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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.420 seguidores
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não terá sido corretamente
formulada. Com efeito, assim como no caso da definição não se deve fazer
nenhum acréscimo à expressão que indica a essência, também no caso das
propriedades não se deve propor nada mais além da expressão que constitui a
propriedade mencionada. Por exemplo: o homem que afirma ser uma
propriedade do fogo o ser "o corpo mais rarefeito e mais leve" expressa mais
de uma propriedade (pois cada um destes termos é um predicado verdadeiro
tão-somente do fogo); por isso, não pode ser uma propriedade corretamente
formulada do fogo o ser "o mais rarefeito e mais leve dos corpos". A fim de
assentar um ponto de vista, por outro lado, evite-se apresentar mais de uma
propriedade da mesma coisa, limitando-se a uma só: pois assim a propriedade
terá sido corretamente formulada a esse respeito. Por exemplo, o homem que
diz ser uma propriedade do líquido o "ser um corpo adaptável a todas as
formas" apresenta como propriedade do líquido um caráter único e não vários,
de modo que a propriedade de "líquido" é, a esse respeito, corretamente
formulada.

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Veja-se também, com vistas na refutação, se ele empregou o próprio
sujeito cuja propriedade está formulando, ou alguma de suas espécies: pois
nesse caso a propriedade não terá sido corretamente formulada. Porque a
propriedade é formulada a fim de que as pessoas possam entender; ora, o
sujeito em si mesmo continua tão ininteligível quanto era no começo, ao passo
que qualquer de suas espécies lhe é posterior e, portanto, não é mais inteligível
do que ele, Logo, não é possível entender nada mais quando se usam esses
termos. Por exemplo: quem diz que é uma propriedade de "animal" o ser "a
substância a que pertence 'homem' como espécie" emprega uma dessas
espécies, e por conseguinte a propriedade não pode ter sido formulada. Para
fins construtivos, ao contrário, procure-se evitar a introdução quer do próprio
sujeito, quer de uma de suas espécies, pois assim a propriedade terá sido, a
esse respeito, corretamente formulada. Por exemplo, o homem que enunciou
como propriedade de uma criatura vivente o ser "composta de alma e corpo"
evitou introduzir entre os demais termos tanto o próprio sujeito como qualquer
de suas espécies, e, por conseguinte, a propriedade de "criatura vivente" foi
corretamente formulada.

A seguir, com o propósito de refutar, veja-se se ele enunciou como
propriedade alguma coisa que nem sempre acompanha o sujeito, mas às vezes
deixa de ser sua propriedade; pois nesse caso a propriedade não terá sido
corretamente formulada. Com efeito, a consequência disso será não haver
nenhuma necessidade de que o nome do sujeito seja também verdadeiro de
qualquer coisa à qual verificarmos que pertence tal atributo, nem tampouco de
que o nome do sujeito seja falso de qualquer coisa a que ele não pertencer.
Além disso, mesmo depois que o adversário formulou a propriedade não ficará
claro se esta realmente lhe pertence, visto tratar-se de uma espécie de atributo
que pode faltar: e, assim, a propriedade não será evidente. Por exemplo, quem
diz ser propriedade de animal "mover-se às vezes e outras vezes ficar imóvel"
formula o tipo de propriedade que às vezes não é propriedade, de forma que
esta não pode ter sido corretamente formulada. Para fins construtivos, por
outro lado, é preciso propor alguma coisa que deva ser sempre e
necessariamente uma propriedade: pois então esta terá sido corretamente
formulada a esse respeito. Assim, por exemplo, o homem que afirma ser uma
propriedade da virtude o ser "aquilo que torna bom o seu possuidor" apresenta
como propriedade algo que sempre acompanha o seu sujeito, de modo que a
propriedade da virtude foi, a esse respeito, corretamente formulada.

A seguir, para fins de refutação, devemos ver se ao apresentar uma
propriedade do momento atual ou presente ele se esqueceu de avisar
explicitamente que está se referindo a uma propriedade do momento atual;
pois, do contrário, a propriedade não terá sido corretamente formulada.
Porque, em primeiro lugar, todo procedimento que não seja costumeiro requer
sempre uma advertência preliminar explícita; e é procedimento habitual de
toda a gente apresentar como propriedade algum atributo que acompanhe
sempre o seu sujeito. Em segundo lugar, o homem que se esquece de avisar
explicitamente que é a propriedade do momento atual que pretende formular
está sendo obscuro, e nunca se deve dar ocasião a críticas desfavoráveis.
Assim, por exemplo, quem afirma ser propriedade de um determinado homem
o "estar sentado com Fulano” expressa a propriedade do momento atual e,
portanto, não pode ter formulado corretamente a propriedade, visto que a
descreveu sem nenhuma advertência prévia. Para fins construtivos, por outra
parte, tenha-se o cuidado, ao expressar a propriedade do momento atual, de
avisar previamente que se trata de uma propriedade do momento atual: pois só
assim a propriedade terá sido corretamente formulada a esse respeito. O
homem que diz, por exemplo, ser propriedade de um indivíduo particular o
“estar caminhando agora” faz essa distinção no seu asserto, e, por conseguinte,
a propriedade é corretamente formulada.

A seguir, para o fim de rebater um ponto de vista, veja-se se o adversário
expressou uma propriedade de tal índole que sua adequação ao sujeito não seja
evidente a não ser pela sensação, visto que em tal caso a propriedade não foi
corretamente formulada. Pois a verdade é que todo atributo sensível, uma vez
retirado da esfera da sensação, torna-se incerto e não é claro que ele continue a
pertencer ao seu sujeito, pelo fato de ser evidenciado unicamente pela
sensação. Este princípio será verdadeiro no caso de todo atributo que não
acompanhe sempre e necessariamente o seu sujeito. Assim, por exemplo,
quem declara que é uma propriedade do Sol o ser "a mais brilhante estrela que
se move acima da Terra" usa, ao descrever a propriedade, uma expressão
desse tipo, a saber: "mover-se acima da Terra", a qual é evidenciada pela
sensação. Por isso mesmo a propriedade não pode ter sido corretamente
formulada, pois será incerto, depois que o Sol se põe, se ele continua a mover-
se acima da Terra, uma vez que durante esse período nos falta a sensação. Para
fins construtivos, é preciso tomar o cuidado de expressar uma propriedade que
não seja óbvia à sensação, ou, se ela for sensível, que evidentemente pertença
por necessidade ao sujeito, pois então a propriedade terá sido corretamente
formulada a esse respeito. Assim, por exemplo, quem afirma que é
propriedade de uma superfície o ser "a coisa primeira que recebe a cor"

introduz no predicado uma qualidade sensível, "receber a cor", mas, apesar
disso, uma qualidade que manifestamente sempre pertence ao seu sujeito;
portanto, a propriedade de "superfície" foi, a esse respeito, corretamente
formulada.

Igualmente, para fins de refutação, veja-se se ele apresentou a definição
como sendo uma propriedade, pois nesse caso a propriedade não terá sido
corretamente formulada, visto que a propriedade de uma coisa não deve
manifestar a sua essência, Assim, por exemplo, quem afirma ser propriedade
do homem o ser "um animal bípede que caminha" apresenta uma propriedade
que significa a essência do homem, de modo que essa propriedade não pode
ter sido corretamente formulada. Para fins construtivos, ao contrário, deve-se
cuidar de que a propriedade expressa forme um predicado conversível com o
seu sujeito, sem, contudo, significar a sua essência; pois assim a propriedade
terá sido, a esse respeito, corretamente formulada. Por exemplo, quem diz que
é uma propriedade do homem o ser um "animal naturalmente civilizado"
expressa propriedade de modo que seja conversível com o seu sujeito, sem,
contudo, significar a sua essência, de modo que a propriedade de "homem” é,
a esse respeito, corretamente formulada.

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