NOVAIS (1990) III - A Crise do Antigo Sistema Colonial
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NOVAIS (1990) III - A Crise do Antigo Sistema Colonial

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sua capacidade de importar. Quando ampliava-se a procura externa, os fatores eram mobilizados para a produção exportadora; a produção colonial poderia desenvolver-se autonomamente.

Produção mercantil liga a expansão colonial com o desenvolvimento econômico europeu. A expansão ultramarina resultou do esforço de superação dos obstáculos que a economia mercantil européia encontrava para manter seu ritmo de crescimento. As economias coloniais configuraram setores produtivos especializados, enquadrados nas grandes rotas comerciais e mercados consumidores em expansão. Nesse sentido significa ampliação da economia de mercado, respondendo às necessidades do capitalismo em formação.

Toda a estruturação das atividades econômicas coloniais, bem como a formação social a que servem de base, definem-se na linha de orça do sistema colonial mercantilista, i.e., nas suas conexões com o capitalismo comercial.

Promover a primitiva acumulação capitalista = estimular o progresso burguês nos quadros da sociedade ocidental.

Sentido profundo: Assim em primeiro lugar, o regime do comércio se desenvolve nos quadros do exclusivo metropolitano, daí a produção colonial orientar-se para aqueles produtos indispensáveis ou complementares às economias centrais. Deviam ser produzidos de modo que a sua comercialização promovesse estímulos à acumulação burguesa nas economias européias.

As colônias deviam organizar-se de forma a permitir um sistema de exploração, o que impunha a adoção de formas de trabalho compulsórias, ou no limite, o escravismo.

Enquanto na Europa nos séculos XVI, XVII, XVIII transitava-se da servidão feudal para o trabalho assalariado, que passou a dominar as relações de produção a partir da Revolução Industrial, no Ultramar a escravidão reaparecia.

A escravidão foi o regime de trabalho preponderante na colonização do Novo Mudo, o tráfico negreiro que a alimentou, um dos setores mais rentáveis do comércio colonial.

As explicações para o escravismo variam, uma delas afirma que os países colonizadores tinham população escassa e por isso recorreram aos africanos.

A emergência da economia mercantil (o desenvolvimento do comércio) tende a promover o desatamento dos laços servis, criando lentamente condições para expansão para o trabalho livre. Nesse sentido, a escravidão na América era um contra-senso.

A mercantilização da produção só pode generalizar-se dominando as relações sociais, quando a força produtiva do trabalho se torna própria mercadoria, quando a economia mercantil se integra em capitalista. O processo produtivo se inicia com uma inversão de capital na sua original forma – dinheiro, que investindo-se se torna fatores de produção (capital produtivo); a interação dos fatores elabora mercadorias, na nova forma de capital (capital-mercadorias), que realizadas (vendidas) no mercado restitui ao capital sua forma de dinheiro original, acrescida de valorização (mais-valia), que remunera assim os fatores (juros, lucros, rendas, salários) e permite a reinversão num nível mais elevado.

Na escravidão, o pagamento do fator trabalho deve ser adiantado (compra do escravo). Ademais, toda a extraordinária flexibilidade da economia capitalista fica bloqueada: a produção não se pode ajustar às flutuações da procura, pois é impossível dispensar o fator trabalho engajado de uma vez por todas. É pois, menos rentável o trabalho escravo para a produção mercantil, trabalho oneroso.

Examinado em si mesmo, o funcionamento da produção mercantil torna naturalmente impossível o emprego de escravos na produção para o mercado. O desenvolvimento das relações mercantis ao desorganizar a antiga estrutura, aprofundando a divisão social do trabalho e a especialização da produção, ia criando mercado e permitindo o impulsionamento do processo. De constituição do capitalismo, a dissolução dos laços sociais tradicionais promove a expansão da forma assalariada do regime de trabalho: processo que pressupões de um lado a libertação do trabalhador de todas as prestações servis, mas de outro lado, a dissociação entre o produtor e seus instrumentos produtivos, ficando privado de quaisquer fatores de produção que não a força de seu trabalho.

Isso significa que o desenvolvimento do trabalho livre envolveu de uma parte a superação dos laços servis (prestações, banalidades...) de outra a separação entre os produtores-diretos e todos os demais fatores de produção. São compelidos a trocar no mercado sua FT.

Isolada dos demais componentes do processo produtivo, a força de trabalho torna-se mercadoria. Na consciência burguesa, o que se viu nesse processo de formação do assalariado foi a libertação do trabalho das injunções servis.

Marx constatou que nas colônias eram desfavoráveis as condições de constituição do trabalho livre, sempre havendo a possibilidade de o produtor-direto assalariado, apropriando-se de uma terra despovoada, transformar-se em produtor independente.

Eric Williams: a implantação do escravismo colonial, longe de ter sido uma opção foi uma imposição das condições histórico-econômicas. Nas condições históricas em que se processa a colonização na América, a implantação de formas compulsórias de trabalho decorria fundamentalmente da necessária adequação da empresa colonizadora aos mecanismos do Antigo Sistema Colonial.

Do contrário, dada a abundância de um fator de produção (terra), o resultado seria a constituição no Ultramar de núcleos europeus de povoamento, desenvolvendo uma economia de subsistência voltada para o seu próprio consumo, sem vinculação econômica efetiva com os centros dinâmicos metropolitanos. Isto ficava fora dos impulsos expansionistas do capitalismo mercantil europeu, não respondia às suas necessidades.

Tratava-se de colonizar para o capitalismo: impunha o trabalho compulsório. Produzir para o mercado europeu nos quadros do comércio colonial tendentes a promover a acumulação primitiva de capital nas economias européias exigia formas compulsórias de trabalho. Do contrário, ou não se produzia para o mercado europeu (os colonos povoadores desenvolveriam uma economia voltada para o próprio consumo), ou se imaginasse uma produção exportadora organizada por empresários que assalariassem o trabalho, os custos de produção seriam tais que impediriam a exploração colonial e a função da colonização no desenvolvimento do capitalismo europeu (salários deveriam conter o custo de oportunidade de terem sua própria terra). A produção só poderia se organizar em larga escala.

Sobre essa base escravista desenvolveu-se a colonização da América portuguesa, e a sociedade colonial foi sendo moldada sobre essa base. Explicação para o africano: inadaptação dos índios à lavoura e oposição jesuítica à escravidão deles. Mas sempre que se escasseavam os africanos, recorreu-se à compulsão dos índios. Eles foram utilizados na fase inicial, logo não havia problema de aptidão. Mas a população indígena era pouca, e havia dificuldade no seu apresamento, transporte. A preferência pelo africano: sistema de relações tendentes a promover a acumulação. O tráfico negreiro abria um novo e importante setor do comércio colonial (apresamento dos índios era interno). A acumulação gerada no comércio de africanos fluía para a metrópole, realizavam-na os mercadores metropolitanos, engajados no abastecimento dessa mercadoria. É a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial.