topicos
204 pág.

topicos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.490 seguidores
Pré-visualização50 páginas
não é uma
espécie de caricatura, como a de um macaco com um homem, enquanto um
cavalo não tem qualquer semelhança com este: porque o macaco não é o mais
belo desses dois animais, apesar de sua semelhança mais estreita com o
homem. Por outro lado, se de duas coisas uma se assemelha mais a uma coisa
melhor enquanto a outra se assemelha mais a uma coisa pior, é provável que a
primeira seja melhor do que a segunda. Isto, no entanto, também admite uma
objeção, pois é possível que uma só se pareça de leve com a melhor, enquanto
a outra se parece fortemente com a pior: suponha-se, por exemplo, que a
semelhança de Ajax com Aquiles seja pequena, ao passo que a de Ulisses com
Nestor seja grande. Pode suceder também que o que se assemelha ao tipo
melhor possua uma semelhança de certo modo degradante e que, pelo
contrário, a semelhança da outra com o tipo pior seja no sentido de melhorá-
lo, como é o caso da semelhança entre um cavalo e um jumento em
comparação com a semelhança entre um homem e um macaco.

Outro tópico é que o bem mais evidente é mais desejável do que o menos
evidente, e o mais difícil do que o mais fácil, pois damos maior valor à posse
de coisas que não podem ser adquiridas com facilidade. Do mesmo modo, a
posse mais pessoal é mais desejável do que aquela que é mais amplamente
compartilhada. E também o que está mais livre de conexões com o mal, pois o
que não é acompanhado de nada desagradável é mais desejável do que aquilo
que possui tais conotações.

Além disso, se A é melhor do que B em sentido absoluto, também o
melhor dos componentes de A é superior ao melhor dos componentes de B;
por exemplo, se "homem" é melhor do que "cavalo", também o melhor dos
homens é superior ao melhor dos cavalos. E inversamente, se o melhor
integrante de A é superior ao melhor integrante de B, então A é melhor do que
B em sentido absoluto.

Ainda mais: as coisas que nossos amigos podem compartilhar conosco são
melhores do que aquelas que eles não podem compartilhar. E do mesmo
modo, aquelas coisas que preferiríamos fazer a nossos amigos são melhores do
que aquelas que gostaríamos de fazer a qualquer um: por exemplo, praticar a
justiça e fazer o bem do que simplesmente aparentar essas coisas: pois
preferiríamos fazer bem aos nossos amigos a aparentar fazê-lo, ao passo que,
tratando-se de um homem qualquer a quem encontremos na rua, acontece o
contrário.

Do mesmo modo, as superfluidades são melhores do que as necessidades,
e com freqüência são também mais desejáveis: viver bem, com efeito, é uma
superfluidade, ao passo que a simples vida é uma necessidade. Às vezes,
porém, o melhor não é também mais desejável, pois do fato de ser melhor não
decorre necessariamente que seja mais desejável: pelo menos, ser filósofo é
melhor do que ganhar dinheiro, porém não é mais desejável para um homem
que carece das coisas necessárias à vida. A expressão "superfluidade" aplica-
se sempre que um homem possui o necessário para a vida e esforça-se por
adquirir também outras coisas nobres. Grosso modo, talvez as coisas
necessárias sejam mais desejáveis, enquanto as supérfluas são melhores.

Igualmente, o que não se pode conseguir de outrem é mais desejável do
que aquilo que também se pode conseguir de outrem, como sucede, por
exemplo, no caso da justiça em comparação com a coragem. Do mesmo
modo, A é mais desejável se A é desejável sem B, porém não B sem A: o
poder, por exemplo, não é desejável sem a prudência, mas a prudência é
desejável sem o poder. Assim, também, se de duas coisas repudiamos uma a

fim de que nos considerem possuidores da outra, é mais desejável essa outra
de que desejamos nos considerem possuidores; é assim, por exemplo, que
repudiamos o amor ao trabalho duro a fim de que os outros nos considerem
geniais.

E, por fim, são mais desejáveis aquelas coisas com cuja ausência é menos
reprovável que nos aflijamos, e também aquelas com cuja ausência é mais
reprovável que deixemos de nos afligir.

3

Além disso, de duas coisas que pertencem à mesma espécie, a que possui a
virtude peculiar à espécie é mais desejável do que aquela que carece dessa
virtude. Se ambas a possuem, aquela que a possui em maior grau é mais
desejável.

Se uma coisa torna bom tudo aquilo em que toca, enquanto outra não o
faz, a primeira é mais desejável. exatamente como aquilo que aquece as outras
coisas é mais quente do que aquilo que não as aquece. Se ambas o fazem, é
mais desejável aquela que o faz em grau maior, ou a que torna bom o objeto
melhor e mais importante - se, por exemplo, uma torna boa a alma e a outra o
corpo.

Deve-se julgar, além disso, as coisas pelos seus derivados, seus usos, suas
ações e suas obras, e estes por aquelas, já que ambos andam juntos. Por
exemplo, se "justamente" significa algo mais desejável do que
"corajosamente", então também a justiça é algo mais desejável do que a
coragem; e, se a justiça é mais desejável do que a coragem, "justamente"
significa algo mais desejável do que "corajosamente". E do mesmo modo nos
outros casos.

E igualmente, se uma coisa ultrapassa enquanto outra não alcança o
mesmo padrão de bondade, aquela que o ultrapassa é a mais desejável, como
também o é aquela que ultrapassa um padrão ainda mais elevado. Mais ainda:
se duas coisas são preferíveis a uma terceira, a que é preferível em grau maior
é mais desejável, e a que o é em grau menor é menos desejável. E também
quando o excesso de uma coisa é mais desejável do que o excesso de outra, a
primeira em si mesma é mais desejável do que a outra: por exemplo, a
amizade do que o dinheiro, pois um excesso de amizade é mais desejável do
que um excesso de dinheiro. E, do mesmo modo, aquilo que um homem
preferiria possuir pelo seu próprio esforço é mais desejável do que aquilo que
ele preferiria possuir pelo esforço alheio: assim, os amigos são mais desejáveis
do que o dinheiro.

Deve-se julgar também pelo método de adição e ver se a adição de A à
mesma coisa a que se adiciona B torna o todo mais desejável do que o faz a
adição de B. Convém acautelar-se, no entanto, para não aduzir algum caso em
que o termo comum utilize ou de outra forma qualquer favoreça uma das
coisas que lhe são acrescentadas, porém não a outra, como, por exemplo, se
comparássemos uma serra e uma foice em relação à arte da carpintaria:

porquanto nessa relação a serra é a mais desejável das duas, sem que, no
entanto, seja mais desejável de maneira absoluta. Uma coisa é também mais
desejável se, quando acrescentada a um bem menor, faz com que o todo se
torne um bem maior. E deve-se julgar igualmente pelo sistema da subtração,
pois aquela coisa em resultado de cuja subtração o resto se torna um bem
menor pode considerar-se como um bem maior, seja qual for essa coisa cuja
subtração faz com que o resto seja um bem menor.

E também, se uma coisa é desejável por si mesma e a outra pela sua
aparência a primeira é mais desejável do que a segunda; por exemplo, a saúde
do que a beleza. Diz-se que uma coisa é mais desejável pela sua aparência se,
na suposição de que ninguém tivesse conhecimento dela, não nos
interessássemos em possuí-la. Além disso, é ainda mais desejável se o é tanto
por si mesma como pela sua aparência enquanto a outra coisa só é desejável
por uma dessas razões. E da mesma forma, o que é mais precioso por si
mesmo e também melhor e mais desejável. Uma coisa pode ser julgada mais
desejável em si mesma quando a escolhemos por ela própria, sem que daí nos
advenha nenhuma outra vantagem provável.

Além disso, deve-se distinguir em quantos sentidos se usa o termo
"desejável" e com que fins em vista, por exemplo: a conveniência, a honra ou
o prazer. Com efeito, o que é útil para todas essas coisas ou para a maioria
delas pode ser encarado como mais desejável do que aquilo que não é útil de
igual maneira.