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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.477 seguidores
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Se ambas as coisas possuem essas características, deve-se
examinar qual das duas as possui de maneira mais assinalada, isto é, qual das
duas é mais agradável, ou mais honrosa, ou mais conveniente. É também mais
desejável o que serve uma finalidade melhor, por exemplo: aquilo que
contribui para promover a virtude do que aquilo que promove o prazer. E
analogamente no caso das coisas reprováveis: pois é mais reprovável o que
mais impede a consecução do que é desejável, por exemplo: a doença é mais
reprovável ou indesejável do que a fealdade, por ser um empecilho maior
tanto ao prazer como à virtude.

Deve-se argumentar, além disso, mostrando que a coisa em apreço é em
igual medida desejável e reprovável, pois uma coisa de tal índole que se possa
desejá-la e opor-se a ela por igual é menos desejável do que outra que seja
somente desejável.

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As comparações de coisas umas com as outras devem, pois, ser feitas da
maneira indicada. As mesmas regras ou tópicos são também úteis para mostrar
que uma coisa qualquer é simplesmente desejável ou reprovável, pois para
isso basta subtrair o excesso de uma coisa sobre a outra. Com efeito, se o que
é mais precioso é mais desejável, então o que é simplesmente precioso é
desejável; e, se o que é mais útil é mais desejável, o que é simplesmente útil é
desejável. E analogamente no caso das outras coisas que admitem
comparações desta espécie. Porque, em alguns casos, já ao comparar as coisas
entre si estamos afirmando que cada uma delas, ou pelo menos uma delas, é
desejável: por exemplo, sempre que chamamos uma coisa "boa por natureza"
e a outra "não por natureza"; pois, evidentemente, o que é bom por natureza é
desejável.

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Os tópicos ou lugares referentes a quantidades e graus comparativos
devem tomar-se da forma mais geral possível, porque, assim tomados, serão
provavelmente mais úteis num número maior de casos. É possível tornar mais
universais alguns dos tópicos dados a acima alterando ligeiramente a sua
expressão, por exemplo: que aquilo que por natureza mostra tal e tal qualidade
manifesta-a em grau maior do que aquilo que não a manifesta por natureza. E
também, se uma coisa comunica tal e tal qualidade àquilo que a possui ou a
que ela pertence, enquanto outra coisa não faz tal, a primeira possui essa
qualidade em maior grau do que aquela que não a comunica; e, se ambas a
comunicam, então manifesta-a em grau maior aquela que a comunica em
maior grau.

Além disso, se no que se refere a determinada característica uma coisa
excede e a outra não alcança o mesmo padrão; e também se uma delas supera
algo que supera um dado padrão, enquanto a outra não alcança esse padrão, é
evidente que a primeira manifesta essa característica em maior grau. Deve-se
julgar também por meio da adição e ver se A, quando acrescentado à mesma
coisa que B, comunica ao todo tal e tal caráter em grau mais assinalado do que
B, ou se, quando acrescentado a uma coisa que manifesta esse caráter em grau
menor, o comunica ao todo em grau maior. E, de maneira análoga, também se
pode julgar por meio da subtração: pois uma coisa tal que, quando subtraída, o
resto manifesta tal ou tal caráter em grau menor, possui ela mesma esse caráter
em grau maior. Além disso, as coisas manifestam tal ou tal caráter em grau
maior quando mais isentas de mistura com os seus contrários; por exemplo, é
mais branco aquilo que está mais isento de mistura com o preto. Acresce que,
além das regras dadas acima, possui tal ou tal caráter em grau maior aquilo
que admite em maior grau a definição própria do caráter em apreço; por
exemplo, se a definição do branco é "uma cor que traspassa a visão", será mais
branco aquilo que em maior grau for uma cor que traspassa a visão.

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Se a questão for expressa de forma particular e não universal, podem
aplicar-se em primeiro lugar os tópicos ou lugares universais, tanto
construtivos como destrutivos, que já foram dados. Porque, ao refutar ou
estabelecer uma coisa universalmente, também a demonstramos em particular:
com efeito, se ela é verdadeira de todos, também é verdadeira de alguns; e, se
é falsa de todos, é falsa de alguns. Especialmente prestimosos e de aplicação
muito geral são os tópicos baseados nos opostos, coordenados e derivados de
uma coisa, pois a opinião pública concede por igual que, se todo prazer é bom,
então toda dor é má; e que, se algum prazer é bom, então alguma dor é má.

Além disso, se alguma forma de sensação não é uma capacidade, segue-se
que alguma forma de carência de sensação não é tampouco uma carência de
capacidade. E igualmente, se alguma forma de concepção é em alguns casos
um objeto de conhecimento, então alguma forma de conceber é também
conhecimento. Por outro lado, se o injusto é em alguns casos bom, então o que
é justo também é em alguns casos mau e, se o que acontece justamente é em
alguns casos mau, também o que acontece injustamente é em alguns casos
bom. E, da mesma forma, se o que é agradável é em alguns casos responsável,
também o prazer é em alguns casos uma coisa reprovável. E, apoiando-nos no
mesmo princípio, se o agradável é em alguns casos benéfico, então o prazer
também é em alguns casos uma coisa benéfica. O mesmo se aplica no que
respeita às coisas destrutivas e aos processos de geração e corrupção. Porque,
se alguma coisa que destrói o prazer ou o conhecimento é em alguns casos
boa, então podemos admitir que o prazer ou o conhecimento é em alguns
casos uma coisa má. E analogamente, se a destruição do conhecimento é em
alguns casos uma boa coisa, ou sua produção uma coisa má, então o
conhecimento será, em alguns casos, uma coisa má: por exemplo, se é bom
para um homem esquecer a sua conduta desairosa e lembrá-la é uma coisa má,
então o conhecimento da sua conduta desairosa pode ser tomado como uma
coisa má. O mesmo vale para os demais casos da mesma espécie: em todos
eles a premissa e a conclusão têm igual probabilidade de ser aceitas.

Deve-se julgar, além disso, por meio dos graus maiores, menores ou
iguais: porque, se algum membro de outro gênero manifesta certa
característica em grau mais assinalado do que o objeto que temos em vista, ao
passo que nenhum membro do gênero deste manifesta em absoluto tal
característica, podemos admitir que tampouco o objeto em questão a
manifesta: por exemplo, se alguma forma de conhecimento é boa em maior
grau do que o prazer, ao passo que nenhuma forma de conhecimento é boa,

então pode-se admitir que tampouco o prazer é bom. E da mesma maneira
cabe julgar por um grau menor ou igual, pois se verá que por esse meio tanto é
possível refutar como estabelecer uma opinião; só que, embora ambos sejam
possíveis por meio de graus iguais, por meio de um grau menor só é possível
estabelecer, porém não refutar. Porque, se uma determinada forma de
capacidade é boa em grau igual ao do conhecimento e uma determinada forma
de capacidade é boa, então o conhecimento também o é; ao passo que, se
nenhuma forma de capacidade é boa, tampouco o é o conhecimento. E, se uma
certa forma de capacidade é boa em grau menor do que o conhecimento, e
uma certa forma de capacidade é boa, então o conhecimento também o é; mas,
se nenhuma forma de capacidade é boa, não se infere necessariamente que
também nenhuma forma de conhecimento o seja.

É evidente, pois, que só se pode estabelecer uma opinião ou ponto de vista
por meio de um grau menor de predicação.

É possível refutar uma opinião não só valendo-se de outro gênero, mas
também valendo-se do mesmo, quando se toma o exemplo mais assinalado da
característica em apreço. Por exemplo, se se afirmar que alguma forma de
conhecimento é boa, então, supondo-se tenha sido demonstrado que a
prudência não é boa, nenhuma outra forma de conhecimento o será tampouco,
visto não o ser aquela espécie de conhecimento a respeito da qual