topicos
204 pág.

topicos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.490 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do que
"fogo" (pois sabemos melhor o que é o fogo do que o que é a alma), e por isso
"uma semelhança muito estreita com a alma" não seria a formulação correta
de uma propriedade do fogo. Outro teste é ver se a atribuição de A
(propriedade) a B (sujeito) é menos inteligível, pois não apenas a propriedade
deve ser mais inteligível do que o seu sujeito, mas também deve ser algo cuja
atribuição a esse sujeito particular seja mais inteligível. Com efeito, quem não
sabe em absoluto se esse é um atributo do sujeito particular, não saberá
tampouco se pertence exclusivamente a ele, de modo que, num caso como no
outro, o seu caráter como propriedade é obscuro. Assim, por exemplo, quem
afirma que é uma propriedade do fogo o ser "o elemento primário em que se
encontra naturalmente a alma" introduz uma questão que é menos inteligível
do que "fogo", a saber: se a alma se encontra nele, e se aí se encontra
primariamente; e, por conseguinte, ser "o elemento primário em que se
encontra naturalmente a alma" não pode ser a expressão correta de uma
propriedade do fogo.

Para fins construtivos, ao contrário, veja-se se os termos com que se
expressa a propriedade são mais inteligíveis, e se o são de cada um dos modos
mencionados acima. Porque então a propriedade terá sido corretamente
expressa a esse respeito: pois dos argumentos construtivos corretamente
formulados, alguns se mostrarão corretos apenas a esse respeito, enquanto
outros o serão de maneira absoluta e sem qualificação. Assim, por exemplo, o
homem que disse que a "posse da sensação" é uma propriedade de "animal"
não só usou termos mais inteligíveis como também tornou a propriedade mais
inteligível em cada um dos sentidos apontados acima; de modo que "possuir

sensação" seria, a esse respeito, a expressão correta de uma propriedade de
"animal".

A seguir, para fins de refutação, veja-se se algum dos termos empregados
na formulação da propriedade se usa em mais de um sentido, ou se a
expressão inteira significa mais de uma coisa. Porque, se assim for, a
propriedade não terá sido formulada corretamente. Assim, por exemplo, visto
que a expressão "ser senciente" tem mais de um significado, a saber: (1)
possuir sensação, e (2) fazer uso da sensação, "ser naturalmente senciente" não
poderia ser a formulação correta de uma propriedade de "animal". A razão
pela qual o termo usado, ou a expressão inteira que significa a propriedade,
não deve comportar mais de um sentido é que uma expressão ambígua torna
obscuro o objeto descrito, e o homem que procura argumentar fica em dúvida
sobre qual dos vários sentidos possíveis corresponde à expressão, e isso não se
pode admitir, já que o fim da formulação da propriedade é que possa entender-
se. Além disso, os que formulam uma propriedade dessa maneira serão
inevitavelmente refutados sempre que alguém dirigir o seu silogismo àquele
dos vários significados do termo que não for consentâneo.

Para fins construtivos, por outro lado, veja-se se todos os termos e também
a expressão tomada como um todo não comportam mais de um sentido; pois,
se assim for, a propriedade terá sido corretamente formulada a esse respeito.
Por exemplo: visto que "corpo" não tem vários significados, nem "o mais
rápido em mover-se para cima no espaço", nem tampouco a expressão inteira
obtida pela união destas duas coisas, seria correto, a este respeito, dizer que é
uma propriedade do fogo o ser o "corpo mais rápido em mover-se para cima
no espaço".

A seguir, com propósitos destrutivos veja-se se o sujeito a que o
adversário atribui a propriedade se usa em mais de um sentido e não se fez
nenhuma distinção com respeito a qual desses sentidos se atribui a
propriedade: pois nesse caso a propriedade não terá sido corretamente
formulada. As razões disto são perfeitamente claras pelo que ficou dito acima,
já que forçosamente se chegará às mesmas consequências. Assim, por
exemplo, visto que "o conhecimento disto" significa muitas coisas - a saber,
(1) a posse de conhecimento pela coisa em apreço, (2) o uso de seu
conhecimento por ela, (3) a existência de conhecimento a seu respeito, (4) o
uso do conhecimento a seu respeito -, nenhuma propriedade do "conhecimento
disto" seria formulada corretamente a não ser que o adversário declarasse a
respeito de qual destes significados está formulando a propriedade. Para fins
construtivos, devemos ver se o termo de que estamos formulando a

propriedade não comporta vários sentidos e é uno e simples: pois então a
propriedade terá sido corretamente formulada a esse respeito. Assim, por
exemplo, visto que “homem” é usado num sentido só, ''animal naturalmente
civilizado'' seria corretamente formulado como uma propriedade de homem.

A seguir, a fim de rebater ou destruir uma asserção, veja-se se o mesmo
termo foi repetido na propriedade. Pois os argumentadores muitas vezes fazem
isso sem o perceber, tanto ao formular "propriedades" como ao estabelecer
"definições"; mas uma propriedade em que aconteceu tal coisa não foi
formulada corretamente, pois a repetição confunde o ouvinte, e assim
inevitavelmente o significado se torna obscuro, além de se pensar que tais
pessoas não sabem o que dizem. A repetição do mesmo termo sói acontecer de
duas maneiras: uma delas é quando alguém usa repetidamente a mesma
palavra, como sucederia se ele propusesse, como propriedade do fogo, "o
corpo que é o mais rarefeito de todos os corpos" (pois aqui repetiu a palavra
"corpo"); a segunda é quando se substituem palavras pelas suas definições,
como aconteceria se alguém apresentasse como uma propriedade da terra "a
substância que, por sua natureza, é de todos os corpos aquele que mais
facilmente é levado para baixo no espaço", e depois substituísse a palavra
"corpos" por "substâncias de tal e tal espécie": porquanto "corpo" e "uma
substância de tal e tal espécie" significam uma só e a mesma coisa. Assim, o
nosso homem teria repetido a palavra "substância" e, por conseguinte,
nenhuma das propriedades seria corretamente formulada. Para fins
construtivos, ao contrário, é preciso evitar sempre a repetição do mesmo
termo, pois então a propriedade terá sido corretamente formulada a esse
respeito. Assim, por exemplo, como quem propôs "animal capaz de receber
conhecimento" como uma propriedade do homem evitou repetir várias vezes o
mesmo termo, a esse respeito a propriedade terá sido corretamente formulada.

Depois disso, para fins de refutação, veja-se se o adversário incluiu na
enunciação da propriedade algum termo que seja um atributo essencial.
Porque um termo que não distingue o seu sujeito de outras coisas é inútil, e
distinguir é ofício próprio da linguagem das "propriedades", como também o é
da linguagem das "definições". No caso em apreço, portanto, a propriedade
não terá sido corretamente formulada. Por exemplo, quem diz que é uma
propriedade do conhecimento o ser uma “concepção incontrovertível por via
de argumentação, devido à sua unidade”, usa na enunciação da propriedade
um termo dessa espécie, a saber: "unidade", que é um atributo universal; e por
isso mesmo a propriedade do conhecimento não pode ter sido corretamente
formulada. Para fins construtivos, pelo contrário, trate-se de evitar qualquer
termo que seja comum a tudo e de usar um termo que distinga o sujeito de

alguma coisa: pois nesse caso a propriedade terá sido, a esse respeito,
corretamente formulada. Assim, por exemplo, como quem diz que é uma
propriedade da "criatura vivente" o "possuir uma alma" não usa nenhum termo
que seja comum a todas as coisas, é, a esse respeito, correto formular a “posse
de uma alma” como sendo uma propriedade da "criatura vivente".

A seguir, a fim de refutar ou demolir uma opinião, veja-se se ele propõe
mais de uma propriedade da mesma coisa sem advertência prévia de que o
está fazendo; pois nesse caso a propriedade