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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.477 seguidores
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Novembro de 2000

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Livro I

1

Nosso tratado se propõe encontrar um método de investigação graças ao
qual possamos raciocinar, partindo de opiniões geralmente aceitas, sobre
qualquer problema que nos seja proposto, e sejamos também capazes, quando
replicamos a um argumento, de evitar dizer alguma coisa que nos cause
embaraços. Em primeiro lugar, pois, devemos explicar o que é o raciocínio e
quais são as suas variedades, a fim de entender o raciocínio dialético: pois tal
é o objeto de nossa pesquisa no tratado que temos diante de nós.

Ora, o raciocínio é um argumento em que, estabelecidas certas coisas,
outras coisas diferentes se deduzem necessariamente das primeiras. (a) O
raciocínio é uma "demonstração" quando as premissas das quais parte são
verdadeiras e primeiras, ou quando o conhecimento que delas temos provém
originariamente de premissas primeiras e verdadeiras: e, por outro lado (b), o
raciocínio é "dialético" quando parte de opiniões geralmente aceitas. São
"verdadeiras" e "primeiras" aquelas coisas nas quais acreditamos em virtude
de nenhuma outra coisa que não seja elas próprias; pois, no tocante aos
primeiros princípios da ciência, é descabido buscar mais além o porquê e as
razões dos mesmos; cada um dos primeiros princípios deve impor a convicção
da sua verdade em si mesmo e por si mesmo. São, por outro lado, opiniões
"geralmente aceitas" aquelas que todo mundo admite, ou a maioria das
pessoas, ou os filósofos em outras palavras: todos, ou a maioria, ou os mais
notáveis e eminentes.

O raciocínio (c) é "contencioso" ou "erístico" quando parte de opiniões
que parecem ser geralmente aceitas, mas não o são realmente, ou, então, se
apenas parece raciocinar a partir de opiniões que são ou parecem ser
geralmente aceitas. Pois nem toda opinião que parece ser geralmente aceita o é
na realidade. Com efeito, em nenhuma das opiniões que chamamos
geralmente aceitas a ilusão é claramente visível, como acontece com os
princípios dos argumentos contenciosos, nos quais a natureza da falácia é de
uma evidência imediata, e em geral até mesmo para as pessoas de pouco
entendimento. Assim, pois, dos argumentos erísticos que mencionamos, os
primeiros merecem realmente ser chamados "raciocínios , mas aos segundos
devemos reservar o nome de "raciocínios erísticos" ou "contenciosos", e não
simplesmente "raciocínios', visto que parecem raciocinar, mas na realidade
não o fazem.

Mais ainda (d): além de todos os raciocínios que mencionamos existem os
paralogismos ou falsos raciocínios, que partem de premissas peculiares às

ciências especiais, como acontece, por exemplo, na geometria e em suas
ciências irmãs. Com efeito, esta forma de raciocínio parece diferir das que
indicamos acima; o homem que traça uma figura falsa raciocina a partir de
coisas que nem são primeiras e verdadeiras, nem tampouco geralmente
aceitas. Com efeito, o modo de proceder desse homem não se ajusta à
definição; ele não pressupõe opiniões que sejam admitidas por todos, ou pela
maioria, ou pelos filósofos - isto é, por todos, pela maioria ou pelos mais
eminentes -, mas conduz o seu raciocínio com base em pressupostos que,
embora apropriados à ciência em causa, não são verdadeiros; e seu
paralogismo se fundamenta ou numa falsa descrição dos semicírculos, ou no
traçado errôneo de certas linhas.

O que precede deve entender-se como uma visão sinóptica das espécies de
raciocínio. De um modo geral, tanto no que se refere às que já discutimos
como às que discutiremos mais tarde, podemos dizer que as distinções já feitas
entre elas serão suficientes, pois não é nosso propósito dar a definição exata de
cada uma delas. Desejamos apenas descrevê-las em linhas gerais, e cremos
que, do ponto de vista do nosso método de investigação, basta que possamos
reconhecer de algum modo cada uma delas.

2

Depois do que precede, devemos dizer para quantos e quais fins é útil este
tratado. Esses fins são três: o adestramento do intelecto, as disputas casuais e
as ciências filosóficas. Que ele é útil como forma de exercício ou
adestramento, é evidente à primeira vista. A posse de um plano de
investigação nos capacitará para argumentar mais facilmente sobre o tema
proposto. Para as conversações e disputas casuais, é útil porque, depois de
havermos considerado as opiniões defendidas pela maioria das pessoas, nós as
enfrentaremos não nos apoiando em convicções alheias, mas nas delas
próprias, e abalando as bases de qualquer argumento que nos pareça mal
formulado. Para o estudo das ciências filosóficas é útil porque a capacidade de
suscitar dificuldades significativas sobre ambas as faces de um assunto nos
permitirá detectar mais facilmente a verdade e o erro nos diversos pontos e
questões que surgirem. Tem ainda utilidade em relação às bases últimas dos
princípios usados nas diversas ciências, pois é completamente impossível
discuti-los a partir dos princípios peculiares à ciência particular que temos
diante de nós, visto que os princípios são anteriores a tudo mais; é à luz das
opiniões geralmente aceitas sobre as questões particulares que eles devem ser
discutidos, e essa tarefa compete propriamente, ou mais apropriadamente, à
dialética, pois esta é um processo de crítica onde se encontra o caminho que
conduz aos princípios de todas as investigações.

3

Estaremos em plena posse da maneira como devemos proceder quando nos
encontrarmos numa posição semelhante à que ocupamos face à retórica, à
medicina e outras ciências ou artes desse tipo: refiro-me à capacidade de fazer
o que nos propomos mediante o uso dos materiais disponíveis. Pois o retórico
não lançará mão de qualquer método para persuadir, nem o médico para curar;
entretanto, se não omite nenhum dos meios disponíveis, diremos que o seu
domínio da ciência é adequado.

4

Em primeiro lugar, pois, devemos ver de que partes consta a nossa
investigação. Se compreendêssemos (a) a respeito de quantas coisas e que
espécie de coisas se argumenta, e de que materiais partem as argumentações, e
(b) de que maneira poderemos estar bem supridos desses materiais, teríamos
alcançado suficientemente a nossa meta.

Pois bem: os materiais de que partem os argumentos são iguais em número
e idênticos aos temas sobre os quais versam os raciocínios. Com efeito, os
argumentos partem de "proposições", enquanto os temas sobre os quais
versam os raciocínios são "problemas". Ora, toda proposição e todo problema
indicam ou um gênero, ou uma peculiaridade, ou um acidente - já que também
a diferença, aplicando-se como se aplica a uma classe (ou gênero), deve ser
equiparada aqui ao gênero. Entretanto, como daquilo que é peculiar a uma
coisa qualquer uma parte significa a sua essência e outra parte não, vamos
dividir o "peculiar" nas duas partes mencionadas e chamar "definição" a que
indica a essência, e quanto ao restante adotaremos a terminologia geralmente
usada a respeito dessas coisas, referindo-nos a ele como uma "propriedade". O
que acabamos de dizer torna pois claro que, de acordo com nossa presente
divisão, os elementos são quatro ao todo, a saber: definição, propriedade,
gênero e acidente.

Não se suponha que com isto queiramos dizer que cada um desses
elementos enunciado isoladamente constitua por si mesmo uma proposição ou
um problema, mas apenas que é deles que se formam tanto os problemas como
as proposições. A diferença entre um problema e uma proposição é uma
diferença na construção da frase. Porque, se nos expressarmos assim: "'um
animal que caminha com dois pés' é a definição do homem, não é?", ou:
"animal' é o gênero do homem, não é?", o resultado é uma proposição; mas se
dissermos. ''é animal que caminha com dois pés' a definição do homem