NOVAIS (1990) III - A Crise do Antigo Sistema Colonial
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NOVAIS (1990) III - A Crise do Antigo Sistema Colonial

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fase em que os recursos do pequeno reino empreendedor se concentravam no alargamento da navegação ao redor do continente africano, contou desde cedo com a participação de estrangeiros (genoveses, por ex.). Nessa montagem, se rompia o monopólio da oferta do produto até então dominada pelos venezianos. Destruindo esse monopólio, aumentava o consumo do produto, em cuja comercialização entravam os flamengos, no último quartel do século chegava-se à superprodução.

Os estrangeiros se instalavam nas Ilhas, resultando que mercadorias eram diretamente levadas para fora das colônias, causando perdas aos direitos de Portugal. A burguesia mercantil pedia claramente ao Rei que proibisse a estadia de estrangeiros nas Ilhas, proposta clara de colonização das ilhas atlânticas nos mecanismos da exploração ultramarina monopolista.

O pedido foi atendido. A política seguida pela Coroa portuguesa: liberdade do comércio na fase inicial, para estimular a vinda de recursos e capitais para a instalação da produção colonial; enquadramento do sistema exclusivista quando a economia periférica entrava em funcionamento.

A implantação da economia açucareira no Brasil: no primeiro contato econômico, não se ia além dos produtos naturais (pau-brasil), comércio monopolizado pela Coroa. Na transição para a colonização, na implantação do cultivo da cana e preparo do açúcar, recorreu-se aos recursos particulares, através das concessões de capitanias.

Poucos donatários obtiveram êxito em montar a empresa custosa de agro-indústria. Hipótese de Celso Furtado: Recorreram ao capital externo, sobretudo flamengo, já francamente envolvido nos negócios do açúcar na Europa.

Nessa primeira fase, o comércio do produto foi relativamente livre. Expande-se assim a economia açucareira. A fase do grande surto foi 1575-1610. Curva dos preços do açúcar em Lisboa dessa época apresenta elevação, embora no Brasil os preços sejam estáveis. Em 1571 decretava-se a exclusividade dos navios portugueses no comércio da colônia. Decreto feito na fase de ascensão da economia açucareira no Brasil: enquadramento da economia periférica nas linhas estruturais do sistema colonial.

Aumento da pressão externa: Coroa dava concessões e licenças; mas estas não alteram o mecanismo descrito, nem implicavam em competições entre compradores. Com a fase de grande crescimento da economia açucareira assistimos seu enquadramento no sistema colonial; os preços sobem pouco na colônia e acentuadamente na metrópole; geram-se lucros excedentes (monopolistas) que se acumulam entre empresários metropolitanos.

Proibições geram pressão para o contrabando. Assim, em 1605 restringiram-se de novo as licenças para a vinda de estrangeiros para o Brasil, ou envio de navios. Nenhum navio estrangeiro poderia ir ao Brasil, Índia, Guiné e Ilhas.

O contrabando não cessou, mas a decisão dos Países Baixos de criarem a Companhia das Índias Ocidentais levou à organização e ocupação militar do nordeste açucareiro: o contrabando não era suficiente para atender as forças de expansão da economia neerlandesa.

Concessões feitas à Inglaterra e Holanda em troca de ajuda contra a Espanha (para o fim da União Ibérica). Isso porque a colonização portuguesa no Brasil, já montada dentro do sistema colonial (porque o comércio colonial se desenvolve segundo os mecanismos do sistema), é que as concessões de participação a estrangeiros se podem tornar uma moeda forte com que Portugal metropolitano joga no seu esquema de alianças anti-espanholas. O que se concede é a participação desses países no usufruto da exploração do sistema colonial português.

Criação do Conselho Ultramarino: procurava-se controlar ao máximo as concessões feitas. Novas proibições: 1684, navios que saiam de portos brasileiros não poderiam aportar-se em outros países que não Portugal. Aos poucos, as proibições reduziam a presença legal de estrangeiros. Em 1766: proibido o comércio inter-colonial.

O regime das relações econômicas que se estabeleceu no processo de colonização espanhola na América demonstra os mesmo princípios e mecanismos. O resultado do monopólio dos mercadores de Sevilha ou de seus associados foi um regime de grandes lucros, que determinará nas Índias o aparecimento de um regime de altos preços.

Desafio das potências rivais: incentivaram o contrabando para a América Espanhola. O sistema espanhol oferecia flancos consideráveis: o mais importante dói o tráfico negreiro para as colônias hispano-americanas. A dificuldade em ficar-se em entrepostos africanos levou a coroa espanhola a contratar com mercadores estrangeiros o abastecimento de suas colônias. Forte concorrência nesse setor altamente lucrativo.

A colonização espanhola se organizou também nas linhas do sistema colonial mercantilista, tendente a criar mecanismos aceleradores da primitiva acumulação capitalista. Que a Espanha não tenha conseguido assimilar essas vantagens, que elas ao fim se transferissem para as potências rivais, decorre de condições particulares da situação metropolitana. O contrabando não exclui a realidade do sistema colonial: o que os empresários rivais visavam era o usufruto das vantagens desse sistema.

A competição ultramarina iniciada no nível puramente comercial desdobrou-se em concorrência propriamente colonial a partir da instalação das colônias inglesas, francesas e holandesas.

Experiência neerlandesa no empenho de estabelecer linhas diretas do comércio com o Oriente levou à uma organização de uma companhia monopolista de comércio.

A expansão marítima inglesa corre paralela com a formulação dos princípios mercantilistas. A colonização inglesa apresentou os mais variados matizes. Foi a GB que levou de vencida a concorrência colonial durante o Antigo Regime para se tornar, no séc. XIX, a potência imperial por excelência. Deu origem a uma colonização peculiar, as colônias de povoamento. Ao fim do séc. XVII instalaram-se as plantations antilhanas.

Com os Atos de Navegação se articula o Old Colonial System. Vinculações de interesse com Portugal e Espanha: tinha a Inglaterra interesse nessas importações, que permitiam, em contrapartida as manufaturas britânicas atingirem os mercados da América Latina, através das metrópoles. Outra via: contrabando.

O ato de 1660 particularizava que os produtos das colônias inglesas só poderiam ser transportados em navios ingleses. O Staple Act de 1663 proibia às colônias importarem em navios que não tocassem em portos ingleses.

Na França, a primeira fase da expansão marítima se caracterizou pela pirataria e pelo corso. Com Colbert, o mercantilismo francês (colbertismo) estruturou-se em amplo plano, onde simultaneamente eram atacados todos os setores da economia. Expansão enquadrada no esquema monopolista.

Se visualizarmos de um lado o capitalismo mercantil europeu em fase de grande expansão e de outro as economias periféricas, constatamos na essência o sistema exploração delas pelas metrópoles; os conflitos se davam em torno do usufruto de suas vantagens, na redistribuição dos lucros comerciais e coloniais, ultramarinos em suma, entre as várias nações do Velho Mundo.

O exclusivo metropolitano do comércio colonial consiste, em suma, na reserva do mercado das colônias para a metrópole, i.e., para a burguesia comercial metropolitana. Esse o mecanismo fundamental, gerador de lucros excedentes, lucros coloniais; através dele, a economia central metropolitana incorporava o sobretudo das economias coloniais coadjuvantes.
Detendo exclusividade da compra, os mercadores podiam deprimir os preços da colônia até o nível dos custos de produção. Na revenda da metrópole, detinham monopólio da oferta. Obtinham sobre-lucro dos dois lados. Promovia uma transferência de renda real da colônia para a metrópole. Do outro lado, os que tinham exclusividade dos produtos europeus nas colônias que os adquiriam a preço de mercado na Europa podiam revendê-los ao mais alto preço, mesmo mecanismo de incentivo de acumulação primitiva.

A estrutura sócio-econômica que se organiza nas colônias, a produção escravista e a decorrente concentração