Apostila 20122
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Apostila 20122

Disciplina:Psicologia Aplicada Ao Direito1.813 materiais32.912 seguidores
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valorizando seu vínculo emocional com ela.
Este é, muitas das vezes, o vínculo mais forte apresentado pelo adolescente em conflito com a lei em relação

à sua rede social. Ao passo que a mãe protege o adolescente, este também age no mesmo sentido, procurando

mostrar sua admiração, confiança, lealdade e proteção em relação a ela. Por isso, a atuação da mãe neste
contexto infracional pode trazer grandes contribuições para as possíveis mudanças de comportamento e

desenvolvimento emocional adequado do filho.

No entanto, existe o duplo vínculo aditivo (Colle, 1996) que se estabelece na relação mãe-filho. As mães são

permissivas ao comportamento transgressor do filho, chegando a negar a situação ou a guardar segredo do
problema, fingindo não ver o que está acontecendo, com a intenção de minimizar os riscos e resolver o

problema sozinhas. Esta já não é somente uma proteção, mas uma superproteção. Os filhos acabam por não

se responsabilizarem por seus atos, pois contam com o apoio delas. Podemos ainda inferir a ausência de
autoridade parental na vida destes jovens, quando falam sobre a atitude dos pais diante de seus

comportamentos transgressores. A presença parental deixa de existir quando os pais perdem sua voz ativa

perante o adolescente (Omer, 2002). Muitas vezes a permissividade e a superproteção da mãe podem levar a

esta falta de autoridade perante seus filhos.
Os adolescentes também falam sobre a falta do pai. Em 20 entrevistas surgiram relatos acerca da perda

(falecimento), desconhecimento (mora longe, não tem contato, o abandonou na infância) ou desqualificação

do pai (característica esta representada pelo alcoolismo, violência, ausência de autoridade e não ser o
provedor da família).

A desestruturação de uma família, seja através do divórcio, da morte de algum membro, seja por razões

socioeconômicas, pela ação direta da pobreza ou pela falta de cultura, não são fenômenos que, por si sós,
levam à droga dição. Mas a ausência de afetividade dentro de um sistema familiar, esta sim, é a grande

responsável pelo fenômeno da droga dição, pois, como afirma Kalina e cols.(1999), "a única coisa

impossível de ser substituída é o amor" (p.182).

Neste sentido, um outro aspecto que chama a atenção presente nas falas dos adolescentes, refere-se ao
alcoolismo do pai, seguido de atos violentos. O adolescente sente a frustração pela falta de atenção, rejeição

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ou abandono deste pai; sente a falta de uma qualidade no vínculo pai-filho: o pai sempre distante: a falta de

intimidade e de disponibilidade dele em estar com o filho. Esta conduta do pai pode estar relacionada ao

alcoolismo do mesmo, o que não elimina o sofrimento, a mágoa, a decepção do adolescente, que ainda não
tem uma compreensão clara da influência do consumo de álcool do pai sobre a dinâmica familiar. O filho

sente-se vitimado pelo pai e identificado com a mãe, como quando um adolescente coloca: "Estragou minha

vida, estragou a vida da minha mãe..." Caberia melhor investigar como se explica esta situação do pai
alcoolista na visão destes adolescentes. A figura paterna pode estar aparecendo como co-geradora do

fenômeno aditivo e delituoso (Kalina & Cols., 1999). A função paterna fica comprometida, fazendo com que

o jovem permaneça no vazio e procure "fora" a autoridade que não encontra "dentro" de casa (Omer, 2002).

O ato infracional surge, então, como a busca deste pai, de uma autoridade, de uma lei que seja capaz de
colocar limites, que "proíba" o adolescente de agir, mas que favoreça, em contrapartida, algum tipo de

aproximação pai-filho.

Do mesmo modo, há nas falas destes adolescentes a denúncia de usuários de drogas e antecedentes criminais
na família como mediadores do vínculo. É interessante observar que 13 adolescentes entrevistados falaram

sobre o alcoolismo do pai e/ou a presença de antecedentes criminais ou outros usuários de drogas na família.

Esta questão nos leva a pensar no significado simbólico para o adolescente do comprometimento de algum

membro da família com o álcool, as drogas ou os atos infracionais. Aparecem contradições nos relatos dos
adolescentes, mostrando novamente aqui a questão do duplo vínculo aditivo que se estabelece na dinâmica

familiar. Por um lado, veem as condutas "alcoolistas", aditivas, delituosas no sistema familiar como modelo

(não há críticas em relação ao pai) e é o próprio sistema que os introduz na criminalidade e na adição
(aprendem com o pai a beber, a traficar). Por outro lado, os adolescentes denunciam os membros do sistema,

que se tornam inconvenientes quando perdem o controle. A falta de coerência no contexto familiar torna a

relação ambivalente: abandono e regresso, aproximação e distanciamento, provocando nestes adolescentes
sentimentos, por sua vez, também bastante contraditórios. Se em determinados momentos odeiam, rejeitam,

estigmatizam seus familiares, em outros, amam, são cúmplices e os têm como exemplo. Podemos pensar que

toda esta situação é conflituosa e pode estar deixando o adolescente mais vulnerável para ficar fora de casa.”
(PEREIRA; SUDBRACK, 2005)

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MALDADE NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA: “BULLYING”

Caracteriza atos de violência física ou psicológica, intencionais

e repetidos, geralmente contra pessoas em desvantagem de

poder, sem motivação aparente e que causa dor, angústia e

humilhação a quem sofre.

Os agressores no “bullying” são, comumente, pessoas
antipáticas, arrogantes e desagradáveis. Alguns trabalhos

sugerem que essas pessoas vêm de famílias pouco estruturadas,

com pobre relacionamento afetivo entre seus membros, são

debilmente supervisionados pelos pais e vivem em ambientes onde o modelo para

solucionar problemas recomenda o uso de comportamento agressivo ou explosivo.

Há fortes suspeitas de que as crianças ou jovens que praticam o “bullying” têm
grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos antissociais,

psicopáticos e/ou violentos, tornando-se, inclusive, delinquentes ou criminosos.

Normalmente o agressor acha que todos devem atender seus desejos de imediato e

demonstra dificuldade de colocar-se no lugar do outro.

Os meninos estão mais envolvidos com o “bullying” com uma frequência muito
maior, tanto como autores quanto como alvos. Já entre as meninas, embora com

menor frequência, o “bullying” também ocorre e se caracteriza, principalmente, como
prática de exclusão ou difamação. [...] o conceito de “bullying” pode também ser
aplicado na relação de pais e filhos e entre professor e aluno,

citando como exemplos, aqueles adultos que ironizam, ofendem,

expõe as dificuldades perante o grupo, excluem, fazem chantagens,

colocam apelidos preconceituosos e têm a intenção de mostrar sua

superioridade e poder, usando deste comportamento

frequentemente.

“CYBERBULLYING”

“O ‘cyberbullying’ é uma variação da violência infligida a
colegas por um grupo dominante, em geral na escola. Nessas

situações, a tecnologia pode ser usada de várias formas. Por e-

mail, ‘twitter’, mensagens de celular ou outras mídias
eletrônicas, crianças ou adolescentes são ofendidos e

discriminados de forma cruel – e, muitas vezes, a humilhação é
amplamente divulgada pela rede. Há casos em que os agressores conseguem acesso

ao e-mail da vítima, fingem ser ela e enviam em seu nome mensagens desagradáveis

para outras pessoas.

Alguns sinais podem ser importantes para que adultos fiquem alertas, pois as vítimas

muitas vezes não contam aos mais velhos seus problemas. É importante observar, por

exemplo, se, depois de acessar a internet ou ler um SMS, o jovem parece mudado ou

emocionado, se distancia de outros da mesma idade e seu desempenho escolar piora.”
(Revista MenteCérebro, nº 210)

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LEI JURÍDICA & LEI SIMBÓLICA

“As pessoas estão confundindo desejo com direito!” (M.S.Cortella)

Existem regras que servem para regular as relações dos homens entre si.

Essas são chamadas de normas sociais ou leis jurídicas.