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Disciplina:CIÊNCIA POLÍTICA8.398 materiais253.049 seguidores
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contra os privilégios pessoais  e contra a hierarquização das classes sociais, que se manifestava desde a Antiguidade até o Renascimento, ao mesmo tempo, em que nascia também a fonte inesgotável de argumentos para o ideário igualitarista, que após a  2°  metade do século XIX “incendeia a história do pensamento político-econômico, espalhando até os nossos dias suas centelhas cada vez mais acesas”[11].
No que diz respeito à realidade brasileira, é na primeira  Constituição Republicana, promulgada em 24 de fevereiro de 1891, que se fez introduzir o princípio da isonomia, em nosso ordenamento, como simples vedação formal a privilégios individuais[12]. As demais Constituições

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repetiram o preceito, sendo que o mesmo passa a ter uma outra envergadura com a Constituição de 1988.
 
2.2 Igualdade formal e Igualdade material
 
O debate clássico sobre esse tema apresenta uma dupla leitura sobre a igualdade: a igualdade formal e a igualdade material - também denominada de igualdade substantiva ou substancial.

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A idéia de igualdade formal que hoje se veicula apresenta claros contornos liberais, ainda reproduzindo concepções oitocentistas, recorrentes no direito continental. Em geral associada à dicção igualdade jurídica,   determina que  “todos merecem a mesma proteção da lei”, proibindo que  “se crie tratamento diverso para idênticas ou assemelhadas situações de fato”[13] . Seu escopo é  a esfera normativa que não pode se tornar fonte de privilégios, impondo para tanto tratamento uniforme perante a lei e vedando tratamento desigual aos iguais.

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Já a  igualdade material, em termos gerais,  é aquela que assegura o tratamento uniforme  de todos os homens, resultando em igualdade real e efetiva de todos,  perante todos os bens da vida. Denninger, ao discorrer sobre a igualdade material, propondo a superação da clássica tríade liberdade, igualdade e fraternidade,  fala de um  “novo desejo de diversidade” que deverá assegurar o estabelecimento de “iguais condições de fato”, para que se possa “fazer uso de um direito fundamental” e propõe o estabelecimento de uma “igualdade no valor das condições de vida”[14]. Trata-se assim da realização de uma diversidade cultural, religiosa, étnica e ideológica que contemple as “necessidades especiais” das minorias.

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Entretanto, apesar da forte carga humanitária e idealista que essa igualdade traz consigo, até hoje, a experiência histórica das sociedades humanas, não logrou sua  realização plena. Muitos são os fatores, aos quais se pode atribuir a inviabilidade prática da igualdade material plena: a natureza física do homem, ora frágil, ora forte; a multiplicidade da estrutura psicológica humana, ora tendente à dominação, ora voltada para a submissão; e as próprias estruturas políticas e sociais adotadas, que muitas das vezes, tendem a consolidar ou mesmo exacerbar as diferenças, ao invés de neutralizá-las ou ainda atenuá-las.
Porém, tal desafio não alijou o ideal da igualdade material. Numa vertente mais factível, constrói-se o debate a partir da idéia de igualdade de oportunidades - que tem se colocado no centro de um acalorado debate contemporâneo, especialmente nos Estados Unidos da América do Norte, gerando inclusive as chamadas políticas de ação afirmativa[15].

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Com essa inspiração, nas democracias ocidentais, com contornos de Estado do Bem Estar Social, o princípio da igualdade material passa a ter assento nas Constituições. É justamente  na disciplina da ordem social, cristalizando aqueles direitos chamados de segunda geração, eis que buscam  assegurar o acesso de todo o povo a determinados bens - como a   educação, a saúde, o trabalho, o lazer,  a previdência e assistência sociais – que vislumbra-se a clara  iniciativa de trazer entre as pessoas maior igualdade material, ainda que a eficácia social  de tais normas seja passível de críticas já que os direitos que consagram estão previstos nas chamadas normas programáticas.

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O conflito entre essas duas leituras tem sido tema recorrente na literatura política e reverbera na discussão jurídica do tema, lançando o desafio: “como compatibilizar essas duas dimensões da igualdade?”
 
2.3 Igualdade na lei e igualdade perante a lei
 
Superada a distinção que a doutrina faz entre igualdade material e igualdade formal, há uma outra a ser examinada: ao se tratar do tema isonômico, na sua vertente formal, fala-se ainda em igualdade perante a lei e igualdade na lei.
A igualdade perante a lei tem por destinatário exclusivo o aplicador da lei, isto é, a igualdade há de ser observada mormente pelo juiz e pelo administrador, ao fazer incidir a lei em uniformidade para todos.

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Entretanto, o princípio tem uma outra significação, que vincula especialmente o legislador, daí dizer-se igualdade na lei, pois o tratamento a ser erigido pela norma deve também atentar para a fixação de parâmetros igualitários.
Registre-se que a doutrina não é unânime quanto à necessidade e utilidade  dessa distinção. Para José Afonso da Silva, eventualmente, ela até se manifestaria útil no direito estrangeiro, mas absolutamente inútil e desvantajosa no sistema brasileiro, “[...] porque a doutrina como  a jurisprudência já firmaram, há muito, a orientação de que a igualdade perante a lei tem o sentido que, no exterior, se dá à expressão igualdade na lei, ou seja: o princípio tem como destinatário tanto o legislador como os aplicadores da lei”[16].

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Com efeito, apesar das divergências apontadas, as mesmas se revelam mais como  distinções retóricas, já que em ambas se verificam, de uma forma ou de outra,  como destinatários do princípio da isonomia,  quer aqueles que aplicam a lei, quer  aqueles que as criam, havendo pois uma dupla destinação do comando, que assegura a vedação de  concessão de privilégios a uns em detrimento de outros (isonomia na elaboração da lei), bem como uma aplicação igual para todos.
2.4 Igualdade e tratamento diferenciado
Discute-se aqui  a possibilidade constitucional de tratamento legal diferenciado.
Deve-se ressaltar que o princípio igualdade não exige tratamento idêntico, em quaisquer circunstâncias, para todas as pessoas. Ele guarda uma dupla diretriz: a determinação para tratamento igual, se não houver autorização constitucional para tratamento diferenciado; e a exigência de tratamento diferenciado se a situação das pessoas envolvidas for essencialmente distinta.
Portanto, o princípio constitucional da isonomia pressupõe um dever de igualdade para  o Poder Público, desdobrando-se em tratamento igualitário se as situações consideradas  apresentarem circunstâncias iguais  e autorizando  tratamento diferenciado, se as situações forem diversas.

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Já que as leis, sob o aspecto funcional, nada mais fazem do que  classificar  situações,  discriminado-as,  para submetê-las à disciplina destas ou daquelas regras é preciso  indagar quais as discriminações juridicamente intoleráveis e quais as que têm abrigo no ordenamento jurídico, a fim de apurar a inconstitucionalidade (ou não) da medida perante o princípio.
Isto é, a constitucionalidade do discrímen adotado fica condicionada a um “teste” de razoabilidade, onde a mesma assume feições de parâmetro e não de uma medida em si. Desta forma, o princípio da razoabilidade é utilizado com o intuito de aferir se as distinções de tratamento, considerando o resultado perseguido, são ou não compatíveis com a igualdade.

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Celso Antônio Bandeira de Mello, um dos pioneiros a abordar o tema da igualdade sobre o prisma do tratamento diferenciado, apresenta uma sistematização[17] exemplificativa  das hipóteses em que há a violação à norma isonômica:
 
“I - A norma singulariza atual e definitivamente  um destinatário determinado, ao invés de abranger uma categoria  de pessoas, ou uma pessoa futura e indeterminada.
II - A norma adota como critério discriminador,