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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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só por acidente.

Mais ainda: o que é bom de maneira absoluta é mais desejável do que
aquilo que é bom para uma pessoa particular: por exemplo, recuperar a saúde
é mais desejável do que uma operação cirúrgica, pois a primeira é boa de
maneira absoluta e a segunda só o é para uma pessoa particular, a saber: o
homem que precisa de ser operado. Assim também, o que é um bem por
natureza é mais desejável do que o bem que não é tal por natureza: por
exemplo, a justiça é mais desejável do que o homem justo,. pois a primeira é
boa por natureza, ao passo que no segundo a bondade é adquirida. E também é
mais desejável o atributo que pertence ao melhor e mais honroso sujeito; por
exemplo, o que pertence a um deus é mais desejável do que o que pertence a
um homem, e o que pertence à alma, mais desejável do que o que pertence ao
corpo. Do mesmo modo, a propriedade de uma coisa melhor é mais desejável
do que a propriedade de uma coisa pior, por exemplo: a propriedade de um
deus do que a propriedade do homem; porque, assim como no tocante ao que é
comum a ambos não diferem absolutamente entre si, no que respeita às suas
propriedades um sobrepuja o outro. Também é melhor o que é inerente a
coisas melhores, anteriores ou mais honrosas: assim, por exemplo, a saúde é
preferível à força e à beleza, pois a primeira é inerente tanto ao úmido como
ao seco, tanto ao quente como ao frio - em suma, a todos os constituintes
primários de um animal ao passo que as outras são inerentes ao que é
secundário, sendo a força uma característica dos tendões e dos músculos,
enquanto a beleza, segundo se supõe geralmente, consiste numa certa simetria
dos membros.

Também se supõe geralmente que o fim é mais desejável do que os meios,
e, de dois meios, o que mais se aproxima do fim. E, em geral, um meio que
tende para a finalidade da vida é mais desejável do que um meio que se dirige
a qualquer outra coisa; por exemplo, o que contribui para a felicidade é mais
desejável do que aquele que contribui para a prudência. O apto é também mais
desejável do que o inepto. Do mesmo modo, de dois agentes produtores é mais
desejável aquele cujo fim é melhor; ao passo que entre um agente produtor e
um fim podemos decidir mediante uma soma proporcional sempre que o
excesso de um dos fins sobre o outro seja maior do que o do segundo sobre o
seu agente produtor; por exemplo, supondo-se que o excesso da felicidade
sobre a saúde seja maior do que o da saúde sobre aquilo que a produz, então o
que produz a felicidade é melhor do que a saúde. Com efeito, o que produz a
felicidade excede o que produz a saúde na mesma proporção em que a
felicidade excede a saúde. Mas a saúde excede aquilo que a produz por uma
quantidade menor; logo, o excesso do que produz a felicidade sobre o que
produz a saúde é maior do que o excesso da saúde sobre este último. É
evidente, pois, que o que produz a felicidade é mais desejável do que a saúde,
pois supera o mesmo termo de referência por uma quantidade maior.

Além disso, o que em si mesmo é mais nobre, mais precioso e digno de
louvor é mais desejável do que aquilo que o é menos; por exemplo, a amizade
é mais desejável do que a saúde e a justiça do que a força. Porquanto os
primeiros pertencem em si mesmos à classe das coisas preciosas e dignas de
louvor, ao passo que os segundos só pertencem a ela em virtude de outra
coisa, e não por si mesmos; com efeito, ninguém dá apreço à riqueza por si
mesma, mas sempre em virtude de outra coisa, enquanto a amizade nos é
preciosa em si mesma, ainda quando não é provável que nos advenha dela
qualquer outro proveito.

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Além disso, sempre que duas coisas se assemelhem muito entre si e não
podemos ver nenhuma superioridade numa delas sobre a outra, devemos
examiná-las sob o ponto de vista de suas conseqüências. Porquanto a que tem
como conseqüência o bem maior é a mais desejável; ou, se as conseqüências
forem más, será mais desejável a que for seguida de um mal menor. Com
efeito, embora ambas sejam desejáveis, pode haver entre elas alguma
conseqüência desagradável que faça pender a balança. Nosso exame a partir
das conseqüências segue duas direções, pois há conseqüências anteriores e
conseqüências posteriores; por exemplo se um homem aprende, segue-se que
antes era ignorante e depois sabe. Como regra geral, a conseqüência posterior
é a que mais deve entrar em consideração. Cumpre escolher, portanto, aquela
das conseqüências que melhor servir aos nossos fins.

Além disso, um grande número de boas coisas é mais desejável do que um
número menor, quer absolutamente, quer quando um está incluído no outro, a
saber: o número menor no maior. Pode-se levantar aqui uma objeção supondo-
se que, num caso particular, uma delas seja apreciada por causa da outra, pois
nesse caso as duas juntas não são mais desejáveis do que uma só; por
exemplo, a recuperação da saúde e a saúde não são mais desejáveis do que a
saúde por si só, visto que desejamos recuperar a saúde precisamente por causa
da saúde. Também é perfeitamente possível que aquilo que não é bom,
juntamente com o que o é, sejam mais desejáveis do que um grande número
de boas coisas: por exemplo, a combinação da felicidade com algo que não
seja bom pode ser mais desejável do que a combinação da justiça e da
coragem. Além disso, as mesmas coisas são mais valiosas quando
acompanhadas de prazer do que quando este está ausente, e da mesma forma
quando são isentas de dor do que quando acompanhadas de dor.

Todas as coisas são também mais desejáveis na ocasião em que assumem
maior importância; por exemplo, estar isento de dor é mais desejável na
velhice do que na juventude, porque se reveste de maior importância na
velhice. Dentro do mesmo princípio, também a prudência é mais desejável na
velhice; com efeito, ninguém escolhe os jovens para guiá-los, pois não se
espera que eles sejam prudentes. Com a coragem dá-se o caso inverso, pois é
na mocidade que se requer de maneira mais imperativa o exercício dessa
virtude. E da mesma forma no que toca à temperança, porquanto os jovens
sofrem mais do que os velhos as conseqüências de suas paixões.

Além disso, é mais desejável aquilo que é mais útil em todas as ocasiões
ou na maioria delas, por exemplo, a justiça e a temperança mais do que a
coragem, pois as primeiras são sempre úteis, enquanto a segunda só o é em
determinadas ocasiões. E dentre duas coisas, aquela que, se todos a
possuíssem, tornaria desnecessária a outra é mais desejável do que aquela que
todos poderiam possuir e, ainda assim, sentir falta da outra. Considere-se a
esta luz o caso da justiça e da coragem: se todos fossem justos, não haveria
necessidade de coragem, ao passo que, se todos fossem corajosos, ainda assim
haveria necessidade de justiça.

Deve-se também julgar pelas corrupções e perdas, pelas gerações e
aquisições, bem como pelo contrário das coisas: pois aquelas coisas cuja
corrupção é mais reprovável são, em si mesmas, mais desejáveis. Com a
geração ou a aquisição de coisas dá-se o contrário, pois aquelas cuja geração
ou aquisição é mais desejável são, em si mesmas, mais desejáveis.

Outra regra ou tópico é que aquilo que está mais próximo do bem - em
outras palavras, o que mais de perto se assemelha ao bem - é melhor e mais
desejável; assim, a justiça é melhor do que um homem justo. E do mesmo
modo, o que mais se assemelha a algo superior a ele próprio é mais desejável
do que aquilo que menos se assemelha; por exemplo, dizem alguns que Ajax
era um homem superior a Ulisses porque se assemelhava mais a Aquiles. A
isto pode-se objetar que não é verdade, pois é bem possível que Ajax não se
assemelhasse mais do que Ulisses a Aquiles naqueles pontos que faziam deste
o melhor de todos eles, e que Ulisses fosse um homem de valor, embora não
se parecesse com Aquiles. Examine-se também se a semelhança