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de uma coisa a outra.

Se a adição de uma coisa a outra faz com que esta outra se torne boa ou
branca, quando anteriormente não era boa nem branca, então a coisa
acrescentada será branca ou boa - isto é, possuirá o caráter que comunica ao
todo. Por outro lado, se a adição de alguma coisa a um dado objeto intensifica
o caráter que ele possuía tal como foi dado, então a coisa acrescentada
possuirá, ela mesma, esse caráter. E analogamente quanto aos demais
atributos. Esta regra não é aplicável a todos os casos, mas apenas àqueles em
que se veja realmente que ocorre o excesso descrito por nós como "intensidade
aumentada". Não é esta regra, no entanto, conversível para o fim de refutar
uma opinião. Porque, se a coisa acrescentada não torna a outra boa, nem por
isso é evidente que ela mesma não seja boa: com efeito, a adição do bom ao
mau não faz necessariamente com que o mau se torne bom, como a adição do
branco ao preto não faz com que o preto se torne branco.

Por outro lado, qualquer predicado de que possamos expressar graus
maiores ou menores de inerência pertence também absolutamente ao sujeito,
pois graus maiores de bom ou branco não se atribuirão ao que não é bom ou

branco: de uma coisa má nunca se dirá que possui um grau maior ou menor de
bondade do que outra, mas sempre de maldade. Esta regra tampouco é
conversível para o fim de refutar uma predicação, porquanto vários predicados
dos quais não podemos expressar um grau maior pertencem aos seus sujeitos
de maneira absoluta: o termo "homem", por exemplo, não é atribuído em grau
maior ou menor, mas um homem é um homem de maneira absoluta.

Devem-se examinar do mesmo modo os predicados que se atribuem sob
um aspecto determinado e num tempo e lugar dados: porque, se o predicado é
possível sob determinado aspecto, é também possível absolutamente. E do
mesmo modo quanto ao que é predicado num tempo ou lugar dado; pois
aquilo que é absolutamente impossível tampouco é possível sob qualquer
aspecto, nem em qualquer tempo ou lugar. Neste ponto pode-se levantar uma
objeção, dizendo que sob um determinado aspecto as pessoas podem ser boas
por natureza, por exemplo, podem ser inclinadas à generosidade ou à
temperança, mas de um modo absoluto não são boas por natureza, pois
ninguém é prudente por natureza. E, do mesmo modo, também é possível que
uma coisa escape à corrupção numa ocasião determinada, não sendo, todavia,
possível que escape absolutamente a ela. E, por outro lado, também é uma boa
coisa, em certos lugares, observar tal ou tal dieta ou regime, como, por
exemplo, em zonas contaminadas, embora não seja uma coisa boa em sentido
absoluto. Além disso, em certos lugares é possível viver isolado e só, mas,
falando de modo absoluto, não é possível viver isolado e só. Do mesmo modo,
também em certos lugares é honroso sacrificar o próprio pai, como entre os
Tribalos, ao passo que falando de modo absoluto, isso não é honroso. Ou
talvez isso indique uma relatividade não a lugares, mas a pessoas, pois onde
quer que elas se encontrem acontece o mesmo. Em toda parte esse ato será
considerado honroso entre os Tribalos, simplesmente porque são Tribalos.

Mais ainda: em certas ocasiões é uma boa coisa tomar medicamentos, por
exemplo, quando se está doente, mas não é assim de modo absoluto. Ou talvez
isso possa indicar uma relatividade não a uma ocasião determinada, mas a um
determinado estado de saúde, pois não importa quando isso ocorra, se a pessoa
se encontra em tal estado.

Uma coisa é "absolutamente" assim se estamos dispostos a dizer dela, sem
qualquer adição, que é honrosa ou o contrário. Negaremos, por exemplo, que
seja honroso sacrificar o próprio pai: isso só é honroso para determinada
gente; não é, por conseguinte, honroso em sentido absoluto. Em compensação,
diremos que honrar os deuses é honroso sem acrescentar mais nada, porque é
honroso em sentido absoluto. E assim, de tudo aquilo que, sem qualquer

adição, se considere geralmente honroso ou desonroso, ou ss de qualquer outra
coisa da mesma espécie, se dirá que é assim "absolutamente".

Livro III

1

A questão sobre qual é a mais desejável ou a melhor entre duas ou mais
coisas deve ser examinada da maneira seguinte; mas, antes de mais nada,
devemos deixar bem claro que a investigação que estamos fazendo não diz
respeito a coisas que divergem largamente e mostram grandes diferenças umas
das outras (pois ninguém expressa a menor dúvida sobre se é mais desejável a
felicidade ou a riqueza), mas a coisas que se relacionam estreitamente entre si
e sobre as quais costumamos discutir para saber qual das duas deveremos
preferir, por não vermos nenhuma vantagem de um lado ou de outro ao
compará-las. É evidente, pois, que se em tais casos pudermos mostrar uma
única vantagem, ou mais de uma, nosso juízo será o nosso assentimento
àquela parte que possui a vantagem, como sendo a mais desejável.

Em primeiro lugar, pois, o que é mais duradouro e seguro é preferível
àquilo que o é menos; e, do mesmo modo, o que tem mais probabilidades de
ser escolhido pelo homem sábio ou prudente, pelo homem bom ou pela lei
justa, por homens que são hábeis num campo qualquer, quando fazem sua
escolha como tais, e pelos peritos em determinadas classes de coisas: isto é, o
que a maioria ou o que todos eles escolheriam; por exemplo, em medicina ou
em carpintaria, são mais desejáveis as coisas que escolheria a maioria dos
médicos ou carpinteiros, ou todos eles; ou, de modo geral, o que escolheria a
maioria dos homens, ou todos os homens, ou todas as coisas - pois todas as
coisas tendem para o bem. Deve-se orientar o argumento que se pretende
empregar para qualquer fim que se necessite. O padrão absoluto do que é
"melhor ou mais desejável" é o ditame da melhor ciência, se bem que
relativamente a um indivíduo dado o padrão possa ser a sua ciência particular.

Em segundo lugar, aquilo que é conhecido como "um X" é mais desejável
do que aquilo que não se inclui no gênero "X": por exemplo, a justiça é mais
desejável do que um homem justo, porque a primeira se inclui no gênero
"bem", o que não acontece com o segundo, e a primeira é chamada "um bem",
ao passo que o segundo não o é; pois nada que não pertença ao gênero em
causa é chamado pelo nome genérico, como, por exemplo, um "homem
branco" não é uma cor. E analogamente nos demais casos.

E também o que se deseja por si mesmo é preferível àquilo que se deseja
com vistas noutra coisa: por exemplo, a saúde é preferível à ginástica, porque
a primeira é desejada por si mesma, enquanto a segunda é desejada com vistas
noutra coisa. E do mesmo modo, o que é desejável por si mesmo é mais
desejável do que aquilo que se deseja por acidente; por exemplo, a justiça é

mais desejável em nossos amigos do que em nossos inimigos, pois a primeira
é desejável em si mesma e a segunda por acidente: com efeito, desejamos que
nossos inimigos sejam justos por acidente, a fim de que não nos causem dano.
Este principio é o mesmo que o precedente, embora expresso de outro modo.
Porquanto desejamos a justiça em nossos amigos por si própria, mesmo que
isso não faça nenhuma diferença para nós e ainda que eles estejam na Índia, ao
passo que em nossos inimigos nós a desejamos por outra coisa e a fim de que
eles não nos causem dano.

Por outro lado, aquilo que em si mesmo é causa do bem é mais desejável
do que aquilo que o é por acidente, por exemplo, a virtude é mais desejável do
que a sorte (pois a primeira é por si mesma causa de coisas boas, ao passo que
a segunda só o é acidentalmente); e do mesmo modo nos outros casos da
mesma espécie. E analogamente também no caso contrário, pois aquilo que é
em si mesmo a causa do mal é mais reprovável do que aquilo que o é
acidentalmente, por exemplo, o vício e o acaso, pois o primeiro é mau em si
mesmo e o segundo