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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.434 seguidores
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provar que "conhecimento" é uma
forma de "convicção", é preciso ver se o que conhece, no próprio ato de
conhecer, fica convencido; pois nesse caso é evidente que o conhecimento

seria uma espécie particular de convicção. Deve-se proceder do mesmo modo
com respeito aos demais casos desta classe.

Finalmente, visto ser difícil distinguir aquilo que sempre acompanha uma
coisa e não é conversível com ela do seu gênero, se A segue universalmente B
enquanto B não segue A universalmente - como, por exemplo, "repouso"
acompanha sempre uma "calma" e "divisibilidade" segue o "número", porém
não inversamente (pois o divisível nem sempre é um número, nem o repouso é
sempre uma calma) -, ao tratar dessas coisas podemos admitir nós mesmos
que aquela que sempre acompanha a outra é o gênero, sempre que a outra não
seja conversível com ela; se, por outro lado, é o outro que avança esta
proposição, não devemos aceitá-la universalmente. A isto pode-se objetar que
o "não-ser" acompanha sempre o que se está gerando (pois o que se está
gerando não é ainda), e não é conversível com ele (pois o que não é nem
sempre se está gerando); e, no entanto, "não-ser" não é o gênero de “gerar-se":
pois o "não-ser" não tem absolutamente espécie alguma.

As questões referentes ao gênero devem, pois, ser investigadas das
maneiras que acabamos de descrever.

Livro V

1

A questão sobre se o atributo que se afirmou é ou não é uma propriedade
deve ser examinada de acordo com os métodos seguintes.

Toda "propriedade" expressa sempre é ou essencial e permanente, ou
relativa e temporária; por exemplo, é uma "propriedade essencial" do homem
o ser "por natureza um animal civilizado"; e uma "propriedade relativa" é
como a da alma para com o corpo, a saber: que uma seja apta para comandar e
o outro para obedecer; uma "propriedade permanente" e como a propriedade
inerente a Deus, de ser "um ser vivente imortal"', e uma "propriedade
temporária" é como aquela que pertence a qualquer homem particular, de
"caminhar no ginásio".

(A formulação "relativa" de uma propriedade dá lugar a dois ou quatro
problemas. Porque, se nosso contendor ao mesmo tempo afirma essa
propriedade de uma coisa e a nega de outra, surgem apenas dois problemas:
como, por exemplo, se ele afirmasse que é propriedade do homem, em relação
ao cavalo, a de ser bípede: porque se poderia tentar demonstrar tanto que o
homem não é um bípede como que o cavalo é um bípede: de ambas essas
maneiras a propriedade seria refutada. Se, pelo contrário, ele afirma,
respectivamente, um de dois atributos de cada uma de duas coisas, e o nega,
em cada caso, da outra, haverá quatro problemas: como, por exemplo, se ele
afirmasse que é uma propriedade do homem em relação ao cavalo a de ser
bípede: porque se poderia tentar demonstrar tanto que o não é um bípede
como que o cavalo é um bípede: de ambas essas maneiras a propriedade seria
refutada. Se, pelo contrário, ele afirma, respectivamente, um de dois atributos
de cada uma de duas coisas, e o nega, em cada caso, da outra, haverá quatro
problemas: como, por exemplo, se ele afirmasse que é uma propriedade do
homem em relação ao cavalo a de ser o primeiro um bípede e o segundo um
quadrúpede. Pois nesse caso é possível tentar demonstrar tanto que o homem
não é naturalmente um bípede e que ele é um quadrúpede, como também que
o cavalo é um bípede e que ele não é quadrúpede. Se conseguirmos
demonstrar qualquer destas coisas, o atributo proposto estará refutado.)

Uma propriedade "essencial” é a que se afirma de uma coisa em
comparação com tudo mais e que distingue referida coisa de todas as outras,
como "um ser vivente mortal, capaz de receber conhecimento", no caso do
homem. Uma propriedade "relativa" é aquela que distingue o seu sujeito não
de todas as demais coisas, mas apenas de uma coisa particular definida, como
a propriedade que a virtude possui em comparação com o conhecimento, a

saber: a de se produzir naturalmente a primeira em mais de uma faculdade,
enquanto o segundo só se produz na faculdade da razão e naqueles que
possuem uma faculdade raciocinante. Uma propriedade "permanente" é aquela
que é verdadeira em todas as ocasiões e nunca falta, como "ser composta de
alma e corpo" no caso de uma criatura vivente. Um a propriedade
"temporária" é aquela que só é verdadeira numa ocasião particular e não
acompanha sempre necessariamente o sujeito, como ao dizer-se de um homem
particular que ele está passeando na praça do mercado.

Enunciar uma propriedade "relativamente" a outra coisa significa
expressar a diferença que existe entre elas, tal como se dá universalmente e
sempre, ou geralmente e na maioria dos casos: assim, uma diferença que se dá
universalmente sempre é, por exemplo, aquela que o homem possui em
comparação com o cavalo, a saber: a de ser um bípede, pois o homem é
sempre e em todos os casos um bípede, ao passo que o cavalo jamais e em
caso algum é um bípede. Por outro lado, uma diferença que se dá geralmente e
na maioria dos casos é, por exemplo, aquela que a faculdade da razão possui
em comparação com a do desejo e da emoção, e que consiste em comandar a
primeira, enquanto a segunda obedece: porque a faculdade racional nem
sempre comanda, mas às vezes também é comandada, nem a do desejo e da
emoção é sempre comandada, mas às vezes também assume o comando,
sempre que a alma de um homem é viciosa.

Das "propriedades", as mais "discutíveis" são a essencial e permanente e a
relativa. Com efeito, uma propriedade relativa dá origem, como dissemos
atrás, a várias questões: pois necessariamente as questões suscitadas por elas
são duas ou quatro, e os argumentos em relação a estas são vários. Uma
propriedade essencial ou permanente pode-se discutir em relação a muitas
coisas, ou se pode observar com referência a muitos períodos de tempo: se
"essencial", deve-se discuti-la em comparação com muitas coisas, pois a
propriedade necessariamente pertencerá ao seu sujeito em comparação com
cada coisa individual existente; de modo que, se o sujeito não é diferenciado
por ela com respeito a qualquer outra coisa, a propriedade não foi proposta de
maneira correta. E uma propriedade permanente deve ser observada em
relação a muitos períodos de tempo; porque, se ela não pertence, não
pertenceu ou não pertencerá ao seu sujeito, não será uma propriedade. Por
outro lado, sobre uma propriedade temporária não indagamos senão com
referência ao tempo chamado "presente”, e por isso os argumentos relativos a
ela não são muitos; ao passo que uma questão "discutível" é aquela no tocante
à qual se podem suscitar argumentos não só numerosos como válidos.

A chamada propriedade "relativa” pois, deve ser examinada por meio dos
tópicos referentes ao acidente, a fim de ver se ela pertence a uma coisa e não a
outra; as propriedades permanentes e essenciais, por seu lado, devem ser
investigadas de acordo com os métodos seguintes.

2

Primeiro, veja-se se a propriedade foi ou não formulada corretamente. Da
formulação correta ou incorreta, um dos testes consiste em ver se os termos
em que é expressa a propriedade são ou não são mais inteligíveis - para fins de
refutação, se não são tais, e para fins construtivos, se o são.

Um teste de que os termos não são mais inteligíveis consiste em ver se a
propriedade que o adversário propôs é totalmente mais ininteligível do que o
sujeito de que se afirmou a propriedade, pois em tal caso esta não terá sido
formulada corretamente. Porque o fim com que se estabelece uma propriedade
é torna-la inteligível: portanto, os termos em que é expressa devem ser mais
inteligíveis, de modo que se possa concebê-la de maneira mais adequada; por
exemplo, quem diz que é uma propriedade do fogo o "ter uma semelhança
muito estreita com a alma" usa o termo "alma", que é menos inteligível