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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.483 seguidores
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convicção fosse uma espécie de concepção: com
efeito, é impossível que uma coisa continue sendo a mesma se a retirarmos
inteiramente fora da sua espécie, assim como o mesmo animal não poderia em
dado momento ser, e em outro momento não ser, um homem. Se, por outro
lado, alguém disser que o homem que tem uma concepção deve
necessariamente estar também convencido dela, os dois termos, "concepção" e
"convicção", terão sido usados com a mesma extensão predicativa, de modo
que nem assim poderá o primeiro ser o gênero do segundo, pois a extensão do
gênero deve ser mais ampla.

Veja-se, também, se ambos se produzem naturalmente em qualquer parte
da mesma coisa: pois o que contém a espécie também contém o gênero; por
exemplo, o que contém "branco" também contém "cor", e o que contém
“conhecimento da gramática" também contém “conhecimento". Se, portanto,
alguém disser que "vergonha" é “medo” ou que “cólera” é "dor", o resultado
será que o gênero e a espécie não se encontram na mesma coisa, pois a
vergonha se encontra na faculdade “raciocinante", ao passo que o medo está
na faculdade "emotiva"; e, por outro lado, a "dor" se encontra na faculdade
dos "apetites" (pois é também nesta que se encontra o prazer), enquanto a
"cólera" se encontra na faculdade "emotiva". Portanto, os termos propostos
não são os gêneros, uma vez que eles não se produzem naturalmente na
mesma faculdade que as espécies. E da mesma forma, se a "amizade” se
encontrar na faculdade dos apetites, pode-se concluir que ela não é uma forma
de "querer", pois o querer se encontra sempre na faculdade "raciocinante".
Este tópico também é útil ao tratar do acidente, pois o acidente e aquilo de que
é um acidente se encontram ambos na mesma coisa, de modo que, se não
aparecem na mesma coisa, é obvio que não se trata de um acidente.

Veja-se também se a espécie participa somente sob um aspecto particular
do gênero que lhe é atribuido; pois a opinião geral é que a participação da
espécie no gênero não pode limitar-se a isso: com efeito, um homem não é um
animal apenas sob um aspecto particular, nem tampouco é a gramática um
conhecimento sob tal aspecto. E de maneira análoga também nos outros casos.
Examine-se, portanto, se no caso de alguma de suas espécies a participação no
gênero se dá somente sob um certo aspecto: por exemplo, se "animal" foi
descrito como um "objeto de percepção" ou de "visão". Porque um animal é
um objeto de percepção ou de visão apenas sob um aspecto particular: é por
causa de seu corpo que ele é percebido e visto, e não por causa de sua alma, de
modo que "objeto de visão" e "objeto de percepção” não podem ser o gênero
de "animal".

Às vezes também uma pessoa coloca o todo dentro de sua parte sem dar
conta disso, definindo, por exemplo, "animal" como "corpo animado": ora, a
parte não se predica em sentido algum do todo, de modo que "corpo" não pode
ser o gênero de "animal", dado que é uma parte dele.

Veja-se, igualmente, se ele colocou alguma coisa que seja condenável ou
reprovável na classe de "capacidade" ou “capaz", definindo, por exemplo, um
“sofista", um "difamador" ou um "ladrão" como "aquele que é capaz de
apoderar-se secretamente da propriedade alheia". Porque nenhum dos
caracteres mencionados se chama assim por ser “capaz" sob um desses

aspectos: com efeito, o próprio Deus e o homem bom são capazes de fazer
coisas más, porém esse não é o seu caráter, e é sempre por causa de sua livre
escolha que os homens maus são assim chamados. Acresce que uma
capacidade é sempre desejável em si mesma, e até as capacidades de fazer
coisas más são desejáveis, e por isso dissemos que até Deus e o homem bom
as possuem; pois eles são capazes (dizemos nós) de fazer mal. Portanto,
"capacidade" nunca pode ser o gênero de qualquer coisa digna de censura. Do
contrário, resultaria daí que o reprovável é às vezes desejável, pois haveria
uma certa forma de capacidade que seria reprovável.

Examine-se também se ele colocou alguma coisa que seja preciosa ou
desejável por si mesma na classe de "capacidade" ou "capaz" ou "produtivo"
de alguma coisa. Porque a capacidade e o ser capaz ou produtivo de algo é
sempre desejável por causa de alguma outra coisa.

Ou, então, veja-se se o adversário colocou alguma coisa que existe em dois
ou mais gêneros dentro de um deles somente. Porque há coisas que é
impossível colocar num único gênero, por exemplo, o "trapaceiro" e o
"difamador": com efeito, nem aquele que tem a vontade sem a capacidade,
nem o que tem a capacidade sem a vontade é um difamador ou um trapaceiro,
mas só o que possui ambas as coisas. Por conseguinte, ele não deve ser
colocado num só gênero, mas em ambos os gêneros mencionados.

Além disso, as pessoas invertem por vezes a ordem natural apresentando o
gênero como diferença ou a diferença como gênero e definindo, por exemplo,
o pasmo como "excesso de admiração" e a convicção como "veemência de
concepção". Porquanto nem "excesso" nem "veemência" é o-gênero, mas sim
a diferença: com efeito, o pasmo é em geral interpretado como sendo uma
"admiração excessiva" e a convicção como uma "concepção veemente", de
modo que "admiração" e "concepção" são os gêneros, enquanto "excesso" e
"veemência" são as diferenças. Acresce que, se “excesso” e “veemência”
forem aceitos como gêneros, também as coisas inanimadas estarão
convencidas e pasmadas. Porque a veemência e o excesso se encontram numa
coisa que é tal de forma veemente e em excesso. Se, portanto, o pasmo é um
excesso de admiração, o pasmo se encontrará na admiração, de modo que a
admiração estará pasmada! E analogamente, a convicção se encontrará na
concepção, se é que ela é "veemência de concepção", de modo que a
concepção estará convencida. Além disso, o homem que dá uma resposta
desse feitio estará, em suma, chamando a veemência de veemente e o excesso
de excessivo; pois existem, de fato, convicções veementes: se, pois, a
convicção é veemência, haveria uma "veemência veemente". E também há

pasmos excessivos, de modo que, se o pasmo é um excesso, haveria um
"excesso excessivo". Mas nenhuma dessas coisas se admite geralmente, como
tampouco se admite que o conhecimento seja alguém que conhece ou que o
movimento seja alguma coisa que se move.

Às vezes também se comete o erro grave de colocar uma afecção dentro
daquilo que é afetado por ela, como se fosse o seu gênero, como, por exemplo,
os que dizem que a imortalidade é a vida eterna: pois a imortalidade parece ser
uma certa afecção ou aspecto acidental da vida. Que isto é verdade se tornaria
evidente se alguém admitisse que um homem pode deixar de ser mortal e
tornar-se imortal; pois ninguém afirmaria que ele assume outra vida, mas que
um determinado aspecto ou afecção acidental entram a formar parte da sua
vida tal como ela é. Assim, pois, "vida" não é o gênero de ''imortalidade''.

Veja-se, também, se ele atribuiu a uma afecção, como gênero, o objeto por
ela afetado, definindo, por exemplo, o vento como "ar em movimento". Em
termos mais exatos, o vento é um "movimento do ar", pois o mesmo ar
persiste quando está em movimento e quando está em repouso. Logo, o vento
não é “ar” em absoluto, pois, se assim fosse, também haveria vento quando o
ar está em repouso, já que persiste o mesmo ar que formava o vento. E do
mesmo modo em outros casos dessa espécie. Mesmo, pois, se devêssemos
admitir neste caso que o vento é “ar em movimento", não deveríamos aceitar
uma definição desta espécie em se tratando de coisas das quais o gênero não é
verdadeiro, mas apenas nos casos em que o gênero proposto fosse um legítimo
predicado. Porque em alguns casos, como "lama" ou "neve", não se admite
geralmente que seja verdadeiro. Dizem, com efeito, que a neve é "água
congelada" e a lama é "terra misturada com umidade", conquanto a neve não
seja água nem a lama seja terra, de