens e serviços. 
Entretanto esse “estrangeiro do campo” precisa aproveitar essa oportunidade na 
metrópole para conhecer ainda mais os espaços e tudo ainda for possível de se desvendar, ele 
é um sujeito que está se deslocando neste espaço urbano e permitindo-se a perder-se pela 
cidade, estranhando-a através do espetáculo da vida urbana que perpassa à chave do consumo 
que já lhe foi apresentada, ele encanta-se pelas luzes e vitrines, que propositalmente são 
pensadas para a manutenção do consumo. Ele está lendo a cidade em busca de compreendê-la, 
verifica os comércios que mais lhe serão úteis, demarcando pontos de referencia que lhe de 
autonomia para “se virar” sem mais precisar recorrer a informações para sua locomoção, ele 
desvenda a cidade e deixa suas marcas por onde passa e consegue algumas redes de 
sociabilidade, seja com o jornaleiro da banca, com a moça da lanchonete, ou com o vendedor 
ambulante. Ao mesmo tempo em que está sujeito a ser capturado pelo consumo, pode também 
estar se apropriando do espaço publico sem necessariamente consumir, a esta atitude aqui 
descrita, Walter Benjamin (1942) classifica o sujeito que a faz como flanêur. 
Walter Benjamin, um alemão que analisa a cidade de Paris no século XIX, onde houve 
diversas transformações urbanas das quais influenciaram no planejamento urbano em diversas 
partes do mundo. Neste século ela foi palco de importantes revoluções que impactaram na 
dinâmica da cidade, onde havia uma burguesia consolidada que se empenhou em organizar 
especialmente a cidade, reordenando assim a natureza dos espaços públicos e privados, 
reforçando ainda mais os antagonismos de classes entre a burguesia e o proletariado desta 
cidade neste momento industrializada pós-revolução. Portanto, Benjamin procura abordar em 
sua obra a modernidade pelas imagens cristalizadas sobre esse novo mundo, o que chama de 
fantasmagoria. 
Não obstante, das teorias acionadas para ler a cidade e o impacto da metrópole na 
subjetividade dos sujeitos e o uso improdutivo da cidade, devo revelar que o personagem 
usado nesta analise, do qual chamei de caipira, matuto, é nada mais do que uma representação 
das minhas experiência e observação dos meus pais. Quando o matuto desce na rodoviária e 
fica blasé, recordo-me da primeira vez que meu pai foi a Montes Claros, visto que, somos de 
um pequeno município com uma população de menos de dez mil habitantes, então Montes 
Claros mesmo não sendo propriamente uma metrópole, aos nossos olhos caipira acaba se 
tornando, tudo é novo, nos assusta locomover por ela, são muitas coisas para perceber ao 
redor, somos abordados por prestadores de serviços e vendedores de todos os tipos, até 
caímos no golpe de um falso motorista de uber que na verdade era um taxi, que ao perceber 
“dois estrangeiros” perdidos, sem saber ao certo qual transporte recorrer, nos disse que seria 
um uber mas não estava com o aplicativo ligado naquele momento. 
Quando o personagem deixa se perder pela cidade, ativando sua atitude de reserva, 
estranhando as peculiaridades das pessoas, recordo-me a uma viagem que fizemos a capital do 
Estado mineiro, Belo Horizonte, andávamos pelas ruas da cidade apreciando as vitrines, sendo 
encantados pelos fetichismos das mercadorias, surpreendendo-nos com o exotismo das 
pessoas, com cabelos coloridos, roupas despojadas, e até mesmo uma mulher que andava de 
pantufas pela rua naturalmente. Experiência que ao mesmo tempo é estressante, pois os 
citadinos metropolitanos demonstram não permitirem qualquer tipo de contato por estarem 
apressados demais, é também divertido o ato de observar as diferenças e comentá-las. Na 
situação do sujeito roqueiro que prestou informação ao matuto, aciono na memória em outra 
viagem a mesma capital, dessa vez com minha mãe, procurávamos pelo popular shopping 
Oiapoque, quando minha mãe abordou uma senhora para perguntar qual direção seguir, a 
senhora se assustou com a abordagem e gritou por socorro por entender aquilo como uma 
tentativa de assalto, um sujeito que para nós tinha um estilo estranho percebendo a situação 
nos ajudou sem pudor com toda gentileza, naturalmente nos surpreendemos. 
Em outra viagem na capital, dessa vez os três juntos, sentamos em um restaurante 
apenas para descansar e um garçom bem funcionalista, nos ofereceu o cardápio, recusamos 
justificando que não consumiríamos nada, apenas estávamos descansando, ele imediatamente 
nos convidou a retirarmos, pois a permanência ali atrapalharia os verdadeiros clientes. E isso 
de alguma forma nos fez sentirmos culpados em não consumir, mas pelo importuno

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