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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.487 seguidores
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do mesmo modo, chamam-se
genericamente idênticas aquelas coisas que pertencem ao mesmo gênero,
como um cavalo e um homem.

Poderia parecer que o sentido em que a água proveniente da mesma fonte
se chama "a mesma água" difere de certo modo e se afasta dos sentidos que
mencionamos acima; mas, em realidade, um caso como esse deveria ser
incluído na mesma classe com aquelas coisas que, de um modo ou de outro,
são chamadas "idênticas" em virtude de uma unidade de espécie. Todas essas
coisas, com efeito, se assemelham entre si como se fossem membros da
mesma família. E a razão pela qual se diz que toda água é especificamente
idêntica a qualquer outra água é uma certa semelhança que existe entre as
duas, e a única diferença no caso da água proveniente da mesma fonte é que
aqui a semelhança é mais pronunciada: por isso mesmo não a distinguimos das
coisas que, de um modo ou de outro, são chamadas idênticas devido à unidade
de espécie.

Supõe-se geralmente que o termo "o mesmo se emprega sobretudo, num
sentido aceito por todo mundo, quando aplicado ao que é numericamente uno.
Mas, mesmo assim, pode ser empregado em mais de um sentido; vamos
encontrar seu uso mais literal e primeiro sempre que a identidade diz respeito
a um nome ou definição duplos, como quando se diz que um manto é o
mesmo que uma capa, ou que um animal que anda com dois pés é a mesma
coisa que um homem; um segundo sentido é aquele que se refere a uma
propriedade, como quando se diz que aquilo que é capaz de adquirir
conhecimento é o mesmo que um homem, e aquilo que naturalmente se move
para cima é o mesmo que o fogo; e encontramos ainda um terceiro sentido do
termo quando diz respeito a um acidente, como quando se diz que aquele que
está sentado ou que é músico é o mesmo que Sócrates. Todos estes usos, com
efeito, significam identidade numérica.

A verdade do que acabo de dizer pode ver-se mais claramente quando uma
forma de apelação é substituída por outra. Muitas vezes, com efeito, quando
damos ordem de chamar uma das pessoas que estão sentadas, designando-a
pelo seu nome, mudamos de descrição sempre que aquele a quem damos a
ordem não nos entende; parece-nos que ele nos compreenderá melhor se
indicarmos a pessoa por algum aspecto acidental, e assim mandamo-lo chamar
"o homem que está sentado", ou "aquele que está conversando ali" - na
suposição evidente de que estamos designando o mesmo indivíduo pelo seu
nome e pelo seu acidente.

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É preciso, pois, distinguir, como já se disse, três sentidos da palavra
"identidade". Ora, uma das maneiras de confirmar que os elementos
mencionados acima são aqueles a partir dos quais, por meio dos quais e para
os quais procedem os argumentos é por indução: porque, se alguém
examinasse as proposições e os problemas um por um, veria que cada um
deles parte ou da definição de alguma coisa, ou de uma propriedade sua, ou do
seu gênero, ou de um seu acidente. Outra maneira de confirmá-lo é pelo
raciocínio. Com efeito, todo predicado de um sujeito deve necessariamente ser
ou não ser conversível com ele: e, se é conversível, será a sua definição ou
uma propriedade sua, porque, se significa a essência, é a definição; do
contrário, é uma propriedade, pois foi assim que definimos a propriedade, a
saber: o que se predica de maneira conversível, porém não significa a
essência. Se, por outro lado, não se predica da coisa de maneira conversível,
ou é, ou não é um dos termos contidos na definição do sujeito; e se é um
desses termos, será o gênero ou a diferença, porquanto a definição consiste no
gênero e nas diferenças; e se, por outro lado, não é um desses termos,
evidentemente será um acidente, pois já dissemos que o acidente é aquilo que
pertence como atributo a um sujeito sem ser nem a sua definição, nem o seu
gênero, nem uma propriedade.

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A seguir, pois, devemos distinguir entre as classes de predicados em que
se encontram as quatro ordens de predicação em apreço. São elas em número
de dez: Essência, Quantidade, Qualidade, Relação, Lugar, Tempo, Posição,
Estado, Ação, Paixão. Porquanto o acidente, o gênero, a propriedade e a
definição do que quer que seja sempre caberão numa destas categorias: pois
todas as proposições que por meio delas se efetuarem ou significarão a
essência de alguma coisa, ou sua qualidade ou quantidade, ou algum dos
outros tipos de predicado. Parece pois evidente que o homem que expressa a
essência de alguma coisa expressa às vezes uma substância, outras vezes uma
qualidade, outras ainda algum dos outros tipos de predicado. Pois quando se
coloca um homem à sua frente e ele diz que o que ali está colocado é "um
homem" ou "um animal", afirma a sua essência e significa uma substância;
mas quando uma cor branca é posta diante dos seus olhos e ele diz que o que
ali está é "branco" ou "uma cor", afirma a sua essência e significa uma
qualidade. E também do mesmo modo, se se coloca diante dele uma grandeza
de um côvado e ele diz que o que tem diante de si é "uma grandeza de um
côvado", estará descrevendo a sua essência e significando uma quantidade. E
por igual em todos os outros casos: pois cada uma dessas espécies de
predicados, tanto quando é afirmada de si mesma como quando o seu gênero é
afirmado dela, significa uma essência; se, por outro lado, uma espécie de
predicado é afirmada de outra espécie, não significa uma essência, mas uma
quantidade, uma qualidade ou qualquer das outras espécies de predicado. Tais
e tantos são, pois, os sujeitos em tomo dos quais giram os argumentos, e os
materiais de que se formam. Como devemos adquiri-los e por que meios
chegaremos a estar bem providos deles é o que nos caberá dizer agora.

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Em primeiro lugar, pois, devemos definir o que seja uma "proposição
dialética" e um "problema dialético". Pois nem toda proposição, nem
tampouco todo problema podem ser apresentados como dialéticos: com efeito,
ninguém que estivesse no seu juízo perfeito faria uma proposição de algo que
ninguém admite, nem tampouco faria um problema do que é evidente para
todo mundo ou para a maioria das pessoas: pois este último não admite
dúvida, enquanto à primeira ninguém daria assentimento.

Ora, uma proposição dialética consiste em perguntar alguma coisa que é
admitida por todos os homens, pela maioria deles ou pelos filósofos, isto é, ou
por todos. ou pela maioria, ou pelos mais eminentes, contanto que não seja
contrária à opinião geral; pois um homem assentirá provavelmente ao ponto
de vista dos filósofos se este não contrariar as opiniões da maioria das pessoas.
As proposições dialéticas também incluem opiniões que são semelhantes às
geralmente aceitas; e também proposições que contradizem os contrários das
opiniões que se consideram geralmente aceitas, assim como todas as opiniões
que estão em harmonia com as artes acreditadas.

Assim, supondo-se seja opinião geral que o conhecimento dos contrários é
o mesmo, é provável que também pudesse passar por uma opinião geral que a
percepção dos contrários é a mesma; e do mesmo modo, supondo-se seja
opinião geral que há uma só ciência da gramática, poderia passar por uma
opinião geral que há uma só ciência de tocar flauta; e, por outro lado, se for
opinião geral que há mais de uma ciência da gramática, poderia passar por
uma opinião geral que há igualmente mais de uma ciência de tocar flauta;
porque todas essas coisas parecem assemelhar-se e têm entre si um certo ar de
parentesco.

Do mesmo modo, também as opiniões que contradizem os contrários das
opiniões gerais passarão por opiniões gerais; porque, se é opinião geral que se
deve fazer bem aos seus amigos, será também opinião geral que não se deve
fazer nada que os prejudique. Aqui, que se deva causar dano aos seus amigos é
contrário à opinião geral, e que não se deve causar-lhes dano é a contraditória
desse contrário. E