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A alegria como possibilidade de estilizar a vida - Fabiola Patrocinio

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ALVES, Fabíola Fernanda do Patrocínio. Vida precária, alegria e solidão:a coragem da 
verdade na experiência de si de crianças deficientes. 2020. 256 f. Tese (Doutorado em 
Educação) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação, Belo Horizonte, 
2020. 
 
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5 A ALEGRIA COMO POSSIBILIDADE DE ESTILIZAR A VIDA 
 
O que não provoca minha morte faz com que eu fique 
mais forte (Friedrich Nietzsche) 
 
Tomando como problematização ética a tarefa de viver intensamente a vida precária, procurei 
compreender os modos de sujeição das crianças. Saliento que “modos de sujeição” é o 
segundo aspecto da ética, conforme proposto por Foucault (1984) ao fazer sua pesquisa sobre 
a sexualidade, e trata-se das regras de conduta às quais o sujeito se vincula (FOUCAULT, 
2014 a). Como minha pesquisa adota as pistas deixadas pelo filósofo no que tange ao estudo 
da ética, neste capítulo falarei dos modos de sujeição apresentados por Gabriel e Samuel. 
Como nos lembra Favacho (2019), falar dos modos de sujeição “significa saber os meios de 
que os indivíduos dispõem para obter o prazer, isto é, o tipo de sujeição que ele faz ou a que 
ele se submete para obter o prazer” (FAVACHO, 2019, p. 15). 
 
Constatei que os modos de sujeição de Gabriel e Samuel são associados à alegria. Não a 
alegria como simples resposta a experiências agradáveis e positivas que se tem na vida, mas a 
alegria nos termos propostos por Deleuze (2002; 2018), inspirado no pensamento de Espinosa 
e Nietzsche, ou seja, a alegria como afirmação da vida. Além da concepção de Deleuze, 
também lançarei mão das pistas foucaultianas para discutir a noção de alegria, embora Michel 
Foucault não tenha tratado diretamente do tema. No entanto, de acordo com Stephan (2016), o 
filósofo nos apresenta contribuições muito interessantes a esse respeito, ao apostar na 
possibilidade de um prazer consigo. Ora, como distanciar o prazer da alegria? Não estaria 
Foucault apostando na alegria quando ele defende um prazer proveniente das relações 
consigo? É apostando nessa hipótese que tratarei da alegria também na perspectiva 
foucaultiana. 
 
A concepção de ética apresentada por Foucault tangencia a noção de alegria, já que ressalta a 
ideia de um prazer não exterior, mas um prazer que só depende de si. Nesse sentido, é 
necessário destacar que Foucault (2014e) faz referência a duas formas de prazer. 
Primeiramente, refere-se a um prazer designado pelo termo “voluptas” (p. 85), que é um 
“prazer precário nele mesmo, minado pelo temor da privação, e para o qual tendemos pela 
força do desejo que pode ou não encontrar satisfação” (FOUCAULT, 2014e, p. 85). O autor 
esclarece que esse tipo de prazer é incerto, violento e provisório e que sua fonte é localizada 
fora de nós e, portanto, ele não nos é assegurado. Ressalto que não é a esse tipo de prazer que 
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relaciono a alegria no pensamento foucaultiano, mas a outra forma de prazer, cuja fonte está 
em si, ou seja, um prazer proveniente das relações consigo. Nas palavras do autor, essa é 
 
[...] uma forma de prazer que, na serenidade e para sempre, se tem consigo 
mesmo. “Disce gaudure, aprende a alegria”, diz Sêneca a Lucílio; “Quero 
que nunca deixes escapar a alegria. Quero que ela seja abundante em tua 
casa. Ela abundará com a condição de estar dentro de ti mesmo... Ela nunca 
mais cessará quando encontrares, uma vez, de onde ela pode ser tomada... 
Dirige teu olhar para o bem verdadeiro; sê feliz pelos teus próprios bens (de 
tuo). Mas esses bens, de que se trata? De ti mesmo e da tua melhor parte 
(FOUCAULT, 2014e; p. 85-86). 
 
O prazer que acredito tangenciar a noção de alegria é esse que Foucault enfatiza ao referir-se 
aos ensinamentos de Sêneca. Obviamente, tais ensinamentos estão em um contexto datado e 
situado historicamente, o mundo estoico, contemplado no estudo genealógico de Foucault. 
Contudo, creio ser possível, ainda no tempo presente, propor essa noção de alegria, uma 
alegria que dependa prioritariamente de si, cuja fonte é a relação consigo. 
 
Essa noção proposta por Foucault converge com aquela apresentada por Deleuze, ou seja, a 
alegria como afirmação da vida, da liberdade e da criação. É essa concepção que adoto neste 
capítulo para discutir as experiências de Gabriel e Samuel, ou seja, embora eles apresentem 
uma vida precária, essa vida também é marcada pela alegria. Assim, apesar de expor o 
precário da vida, essas crianças também exibem uma potência de vida. É uma experiência na 
qual a dor coexiste com o prazer consigo e, assim, a vida precária é vivida alegre e 
intensamente, como Samuel expressa em um dos nossos diálogos: “[...] ser cego é ruim, mas 
não é triste!” (Samuel, 07/05/2018). Ele não expressa essa verdade apenas em nosso diálogo; 
de fato, é o que demonstra no seu modo de existir. A cegueira é ruim, pois lhe traz inúmeras 
limitações. Contudo, ainda consegue mostrar-se alegre e desejar intensamente a vida. 
 
Pude constatar que, embora inseridas em um contexto escolar excludente, no qual se articulam 
saberes e poderes que tomam a deficiência como anormalidade, as duas crianças conseguem 
construir seus enfrentamentos e, consequentemente, abrem campos de liberdade. É necessário 
salientar que essa não é uma “saída” facilmente encontrada, mas um trabalho árduo, difícil e 
que requer uma permanente batalha consigo e com os outros. 
 
Acredito que a experiência da deficiência e a vida precária por ela delineada fazem emergir 
um percurso ético a ser feito pelas crianças. Contudo, esse também é um percurso estético, 
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pois, a despeito de toda a dor envolvida no trabalho de autoconstituição de si, é possível 
também ver desabrochar uma estilização da existência que coexiste com a vida precária. É 
como se, mediante a impossibilidade de superar sua condição de déficit, as referidas crianças 
produzissem “uma linha de deriva e de fuga aos modos de existência e de governamentalidade 
imperantes, criando outros, pouco visíveis, mas nem por isso menos potentes” (PAGNI, 2017, 
p. 1455). Apesar de suas vidas serem precárias, Samuel e Gabriel querem vivê-las 
intensamente e, para isso, buscam meios de obter prazer, revelando uma potência de vida, 
lutando contra os aprisionamentos e tomando a si mesmos “como uma obra a ser realizada 
[...] como um [...] [artistas] de si mesmo” (DAVIDSON, 2016, p. 165). 
 
Para discutir os modos de sujeição pautados na alegria, organizei o capítulo em quatro partes. 
Inicialmente, farei referência às vidas deficientes e alegres, buscando relatar situações nas 
quais Samuel e Gabriel expressam a alegria como modo de afirmar a vida. Embora estejam 
submetidos ao poder que a deficiência exerce sobre seus corpos, contidos pelas limitações 
físicas, eles parecem encontrar uma forma de escapar e experimentar a liberdade. Na segunda 
e terceira parte, mostrarei como o futebol e a música se apresentam como atividades 
prazerosas, respectivamente, para Gabriel e Samuel. Tais atividades parecem estar associadas 
a uma arte de viver, cujo propósito principal é afirmar a existência. Para concluir o capítulo, 
mostrarei que a amizade tem um papel central nas experiências escolares dessas crianças. 
Assim, darei destaque a uma ética da amizade que atua para fazê-las potentes no cotidiano da 
escola. 
 
Embora, obviamente, destaque as experiências de Samuel e Gabriel, também me refiro a 
outros sujeitos, como tenho feito ao longo desta tese. Sujeitos que, embora exibam uma vida 
marcada por déficits e sofrimentos, conseguem praticar a liberdade por meio de uma alegria 
que afeta não apenas a si mesmos, mas também aqueles com quem convivem. 
 
 
5.1 Vidas deficientes e alegres: saída ética para praticar a liberdade 
 
Encontrei Gabriel vestido de caipira, chapéu de palha, camisa xadrez e calça com remendos e 
todos os seus colegas meninos caracterizados com os mesmos acessórios. As “damas” tinham 
pintinhas pretas