Apostila 20122
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Apostila 20122

Disciplina:Psicologia Aplicada Ao Direito1.812 materiais32.910 seguidores
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de construção utilizado nas prisões (o pan-óptico)

acabou servindo para outras instituições que pretendiam obter a

disciplina e obediência como foi o caso das fábricas, a começar pela

Inglaterra no século XVIII estendendo-se pela Europa no século XIX.

De acordo com Michele Perrot, o espaço de produção era organizado de

forma circular, no centro situava-se, geralmente, as peças ou a matéria prima para a confecção

de produtos. Desta forma, o indivíduo que tivesse a responsabilidade de cuidar do andamento

da produção poderia ver todos os operários a sua volta, evitando possíveis furtos ou

indisciplina. A dinâmica do novo modelo de organização espacial, como já fora dito, foi

estendida outras instituições e espaços, como escolas, hospitais, dentre outros.

Os espaços fechados eram, ao mesmo tempo, arejados e amplos, permitindo a vigilância dos

diversos indivíduos ali presentes. O nascimento de uma nova sociedade, a partir dos ideais

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iluministas e das revoluções burguesas, a privação da liberdade que se tornara tão preciosa à

sociedade contemporânea, tornou-se uma forma de punição mais incisiva, substituindo os

suplícios, uma vez que os direitos do homem e do cidadão passam a ser centrais na

organização social.

A detenção em prisões priva o indivíduo da liberdade e de seus direitos colocando-o a

margem da sociedade. A punição, novamente, se daria sem o recurso da violência contra o

corpo.

O controle do tempo

Assim como o espaço será determinante para a formação de uma sociedade

disciplinar, outro aspecto analisado por Foucault será a nova concepção de

tempo bem como a sua organização.

A nova sociedade regida pelo poder disciplinar utiliza-se do tempo como um

de seus mecanismos de controle.

A começar novamente pelo exemplo dos presídios, em um modo de vida quase

monástico, todas as horas do dia dos detentos são preenchidas com diversas atividades como

refeições e trabalho. Oração com horários bem delimitados e previamente determinados. Tais

horários são anunciadas por algum tipo de sinal sonoro; desta forma os indivíduos voltam suas

mentes para as atividades impostas pela instituição da qual estão ligados. O controle de todas

as horas do dia, enquanto dispositivo do poder disciplinar, evitava qualquer tipo de

organização ou mesmo de um pensamento rebelde uma vez que o foco eram as tarefas a serem

realizadas.

A possibilidade de uma ação de resistência deste modo é coibida, da mesma forma, os

indivíduos que estiverem em tal situação estavam sob constante vigilância, o que inibia

levantes. A vigilância por seu turno é acompanhada de rigorosas punições, o que exerce o

medo sobre o indivíduo, na maioria das vezes sem o apelo da violência, utilizando-se de

outras formas de castigo, como a chamada solitária.

Isolando o indivíduo dos outros, além da diminuição da alimentação ou da atividade sexual, o

indivíduo é conduzido a momentos de forte pressão psicológica. A prisão nada mais é do que

um local de privações, a perda da liberdade e do direito de ir e vir tornam-se agora os maiores

receios da sociedade.

Concluindo

A partir das teorias sobre o poder disciplinar de Foucault, percebemos como o

exercício deste poder se deu através de diversos disposit ivos e elementos que

elencamos.

Primeiramente, o poder sobre o corpo representou o controle sobre os indivíduos

e suas necessidades biológicas.

Uma vez adestrado, este será útil e submisso ao sistema que se impõe,

contribuindo para o equilíbrio e a ordem.

O aspecto da construção se mostrou como forma de punição eficaz através da privação dos

direitos de liberdade, bem como o ir e vir, excluindo o sujeito de um determinado grupo

social.

Estendendo-se para outros espaços que não necessariamente pretendem punir, esta forma de

poder também se manifesta através da vigilância e eminência de formas de punição que

castigam o corpo não de forma física, mas psicológica e biológica.

Por fim, o controle do tempo garante a disciplina dos indivíduos e seu adestramento, evitando

atitudes de rebeldia.

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Tais dispositivos essenciais para o funcionamento do poder disciplinar estão presentes em

nossa sociedade até os nossos dias, muitas vezes de forma sutil, mas que ainda garantem a

ordem e a manutenção do meticuloso funcionamento da sociedade ocidental contemporânea.

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EXCLUSÃO SOCIAL

REFLEXÕES

Os excluídos não são simplesmente rejeitados física,

geográfica ou materialmente, não apenas do mercado e

de suas trocas, mas de todas as riquezas espirituais, seus

valores não são reconhecidos, ou seja, há também uma

exclusão cultural.

DÚVIDA

É O PRÓPRIO INDIVÍDUO QUE SE EXCLUI DA SOCIEDADE OU É A

SOCIEDADE QUE EXCLUI O INDIVÍDUO?

PRINCIPAIS TEORIAS

1º. O Individualismo e o liberalismo - A situação social de um indivíduo depende em

grande parte das escolhas que o próprio indivíduo faz ao longo de sua vida. Tais

ideias sustentam-se nos valores burgueses: liberdade, individualismo, propriedade

privada e limitação do poder do Estado
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.

(Herbert Spencer – 1820 – 1903)
2º. Darwinismo social – Teoria oriunda das ideias sobre os processos de
evolução da vida, de Charles Darwin, que estendeu a aplicação do

conceito de seleção natural para as sociedades humanas, essas, por

conseguinte, concebidas como sistemas que evoluem por competição entre

indivíduos, grupos e nações. “Somente sobrevivem os mais aptos.” (Spencer)

(Karl Marx – 1818 – 1883)
3º. O pensamento de Karl Marx - A situação social de um indivíduo é

resultado de um processo de construção, baseado numa lógica de classes.

“O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da
vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que

determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua

consciência.” (MARX; Prefácio de Para a Crítica da Economia Política)

22 Sugiro a leitura do texto INDIVIDUALISMO E LIBERALISMO: VALORES FUNDADORES DA SOCIEDADE

MODERNA, de João Batista Damasceno. Disponível em http://www.achegas.net/numero/doze/damasceno_12.htm.

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INFORMAÇÃO

Um conceito importante relacionado à exclusão social é o de

minorias sociais. Tal conceito reflete uma “categoria de
indivíduos considerados merecedores de tratamento desigual e

humilhante simplesmente porque são identificados como a ela

pertencentes. (JOHNSON, 1997, p. 149)

Exclusão Social: articulações possíveis

1º. ECONÔMICA - trata-se basicamente da “pobreza”, situação de
privação de recursos. Caracterizada geralmente por más condições de

vida, baixos níveis de instrução e qualificação profissional, emprego

precário etc.

2º. SOCIAL - a causa está atrelada ao domínio dos laços sociais.

Situação de privação do tipo relacional, caracterizada pelo isolamento.

Como exemplo citamos os idosos, deficientes. Este tipo de exclusão

pode não ter qualquer tipo de relação com a pobreza, mas sim ser

consequência de distintos modos de vida familiar. Entretanto, ela

também pode estar atrelada ao aspecto econômico, sendo a questão social decorrente

da econômica.

3º. CULTURAL - as formas deste tipo de exclusão estão relacionadas

com os fatores culturais, como o racismo, a xenofobia, dificultando a

integração social entre os diferentes.

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4º. PATOLÓGICA - as situações de exclusão se devem a casos de

origem patológica, especialmente de ordem psicológica ou mental. Tal

situação é a causa da maioria dos casos de ruptura familiar.

5º. COMPORTAMENTOS AUTODESTRUTIVOS - trata-se de

comportamentos relacionados com a toxicodependência, o alcoolismo

etc., gerando a exclusão desses indivíduos. Geralmente, estes casos têm

origem na pobreza, o que não significa, evidentemente, que em outras

classes econômicas tais comportamentos não possam ocorrer,