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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.373 seguidores
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essa mesma coisa.

Considere-se também o tempo implicado, para ver se há discrepância em
alguma parte: suponha-se, por exemplo, que um homem afirmou que o que é
alimentado cresce necessariamente: pois os animais estão sempre sendo
necessariamente alimentados, mas nem sempre crescem. E também da mesma
forma se ele disse que conhecer é lembrar-se: porque uma dessas coisas diz
respeito ao tempo passado, enquanto a outra tem que ver igualmente com o
presente e com o futuro. Diz-se, com efeito, que conhecemos as coisas
presentes e futuras (por exemplo, que haverá um eclipse), ao passo que é
impossível lembrar-se de nada que não pertença ao passado.

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Existe, além disso, o desvio sofístico do argumento, mediante o qual
levamos nosso adversário a fazer a espécie de afirmação contra a qual estamos
bem providos de linhas de argumentação. Esse procedimento é por vezes uma
necessidade real, outras vezes uma necessidade aparente e outras, ainda, não é
uma necessidade em absoluto, nem aparente, nem real. É realmente necessário
sempre que o que responde tenha negado algum ponto de vista que seja útil no
ataque à tese, e o que pergunta dirige então os seus argumentos no sentido de
apoiar o seu ponto de vista, sendo este um daqueles sobre os quais ele está
bem provido de tópicos. É também realmente necessário sempre que ele (o
que interroga), tendo chegado previamente a uma certa afirmação por meio de
uma indução feita a partir da opinião expressa, procure depois demolir essa
afirmação: porque, uma vez demolida esta, a opinião expressa originalmente
fica também refutada.

É uma necessidade aparente quando o ponto para o qual passa a dirigir-se
a discussão parece ser útil e relevante para a tese sem o ser realmente, quer
porque o homem que se opõe ao argumento se tenha recusado a conceder
alguma coisa, quer porque ele (o que pergunta) tenha previamente chegado a
ela por uma indução plausível baseada na tese, e trate então de demoli-la.

O caso restante é quando o ponto a que a discussão passou a dirigir-se não
é nem realmente, nem aparentemente necessário, e, por sorte do contendente,
é refutado numa simples questão secundária. Deve-se ter cautela com o último
dos métodos mencionados, pois parece estar completamente desvinculado da
arte da dialética e ser totalmente estranho a ela. Por essa mesma razão, o
contendente não deve perder a calma, mas dar seu assentimento a afirmações
que nenhuma utilidade têm no ataque à tese, acrescentando uma indicação
sempre que assente, embora não esteja concorde com o ponto de vista.
Porquanto, em via de regra, a confusão dos que perguntam torna-se maior se,
depois de lhes terem sido concedidas todas as proposições dessa espécie, não
podem chegar a conclusão alguma.

Além disso, quem tenha feito uma afirmação qualquer fez, em certo
sentido, várias afirmações, dado que cada afirmação tem um número de
conseqüências necessárias: por exemplo, quem disse "X é um homem"
também disse que ele é um animal, que é um ser animado e um bípede, e que é
capaz de adquirir razão e conhecimento, de forma que, pela demolição de uma
só destas conseqüências, seja ela qual for, a afirmação original é igualmente
demolida. Mas aqui também é preciso acautelar-se para não passar a um

argumento mais difícil: pois às vezes é a conseqüência e outras vezes a tese
original a mais fácil de refutar.

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Com respeito aos sujeitos que devem ter um, e apenas um, dentre dois
predicados, como, por exemplo, um homem deve ter ou bem doença, ou bem
saúde, supondo-se que no tocante a um deles estejamos bem providos de
argumentos para afirmar a sua presença ou ausência, estaremos igual-mente
bem documentados no que se refere ao outro. Este tópico é conversível para
ambos os fins: pois, quando houvermos demonstrado que um dos argumentos
pertence ao sujeito, teremos demonstrado também que o outro não lhe
pertence; e, se demonstrarmos que um deles não lhe pertence, teremos
demonstrado a predicabilidade do outro. Evidentemente, pois, a regra é útil
para ambos os fins.

Além disso, pode-se adotar uma linha de ataque que consiste em
reinterpretar um termo no seu sentido literal, implicando que é mais adequado
tomá-lo assim do que no sentido estabelecido: por exemplo, a expressão "de
coração forte" não sugerirá o homem corajoso, de acordo com o uso
presentemente estabelecido, mas o homem cujo coração se acha em ótimo
estado; assim como também a expressão "de boa esperança" se pode entender
no sentido de um homem que espera boas coisas. E analogamente, "de boa
estrela" se pode tomar no significado do homem cuja estrela é boa, como diz
Xenócrates: "de boa estrela é aquele que possui uma alma nobre". Pois a
estrela de um homem é a sua alma.

Algumas coisas acontecem por necessidade, outras habitualmente, outras
por acaso; se, portanto, se afirmou que um acontecimento necessário ocorre
habitualmente, ou que um acontecimento usual (ou, na falta de tal
acontecimento, o seu contrário) ocorre necessariamente, isso sempre fornece
um ensejo para atacar. Porque, se alguém afirmou que um acontecimento
necessário ocorre habitualmente, é claro que esse homem negou a
universalidade de um atributo universal, cometendo, pois, um erro; e da
mesma forma se declarou que o atributo usual é necessário, pois então declara
que ele se predica universalmente, quando não é assim. E analogamente se
sustenta ser necessário o contrário do que é habitual. Porque o contrário de um
atributo usual é sempre um atributo relativamente raro: por exemplo se os
homens são habitualmente maus, é relativamente raro encontrar um homem
bom, de modo que o erro do contendor é ainda pior se afirmou que eles são
necessariamente bons. O mesmo é verdadeiro se ele afirmou que uma simples
questão de acaso ocorre necessária ou habitualmente, pois um fato eventual
não acontece nem necessária, nem habitualmente. Se a coisa acontece
habitualmente, então, mesmo supondo-se que sua afirmação não deixe bem

claro se ele entende que a coisa em questão sucede habitualmente ou de forma
necessária, dá margem a que a contestemos na suposição de que o caso seja
este último; por exemplo, se ele afirmou, sem fazer distinção alguma, que as
pessoas deserdadas são más, podemos supor, na discussão, que ele quis dizer
que tais pessoas são assim necessariamente.

É preciso também verificar se ele por acaso afirmou que uma coisa é um
acidente de si mesma, tomando-a por algo diferente porque tem um nome
distinto, como Pródico, que dividia os prazeres em alegria, deleite e regozijo,
pois todos estes são sinônimos da mesma coisa, isto é, prazer. Se, pois, alguém
disser que a alegria é um atributo acidental de regozijo, estará dizendo que ela
é um atributo acidental de si mesma.

7

Visto que os contrários podem ser ligados uns aos outros de seis maneiras
e quatro dessas uniões formam uma contrariedade, devemos entender o
assunto dos contrários a fim de que isso nos possa ajudar tanto a estabelecer
como a demolir uma opinião.

Ora bem: que os modos de conjunção são seis é evidente: pois (1) ou cada
um dos verbos contrários será ligado a cada um dos objetos contrários, e isso
nos fornece dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos e fazer mal aos
inimigos, ou, inversamente, fazer mal aos amigos e bem aos inimigos; ou,
então, (2) ambos os verbos podem ser unidos a um só objeto, e isto também
nos fornece dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos e fazer mal aos
amigos, ou fazer bem aos inimigos e fazer mal aos inimigos. Ou, ainda, (3) um
só verbo pode ser ligado a ambos os objetos, e isto nos fornece igualmente
dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos e fazer bem aos inimigos, ou
fazer mal aos amigos e fazer mal aos inimigos.

As duas primeiras das conjunções supramencionadas não constituem, pois,
nenhuma contrariedade, porquanto