topicos
204 pág.

topicos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.157 materiais34.265 seguidores
Pré-visualização50 páginas
gênero por si mesmo.

Examine-se, além disso, se tanto o gênero como a espécie são contrários a
alguma coisa, e um dos pares de contrários tem um termo intermédio, ao passo

que o outro não o tem. Porque, se os gêneros têm um intermediário, também
devem tê-lo as suas espécies; e, se o têm as espécies, também seus gêneros o
terão, como sucede com (1) "virtude" e "vício", e (2) "justiça e "injustiça":
pois cada um desses pares tem um intermediário. A isto se pode objetar que
não há intermediário entre "saúde" e "doença", mas entre "bem" e "mal", sim.
Ou veja-se, embora haja realmente um intermediário entre ambos os pares,
isto é, tanto entre as espécies como entre os gêneros, se eles não se relacionam
da mesma maneira, mas num caso o intermediário é uma simples negação dos
extremos, enquanto no outro caso é um sujeito. Pois a opinião geral é que a
relação deve ser semelhante em ambos os casos, como é nos casos da
"virtude" e do "vício", por um lado e da "justiça" e da "injustiça" pelo outro:
com efeito, os intermediários entre ambos os pares são simples negações.

Além disso, sempre que o gênero não tenha contrário, convém examinar
não apenas se o contrário da espécie se encontra no mesmo gênero, mas
também o intermediário: porque o gênero que contém os extremos contém
igualmente os intermediários, como, por exemplo, no caso do "preto" e
do"branco": pois "cor" é o gênero não só destes dois como também de todas as
cores intermediárias. Poder-se-ia objetar aqui que "deficiência" e "excesso" se
encontram no mesmo gênero (pois ambos pertencem ao gênero "mal"), ao
passo que "quantidade moderada", o intermediário entre eles, não é um mal,
mas um bem.

Examine-se também se, embora o gênero tenha um contrário, a espécie
não o tem; porque, se o gênero é o contrário de alguma coisa, também a
espécie o será, como a virtude é o contrário do vicio e a justiça, da injustiça.
Isto também se nos tornaria evidente se examinássemos outros casos concretos
semelhantes a este. É possível levantar uma objeção no caso da saúde e da
doença, pois a saúde em geral é o contrário da doença, ao passo que uma
enfermidade particular, embora seja uma espécie de doença, como, por
exemplo, a febre, a oftalmia e qualquer outra espécie particular de doença, não
tem contrários.

Se, pois estamos refutando um ponto de vista, podemos proceder ao nosso
exame de todas essas maneiras que acabamos de explicar: porque, se lhe
faltam as características mencionadas, evidentemente o que foi proposto como
gênero não é tal. Se, por outro lado, se trata de estabelecer um ponto de vista,
há três caminhos: primeiro, verificar se o contrário da espécie se encontra no
gênero proposto, supondo-se que este não tenha contrário: porque, se nele se
encontra o contrário, evidentemente o mesmo sucede com a espécie em
questão. Segundo, ver se a espécie intermediária se encontra no gênero

estabelecido, pois todo gênero que contenha o intermediário conterá
igualmente os extremos. E terceiro, se o gênero tem um contrário, procure-se
ver se a espécie contrária também se encontra neste último: porque, se assim
for, é evidente que também a espécie em questão se encontra no gênero em
questão.

Considere-se também, no caso dos derivados e coordenados da espécie e
do gênero, se eles se seguem de igual maneira, tanto ao refutar um ponto de
vista como ao estabelecê-lo: pois todo atributo que pertença ou não pertença a
um deles pertence ou não pertence ao mesmo tempo a todos. Por exemplo, se
a justiça é uma forma particular de conhecimento, então "justamente" é
também "cientemente" e um homem justo é também um homem conhecedor:
ao passo que, se uma dessas coisas nao for assim, tampouco o será nenhuma
das outras.

4

Considere-se também o caso das coisas que guardam entre si uma relação
semelhante. Assim, por exemplo, a relação do agradável para com o prazer é
semelhante à relação do útil para com o bem, pois em ambos os casos um gera
o outro. Se, portanto, o prazer é uma espécie de "bem", o agradável também
será uma espécie de "útil": pois evidentemente podemos tomá-lo como algo
que produz o bem, dado que o prazer é um bem. Considere-se, do mesmo
modo, o caso dos processos de geração e corrupção; se, por exemplo, edificar
é ser ativo, então ter edificado é ter sido ativo; e, se aprender é recordar, então
ter aprendido é ter recordado; e, se decompor-se é ser corrompido, então ter-se
decomposto é ter sido corrompido, e a decomposição é uma espécie de
corrupção. Considere-se, ainda, o caso das coisas que geram ou corrompem e
das capacidades e usos das coisas; e de um modo geral, tanto ao demolir como
ao assentar um argumento devem-se examinar as coisas à luz de toda espécie
de semelhança, como dizíamos no tocante à geração e à corrupção. Pois, se o
que tende a corromper tende a decompor, então ser corrompido é também ser
decomposto; e se o que tende a gerar tende a produzir, então ser gerado é ser
produzido, e geração é produção. E de maneira análoga no caso das
capacidades e usos das coisas: porque, se uma capacidade é uma disposição,
também ser capaz de alguma coisa é estar disposto para essa mesma coisa, e
se o uso de alguma coisa é uma atividade, utilizá-la é ser ativo e tê-la utilizado
é ter sido ativo.

Se o oposto da espécie é uma privação, há dois meios de refutar um
argumento. Primeiro, examinando-se o oposto se encontra no gênero
apresentado: porque, ou a privação não será em absoluto encontrada no
mesmo gênero, ou pelo menos no gênero último por exemplo, se o gênero
último que contém a visão é a sensaçao, a cegueira não será uma sensação.
Segundo, se há uma privação oposta tanto ao gênero como à espécie, mas o
oposto da espécie não se encontra no oposto do gênero, segue-se que
tampouco a espécie proposta pode encontrar-se no gênero proposto. Se, pois,
estamos refutando uma opinião, devemos seguir a regra tal como foi
estabelecida; mas se o que pretendemos é assentar um ponto de vista, não há
senão um modo de fazê-lo; porque, se a espécie oposta se encontra no gênero
oposto todas as espécies em questão devem encontrar-se também no gênero
em questão: por exemplo, se "cegueira" é uma forma de "insensibilidade",
então a vista é uma forma de sensação.

Examinem-se também as negações do gênero e da espécie e inverta-se a
ordem dos termos da maneira descrita no caso do acidente: por exemplo, se o

agradável é uma espécie de bem, o que não é bom não é agradável. Porquanto,
a não ser assim, também alguma coisa que não fosse boa seria agradável. Isso,
contudo, não pode ser,porque, se o "bem" é o gênero do "agradável", é
impossível que alguma coisa não-boa seja agradável: com efeito, daquelas
coisas de que não se predica o gênero, tampouco delas se predica nenhuma das
espécies. Ao estabelecer um ponto de vista, deve-se também adotar o mesmo
método de exame: porque, se o que não é bom não é agradável, segue-se que o
que é agradável é bom, de modo que “bom” é o gênero de "agradável".

Se a espécie é um termo relativo, deve-se examinar se também o gênero o
é: porque, sendo-o a espécie, também o será o gênero, como sucede com
"duplo" e "múltiplo", cada um dos quais é um termo relativo. Se, por outro
lado, o gênero é um termo relativo, não é necessário que a espécie também o
seja: pois "conhecimento" é um termo relativo, mas o mesmo não sucede com
a "gramática". Ou talvez nem mesmo a primeira afirmação seja geralmente
considerada verdadeira: porquanto a virtude é uma espécie de coisa "nobre" e
uma espécie de coisa "boa"; e contudo, embora "virtude" seja um termo
relativo, "bom" e "nobre" não são relativos, mas qualidades. Veja-se também
se a espécie deixa de ser usada na mesma relação quando a chamamos pelo
seu nome próprio e quando a designamos pelo nome do seu gênero: por
exemplo, se o termo "dobro" é empregado para designar