Apostila 20122
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Apostila 20122

Disciplina:Psicologia Aplicada Ao Direito1.812 materiais32.912 seguidores
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Porém, poderá

haver, ou não, no indivíduo uma lei estruturante que funcionará para lhe

dar limites ao gozo. De forma simplificada, essa será chamada de Lei

simbólica. “A Constituição, carta magna de um Estado, as leis, os
estatutos e os regimentos institucionais são modalidades de expressão da

Lei simbólica na cultura e visam ao enquadramento e a limitação do

gozo de uma relação aos demais.” (QUINET, 2008)
Freud (1856-1939), por exemplo, escreve que cada nova

criança que chega ao mundo dos humanos está diante do dever

de ter que dar conta do Complexo de Édipo
15

. Isso faz com que

o complexo de Édipo, com a questão da barreira contra o

incesto, se torne, de uma maneira simples,

mas na verdade muito complexa, o que a

psicanálise chama de Lei. Lei, portanto, que proíbe o incesto e que

proíbe o parricídio, ou seja, o assassinato do pai.

Assim, porque o ser humano é um ser que se organiza e se

desenvolve intelectual e emocionalmente a partir do simbólico
16

, é

pelo simbólico que a Lei será transmitida, via cultura. Estruturar emocionalmente o

sentido fundamental da Lei (ou seja, o da interdição aos impulsos básicos), ocorrerá,

principalmente, na infância mais tenra e dependerá das primeiras relações sociais da

criança (ou seja, com a mãe e com o pai). O registro estruturante da Lei é o que

possibilitará, futuramente, à adaptação e o desenvolvimento sadio às posteriores

relações civilizadas (escola, grupos, sociedade etc.).

A AUTORIDADE DOS PAIS

“A autoridade não é um atributo individual das figuras
paternas. A autoridade dos pais - e da escola, que também anda

em apuros [...] - deriva de uma lei simbólica que interdita os

excessos de gozo. Uma lei que deve valer para todos. O pai que

“tem moral” com seus filhos é aquele que também se submete
à mesma lei, traduzida em regras de civilidade, de respeito e da

chamada boa educação.” (KEHL, M.R.)

15 Para um maior aprofundamento sobre o complexo de Édipo, sugiro a leitura do seguinte texto: Configurações
edípicas da contemporaneidade: reflexões sobre as novas formas de filiação, de Paulo Roberto Ceccarelli. Disponível

em < http://www.editoraescuta.com.br/pulsional/161_07.pdf>.
16 Simbólico, neste contexto, significa a capacidade humana de representar a realidade por signos linguísticos.

(Leitura Complementar – Caderno de Psicologia – Psicologia – p. 422 a 429)

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O GOZO PELA VIOLAÇÃO DA LEI: O TRAÇO PERVERSO

Para o pensamento psicanalítico, o que se chama “perverso” é, no
âmbito dos impulsos sexuais e de suas consequentes fantasias, a

tendência a buscar a permanência de um gozo absoluto e ilimitado.

De um gozo (primitivo, incestuoso e, portanto, infantil) que irá

negar quaisquer restrições ou limites (ou seja, que irá negar a Lei).

“O desafio e a transgressão são o exercício de buscar, incessantemente,
garantir e esticar o usufruto do gozo, além de todos os limites que a

cultura e o pacto civilizatório impõem ao Outro.” Perverso em
psicanálise toma o sentido de desvio ou perturbação das formas consideradas

“normais” (maduras, adultas, satisfatórias para o sujeito etc.) do gozo sexual.
O sentido da negação, neste contexto, significa que o sujeito perverso reconhece a

existência da lei, porém, a nega, ou seja, não a aceita, não a estrutura em sua

personalidade. Analise a classificação a seguir:

REFLEXÕES

“O apelo capitalista ao consumo que sugere, pela mídia, valores e
atitudes de não limite ao gozo e ao prazer imediato.”

“A lei da palmada, atualmente em tramitação no
Congresso Nacional.”

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TEXTO COMPLEMENTAR

Cariocas gostam de bandalha

(ZUENIR VENTURA (O GLOBO, 26/11/08)

A pesquisa publicada domingo pelo GLOBO, mostrando que só

9% dos motoristas respeitam sinal de trânsito, confirma o que

já se sabia observando o nosso dia-a-dia e o que Adriana

Calcanhotto cantou na sua canção de amor ao Rio e ao seu

povo: "Cariocas não gostam de sinal fechado." Gaúcha, ela foi

generosa. Ao defeito apontado, contrapôs 15 qualidades positivas que enumera em

graciosos versos: "Cariocas são bonitos/Cariocas são bacanas/Cariocas são

sacanas/Cariocas são dourados" e por aí vai. Ela os chama ainda de modernos,

espertos, diretos, alegres, sexy, que não gostam de dias nublados etc. Talvez por

delicadeza de forasteira, ela não quis apontar uma verdade incômoda que explica todo

o comportamento transgressor dos cariocas. Eles gostam de bandalha.

E não apenas no trânsito, embora nesse quesito eles sejam imbatíveis. Gostam de

fechar os cruzamentos, de debruçar sobre a buzina sem necessidade, de estacionar nas

calçadas, de parar em lugar proibido, de excesso de velocidade, de falar ao celular

enquanto dirigem, de andar na contramão e de xingar quem insiste em se manter

dentro da lei (me lembro da senhora ao volante esperando a luz verde, e um sujeito

histérico gritando atrás: "Pensa que tá na Suécia, perua?")

Assim, além de responsáveis por um dos mais caóticos trânsitos do planeta, os

cariocas também são especialistas em delitos menores, para não falar nos grandes,

como assaltos e homicídios. Costumam urinar em lugares públicos, desrespeitar filas

("quem gosta de fila é paulista", já ouvi um furão dizer, sem esperar a vez), levar o

cachorro para fazer cocô no calçadão, e gostam de falar alto e atender o celular no

cinema, enquanto comentam o filme com o vizinho.

Outro dia uma leitora mandou carta ao jornal relatando a cena que presenciou: um

garoto estava chutando a cadeira da frente, quando a senhora virou-se e pediu que ele

parasse. Sabe o que fez o acompanhante, provavelmente pai ou avô do menino?

Passou, ele mesmo, a repetir o que o neto ou filho fazia antes. Não sem chamar a

queixosa de maluca. Há pouco tempo assisti a coisa parecida numa sessão à tarde.

Quando alguém fez psiu para um grupo de cafajestes que discutiam aos gritos, um

deles revidou: "Psiu é a p..., os incomodados que se mudem." Essa é a nossa

realidade: há cada vez menos lugares para os incomodados. Em matéria de civilidade,

os sinais foram trocados. O desvio virou norma e a exceção, regra.

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PERSONALIDADE E DOUTRINA JURÍDICA

DÚVIDA

Qual a diferença entre um “bem jurídico”
e um “direito”?

Bem jurídico – “Diz-se da coisa, material (quanto ao valor econômico) ou imaterial
(quanto a um interesse moral), que constitui ou pode constituir o objeto de um

direito.” Ex.: A vida, a honra, o patrimônio.
(SIDOU, J.M.O. Dicionário Jurídico: Academia Brasileira de Letras Jurídicas. 10 ed. Rio de

Janeiro: Forense Universitária, 2009.)

Direito – “Faculdade legal de praticar ou deixar de praticar um ato. Prerrogativa, que
alguém possui, de exigir de outrem a prática ou abstenção de certos atos, ou o

respeito a situações que lhe aproveitam; jus. Faculdade concedida pela lei; poder

legítimo.” (AURÉLIO).

Personalidade “exprime a aptidão genérica para adquirir direitos e
contrair obrigações.” (DINIZ, 2007, p. 114)

“A personalidade consiste no conjunto de caracteres próprios da pessoa. A
personalidade não é um direito, de modo que seria errôneo afirmar que o ser humano

tem direito à personalidade. A personalidade é que apoia os direitos e deveres que

dela irradiam, é o objeto de direito, é o primeiro bem da pessoa, que lhe pertence

como primeira utilidade, para que ela possa ser o que é, para sobreviver e se adaptar

às condições do ambiente em que se encontra, servindo-lhe de critério para aferir,

adquirir e ordenar outros bens.” (GODOFFREDO TELLES JR. apud DINIZ, 2002, p.
154)

[...] “pode-se afirmar, que os direitos da personalidade são direitos subjetivos, que
tem por objeto os elementos que constituem a personalidade do seu titular,

considerada em seus aspectos físico, moral e intelectual. São direitos inatos e

permanentes, nascem com a pessoa e a acompanham durante toda sua existência,