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Disciplina:CIÊNCIA POLÍTICA8.438 materiais254.115 seguidores
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uma cidadania efetiva, ajustada aos ditames do Estado Democrático de Direito.
 
2.6  A Igualdade e o Supremo Tribunal Federal
 
Observando-se  a  jurisprudência do Supremo Tribunal Federal em matéria de igualdade, dois aspectos chamam   atenção: a adoção do teste da razoabilidade e problemática do legislador positivo.
Sem muita sofisticação, o STF tem dado mostras de sufragar a  razoabilidade como parâmetro de aferição da igualdade e apenas  admitindo a adoção normativa de tratamento diferenciado quando houver  uma justificativa constitucionalmente adequada que autorize sua adoção, como se depreende de uma série de julgamentos da Corte, em especial, RExt. 161.243-6/DF, Adin 598-DF e Adin 978-PB. 

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No particular, o verbete da súmula 683 é bastante significativo: “O limite de idade para a inscrição em concurso público só se legitima em face do art. 7º, XXX, da Constituição, quando possa ser justificado pela natureza das atribuições do cargo a ser preenchido”.
Quanto à problemática do legislador positivo, o entendimento adotado pelo STF é clássico. Para nossa Corte, em matéria de violações à igualdade,  por inserção indevida de destinatários da norma , o Judiciário deve funcionar como legislador negativo, retirando a eficácia da norma viciada e, portanto,  corrigindo o rol seus destinatários. Porém, quando de tratar de situação inversa, isto é, quando houver exclusão indevida de pessoas daquela tutela normativa, nada lhe compete fazer, sendo-lhe vedado, num movimento de  inclusão, estender o âmbito de proteção legal àqueles que foram indevidamente deixados de lado[22]. O STF não admite nessa hipótese, uma atuação de correção/supressão das omissões legislativas que acabam por repercutir em violação ao princípio da igualdade . Nesta hipótese, se admitida a intervenção do juiz , este atuaria  como se legislador fosse (daí se falar em legislador positivo), o que violaria o princípio basilar da separação de poderes. O verbete da súmula  339 é taxativo a esse respeito: “Não cabe ao Poder Judiciário, que não tem função legislativa, aumentar vencimentos de servidores públicos sob fundamento de isonomia”.

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Embora consagrado em sede pretoriana, o referido entendimento se coloca como um verdadeiro óbice para a implementação do princípio constitucional da igualdade, em sua vertente material, implicando inclusive na fragilização da atividade de concretização judicial da norma constitucional. De certa feita,  abdica da grandeza do papel do Judiciário como guardião dos direitos fundamentais. E, sob o manto de que é indevida a inserção judicial no âmbito legislativo, para suprir omissões,  o Judiciário deixa de atuar como órgão de inclusão social.

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2.7  A igualdade e a Suprema Corte-Norte Americana
A questão da igualdade é tratada pela Suprema Corte em termos de categorizações prévias, e no particular, duas são as figuras que se sobressaem: o sistema de classe e as classificações suspeitas.
Foi em no famoso caso United States v. Carolene Products, de 1938, que se inaugurou  o sistema de classes   e que, ao longo do tempo, vem sendo construído pela Suprema Corte, como um esquema racional  de categorias apriorísticas que se prestam a caracterizar as violações ao princípio da igualdade.
A Corte desenvolveu duas abordagens complementares que se implicam e determinam mutuamente:  a) uma relacionada ao grau de rigor do escrutínio, da análise, do exame, do controle da constitucionalidade (scrutiny), ao qual deverá ser submetido o critério classificatório, isto é, o discrímen; b) outra diz respeito ao tipo de classificação, categoria, discrímen; (classification) utilizado pela norma.

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O scrutiny pode desenvolver-se em três graus: strict scrutiny; intermediate (heightend ou semisuspect) scrutiny; e minimum (ordinary) scrutiny. E sempre considera a relação entre a pertinência do critério e o peso do interesse público em jogo. É a finalidade do ato normativo, e não seus efeitos, que deve ser examinada. Desse modo, o sistema do escrutínio funciona como um teste que tem de ser vencido pela legislação a título de se aferir sua adequabilidade à Constituição. 

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O strict scrutiny é a mais severa das três formas. Exige uma relação de pertinência incisiva, rigorosa, estreita (closely) com o interesse público a ser considerado, que, a seu turno, autorizaria a adoção do discrímen suspeito, se for considerado como cogente (compelling), isto é, inafastável. O strict scrutiny se aplica nos casos de raça e nos esforços estatais para regular estrangeiros, assim como nos casos que colidem com os direitos fundamentais constitucionais. Em geral, a experiência tem indicado que a prova da strict scrutiny dificilmente é vencida pela legislação, configurando-se, portanto, a violação ao princípio da isonomia.
O intermediate scrutiny demanda uma relação de pertinência substancial (substantially), com um interesse público importante (important) a ser realizado. Tanto as formulações doutrinárias sobre o intermediate scrutiny, como os casos aos quais se aplica têm variado. Mas o caso protótipo são as classificações que envolvem gênero, embora a Corte algumas vezes já o tenha aplicado em casos envolvendo imigrantes e crianças.

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Por fim, o minimum scrutiny aplica-se, na maior parte das vezes, quando o Estado classifica as pessoas e as suas atividades, por exemplo, com base em considerações de natureza econômica ou social, tais como a riqueza (ou sua ausência). Este teste simplesmente exige que o Poder Público evidencie que o esquema classificatório escolhido razoavelmente (reasonably) se relaciona com um interesse público legítimo (legitimate).
Da mesma forma que raramente o discrímen é reprovado no teste mais relaxado (relaxed), no teste mais rígido (strict) ele é reprovado[23]. Ao contrário do minimum scrutiny, no qual as Cortes presumem que a legislação ou a atividade estatal desafiada são constitucionais e o requerente tem o ônus de demonstrar a violação constitucional, nos casos do strict e intermediate scrutiny, o ônus da prova é invertido, restando ao Poder Público evidenciar que o discrímen adotado guarda a pertinência exigida no caso, estreita ou substancialmente, com o interesse público envolvido cogente ou importante, respectivamente.

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Por outro lado, na teoria constitucional norte-americana, as discriminações odiosas também são conhecidas como suspect classification  e devem ser compreendidas dentro do sistema de classes suspeitas,  desenvolvido pela Suprema Corte e acima apreciado. 
 
Tais classificações são assim consideradas quando estabelecem critérios diferenciadores que indicam uma possível violação ao princípio da igualdade, ficando sujeita, ao alvedrio da  Suprema Corte, a apreciação da ocorrência efetiva da violação e a conseqüente caracterização da inconstitucionalidade.  Por exemplo, em alguns casos, a Corte já decidiu que as classificações suspeitas passam pelo reconhecimento de que a desvalia do indivíduo ou de seu grupo se dá por conta de característica externa, irrelevante para a sua identidade[24].

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O problema da suspect classification também se relaciona diretamente com a idéia de minoria e de grupos que sofreram ao longo da história processos de discriminação. Nessa via, foi relevante o entendimento da Suprema Corte Americana que, sob a liderança do Chief Justice Stone, lançou as bases para a concepção da chamada classificação suspeita, quando decidiu que a legislação direcionada às minorias deveria sujeitar-se a exame judicial mais criterioso (judicial inquiry) e que todas as restrições legais que cerceassem os direitos civis de um determinado grupo racial seriam imediatamente suspeitas e, portanto, sujeitas a rígido exame judicial[25].

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Enfim, o sistema de classes embora se apresente, num primeiro momento,  bastante organizado, não é isento de todo de severas críticas, que, especialmente,