topicos
204 pág.

topicos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.490 seguidores
Pré-visualização50 páginas
fazer bem aos amigos não é contrário a
fazer mal aos inimigos, uma vez que ambas essas maneiras de proceder são
desejáveis e correspondem a uma mesma disposição. Nem tampouco fazer
mal aos amigos é contrário a fazer bem aos inimigos, pois ambas essas coisas
são reprováveis e pertencem à mesma disposição; e não se pensa geralmente
que uma coisa reprovável seja contrária a outra, a menos que uma denote um
excesso e a outra uma deficiência; pois um excesso é geralmente incluído na
classe das coisas reprováveis, e da mesma forma uma deficiência. Mas todas
as outras quatro constituem uma contrariedade. Com efeito, fazer bem aos
amigos é o contrário de fazer mal aos amigos, pois essas coisas procedem de
disposições contrárias, e uma delas é desejável enquanto a outra é reprovável.
O caso é semelhante no que tange às outras conjunções, pois em cada uma
dessas combinações um modo de proceder é desejável e o outro reprovável, e
um corresponde a uma disposição razoável e o outro a uma má disposição.
Pelo que ficou dito torna-se, pois, claro que o mesmo modo de proceder tem
mais de um contrário. Com efeito, fazer bem aos amigos tem como contrários
tanto fazer mal aos amigos como fazer bem aos inimigos. E, se os
examinarmos do mesmo ângulo, veremos que os contrários de cada um dos
outros também são em número de dois. Escolha-se, portanto, qualquer dos
dois contrários que seja útil para atacar uma tese.

Além disso, se o acidente de uma coisa tem um contrário, é preciso
verificar se este pertence ao sujeito a que foi atribuído o acidente em apreço;
porque, se o segundo lhe pertence, não pode pertencer-lhe o primeiro, visto ser
impossível que predicados contrários pertençam simultaneamente à mesma
coisa.

Deve-se examinar, por outro lado, se de alguma coisa foi dita outra coisa
de tal índole que, se for verdadeira, predicados contrários devem
necessariamente pertencer à primeira: por exemplo, se o contendor afirmou
que as "idéias" existem em nós. Pois daí resultará que elas estão ao mesmo
tempo em movimento e em repouso, e, além disso, que são objetos tanto de
sensação como de conhecimento. Com efeito, de acordo com as opiniões dos
que afirmam a existência de idéias, essas idéias estão em repouso e são objetos
de conhecimento; ora, se elas existem em nós, é impossível que estejam
imóveis; pois quando nos movemos, segue-se necessariamente que tudo que
em nós existe se move juntamente conosco. Não é menos evidente que
também são objetos de sensação, se existem em nós, pois é pela sensação da
vista que reconhecemos a forma presente em cada indivíduo.

Se se afirmou um acidente que tem um contrário, é preciso ver se aquilo
que admite o acidente admite também o seu contrário; pois uma mesma coisa
admite contrários. Assim, por exemplo, se o contendor afirmou que o ódio se
segue à cólera, o ódio pertenceria, nesse caso, à "faculdade emotiva", pois é a
essa que pertence a cólera. Deve-se, por conseguinte, verificar se o seu
contrário, a saber, a amizade, também pertence à "faculdade emotiva"; porque
se assim não for - se a amizade pertence à faculdade do desejo, então o ódio
não pode seguir-se à cólera. E de maneira análoga se o outro afirmou que o
desejo é ignorante. Porque, se ele fosse capaz de ignorância, seria também
capaz de conhecimento, e não é esta a opinião geral - isto é, que a faculdade
do desejo seja capaz de conhecimento. A fim, pois, de rebater uma opinião,
como já se disse, deve-se observar esta regra; mas quando, pelo contrário, se
trata de estabelecer um ponto de vista, embora a regra não ajude a afirmar que
o acidente pertence atualmente ao sujeito, ajuda a defender a possibilidade de
tal predicação. Pois ao demonstrar que a coisa em questão não admite o
acidente que lhe foi atribuído, teremos demonstrado que o acidente não lhe
pertence, nem é possível que lhe pertença; e, por outro lado, se demonstrarmos
que o contrário lhe pertence, ou que a coisa comporta o contrário, não
teremos, em verdade, demonstrado ainda que o acidente afirmado também lhe
pertence; nossa prova não terá ido além desse ponto. a possibilidade de que ele
lhe pertença.

8

Dado que os modos de oposição são em número de quatro, devemos
procurar argumentos entre as contraditórias de nossos termos, invertendo a
ordem de sua seqüência, tanto ao rebater uma opinião como ao estabelecê-la.
Nós os obteremos por meio da indução - argumentos tais como, por exemplo,
"se o homem é um animal, o que não é um animal não é um homem"; e de
maneira análoga nos outros casos de contraditórias. Com efeito, nestes casos a
seqüência é invertida, porque "animal" se segue de "homem", mas "não-
animal" não se segue de "não-homem", antes, pelo contrário, "não-homem"
segue-se de "não-animal". Em todos os casos, por conseguinte, deve-se fazer
um postulado desta espécie, por exemplo, que "se o honroso é agradável, o
que não é agradável não é honroso: e, se este último é falso, também o será o
primeiro". E, do mesmo modo: "se o que não é agradável não é honroso, então
o que é honroso é agradável". Evidentemente, pois, a inversão da seqüência
formada pela contradição dos termos é um método conversível para ambos os
fins.

Examine-se, a seguir, o caso dos contrários de S e P na tese para ver se o
contrário de um se segue ao contrário do outro, quer diretamente, quer por
conversão, tanto quando se rebate como quando se estabelece uma opinião;
convém munir-se de argumentos desta espécie também por meio da indução,
na medida em que isso for necessário. Ora, a seqüência é direta num caso
como o da coragem e da covardia, pois de uma delas se segue a virtude e da
outra o vício; e de uma se segue que é desejável, enquanto da outra se segue
que é reprovável. Portanto, a seqüência é também direta no segundo caso, pois
o desejável é o contrário do reprovável. E do mesmo modo nos outros casos.
Por outro lado, a seqüência é inversa num caso como o seguinte: a saúde é
conseqüência do vigor, mas a doença não é conseqüência da fraqueza; seria
mais certo dizer que a fraqueza é conseqüência da doença. Neste caso, pois, é
evidente que a seqüência é inversa. Esta é, todavia, rara no caso dos
contrários: aí, habitualmente, a seqüência é direta. Se, pois, o contrário de um
dos termos não se segue do contrário do outro nem direta, nem inversamente,
é evidente que tampouco um dos termos se segue do outro na afirmação feita,
ao passo que, se um é conseqüência do outro no caso dos contrários, também
deve necessariamente ser assim na afirmação inicial.

Devem-se também examinar os casos de privação ou presença de um
estado do mesmo modo que no caso dos contrários. Acontece, apenas, que em
tais casos não ocorre a seqüência inversa; ela é, forçosamente, sempre direta:
por exemplo, a sensação é conseqüência da vista, ao passo que a ausência de

sensação é conseqüência da cegueira. Com efeito, a oposição entre sensação e
ausência de sensação é uma oposição entre a presença e a privação de um
estado: pois um deles é um estado, e o outro é a privação do mesmo.

O caso dos termos relativos também deve ser estudado da mesma maneira
que o de um estado e da sua privação, pois aqui a seqüência também é direta:
por exemplo, se 3/1 é um múltiplo, então 1/3 é uma fração, pois 3/1 é relativo
a 1/3 assim como um múltiplo é relativo a uma fração. E igualmente, se o
conhecimento é um modo de conceber, o objeto do conhecimento também
será um objeto de concepção; e se a vista é uma sensação, também o objeto da
vista será um objeto de sensação.

Poder-se-ia levantar aqui a objeção de que, no caso dos termos relativos,
não há nenhuma necessidade de ocorrer a seqüência da maneira descrita, pois
o objeto de sensação é um objeto de conhecimento, ao passo que a sensação
não é conhecimento. Essa objeção, contudo, não se admite em geral como
realmente válida, pois muitos