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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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o gênero do passear.

Examinem-se também as coisas de que a espécie dada se predica como
gênero para ver se o que é proposto como seu gênero se predica, na categoria
de essência, das mesmas coisas de que a espécie é assim predicada, e também
se todos os gêneros superiores a esse se predicam também assim. Porque, se
houver alguma discrepância, evidentemente o que se propôs nao é o
verdadeiro gênero; com efeito, se o fosse, tanto os gêneros superiores a ele
quanto ele próprio se predicariam todos na categoria de essência daqueles
objetos de que a própria espécie é predicada em tal categoria. Se, pois,
estamos rebatendo um ponto de vista, é útil verificar se o gênero não se
predica na categoria de essência daquelas coisas de que também se predica a
espécie. Se, por outro lado, estamos estabelecendo uma opinião, é útil
verificar se ele se predica na categoria de essência, pois nesse caso teremos
que o gênero e a espécie se predicam do mesmo objeto na categoria de
essência, de modo que o mesmo objeto fica incluído em dois gêneros; por
conseguinte, os gêneros devem necessariamente subordinar-se um ao outro; e,
se demostrarmos que aquele que desejamos estabelecer como gênero não está
subordinado à espécie, evidentemente a espécie estará subordinada a ele, e
pode dar-se como demonstrado que esse é o gênero.

É preciso considerar também as definições dos gêneros e ver se ambas se
aplicam à espécie dada e aos objetos que participam da espécie. Porquanto as
definições dos seus gêneros devem necessariamente predicar-se da espécie e
dos objetos que dela participam. Se, pois, houver algures uma discrepância, é
evidente que o que se propôs não é o gênero.

Veja-se, por outro lado, se o adversário apresentou como gênero a
diferença: por exemplo, "imortal" como gênero de "deus". "Imortal", com
efeito, é uma diferença de "ser vivente", uma vez que dos viventes alguns são
mortais e outros imortais. É evidente, pois, que se cometeu aí um erro grave,
dado que a diferença de uma coisa nunca é o seu gênero. E a verdade disto
entra pelos olhos, pois a diferença de uma coisa jamais significa a sua
essência, mas antes alguma qualidade, como "semovente" ou "bípede".

Veja-se também se o contendor colocou a diferença dentro do gênero,
tomando, por exemplo, "ímpar" como diferença de número, e não uma
espécie. E tampouco se admite geralmente que a diferença participe do
gênero, pois o que deste participa é sempre uma espécie ou um indivíduo, ao
passo que a diferença não é uma espécie nem um indivíduo. Evidentemente,
pois, a diferença não participa do gênero, de modo que "ímpar" tampouco é
uma espécie, mas sim uma diferença, visto que não participa do gênero.

Além disso, convém verificar se ele colocou o gênero dentro da espécie,
supondo, por exemplo, que "contato" seja uma "união", que "mistura" seja
uma "fusão", ou, como na definição platônica, que "locomoção" seja o mesmo
que "transporte". Pois não é forçoso que um contato seja uma união; antes
pelo contrârio, a união é que deve ser um contato: pois o que está em contato
nem sempre se une, embora o que se une esteja sempre em contato. E de
maneira análoga quanto aos outros exemplos: pois a mistura nem sempre é
uma "fusão" (se misturarmos coisas secas, por exemplo, não as fundiremos),
nem tampouco a locomoção é sempre "transporte". Com efeito, não se pensa
geralmente que caminhar seja um transporte: este termo é empregado de
preferência com relação ao que muda de lugar involuntariamente, como
acontece no caso das coisas inanimadas. É evidente, pois, que a espécie, nos
exemplos dados acima, tem uma extensão mais ampla do que o gênero,
quando o contrário é que devia acontecer.

É preciso ver também se ele colocou a diferença dentro da espécie,
tomando, por exemplo, "imortal" no significado de "um deus". Pois o
resultado será que a espécie tem uma extensão igual ou mais ampla; e isso é
impossível, pois acontece sempre que a diferença tenha uma extensão igual ou
mais ampla que a da espécie. Veja-se, além disso, se ele colocou o gênero
dentro da diferença, fazendo com que a "cor", por exemplo, seja uma coisa
que "traspassa", ou o "número" algo que é "ímpar". Ou, então, se ele
mencionou o gênero como sendo a diferença, pois é possível que alguém
formule também um juízo desta espécie, dizendo, por exemplo, que "mistura"
é a diferença de "fusão", ou que "mudança de lugar" é a diferença de

"transporte". Todos os casos desta espécie devem ser examinados à luz dos
mesmos princípios, pois dependem de regras ou tópicos comuns: o gênero
deve ter um campo de predicação mais amplo do que a sua diferença, e, ao
mesmo tempo, não deve participar dela; ao passo que, se for apresentado dessa
maneira, nenhum dos requisitos mencionados será satisfeito, pois o gênero
terá ao mesmo tempo um campo de predicação mais estreito do que a sua
diferença e participará dela.

Por outro lado, se nenhuma diferença pertencente ao gênero se predicar da
espécie dada, tampouco se predicará dela o gênero: por exemplo, se de "alma"
não se predica "par" nem "ímpar", tampouco se predica "número". Veja-se,
igualmente, se a espécie é naturalmente anterior ao gênero e o anula ao ser
anulada, pois o ponto de vista geralmente admitido é o contrário. Além disso,
se é possível que o gênero proposto ou a sua diferença estejam ausentes da
espécie alegada, por exemplo, que "movimento" esteja ausente da "alma", ou
"verdade e falsidade" de "opinião", então nenhum dos gêneros propostos pode
ser o seu gênero ou a sua diferença; pois a opinião geral é que o gênero e a
diferença acompanham a espécie enquanto esta existe.

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Examine-se também se o que está colocado no gênero participa ou poderia
participar também do gênero contrário. Veja-se, igualmente, se a espécie
participa de algum caráter que nenhum integrante do gênero possa
absolutamente possuir. Assim, por exemplo, se a alma participa da vida, e não
é possível que nenhum número viva, a alma não poderá ser uma espécie de
número. Deve-se também examinar se a espécie é um homônimo do gênero, e
empregar como princípios elementares aqueles que já foram estabelecidos
para a homonímia: pois o gênero e a espécie são sinônimos.

Uma vez que de todo gênero há mais de uma espécie, verifique-se se é
impossível haver alguma outra espécie, além da apontada, que corresponda ao
gênero proposto; porque, se não houver nenhuma, evidentemente o que se
propôs como gênero não pode sê-lo em absoluto.

Veja-se, também, se o adversário apresentou como gênero uma expressão
metafórica, descrevendo, por exemplo, a temperança como uma "harmonia";
pois um gênero sempre se predica de suas espécies no sentido literal, ao passo
que "harmonia" se predica da temperança num sentido não literal, mas
metafórico, pois literalmente uma harmonia consiste sempre em notas
musicais.

Além disso, se houver algum contrário da espécie, convém examiná-lo.
Esse exame pode assumir diferentes formas: antes de tudo, veja-se se o
contrário também se encontra no mesmo gênero que a espécie, supondo-se que
o gênero não tenha um contrário; pois os contrários devem encontrar-se no
mesmo gênero se este não tem um contrário. Supondo-se, por outro lado, que
haja um contrário do gênero, deve-se verificar se o contrário da espécie se
encontra no gênero contrário: pois necessariamente a espécie contrária deve
encontrar-se ali, se o gênero tem um contrário. Cada um destes pontos se
evidencia por meio da indução.

Examine-se também se o contrário da espécie não se encontra
absolutamente em nenhum gênero, mas é ele próprio um gênero, como, por
exemplo, o "bem": porque, se ele não se encontra em nenhum gênero,
tampouco o seu contrário se encontra em nenhum gênero, mas ele próprio é
um gênero, como sucede no caso de "bem" e "mal", nenhum dos quais se
encontra num gênero, sendo cada um deles um