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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.419 seguidores
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seus contrários. Ou, então, deve-se ver se, quando é
simplesmente formulada por si mesma, não mostra com evidência aquilo que
define, assim como, nas obras dos pintores antigos, se não havia uma
inscrição, as figuras eram geralmente irreconhecíveis.

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Se, portanto, a definição não é clara, deve-se examiná-la das maneiras que
indicamos. Se, por outro lado, ela foi expressa com redundância, veja-se em
primeiro lugar se o definidor usou algum atributo que se predique
universalmente, quer dos objetos reais em geral, quer de todos os que se
incluem no mesmo gênero que o objeto definido, pois a menção de um tal
atributo é, sem a menor dúvida, redundante. Com efeito, o gênero deve
distinguir o objeto das coisas em geral e a diferença, de qualquer das outras
coisas contidas no mesmo gênero. Ora, nenhum termo que pertença a tudo que
existe separa o objeto dado absolutamente de coisa alguma, enquanto aquele
que pertence a todas as coisas incluídas no mesmo gênero não o separa de
nenhuma destas. Todo acréscimo deste tipo será, pois, despropositado.

Veja-se também se, embora o que se acrescentou possa ser peculiar ao
termo dado, mesmo quando,se elimina esse acréscimo o resto da expressão
continua a ser peculiar e põe em evidência a essência do termo. Assim, na
definição de homem, a adição de "capaz de receber conhecimento" é,
supérflua; pois, mesmo quando a eliminamos, a expressão é ainda peculiar ao
termo e torna clara a sua essência. Falando em geral, é supérfluo tudo aquilo
cuja remoção não impede que o resto deixe bem claro o termo que se está
definindo. Assim, por exemplo, seria também a definição da alma se se
dissesse que ela é "um número que se move a si mesmo"; pois a alma é
simplesmente "o que se move a mesmo", como a definiu Platão. Ou talvez a
expressão usada, embora apropriada, não declare a essência se se eliminar a
palavra "número". É difícil determinar com clareza qual dos dois seria mais
certo; a maneira correta de tratar todos esses casos é guiar-se pela
conveniência. Assim, por exemplo, diz-se que a definição da fleuma é a
"unidade não digerida que primeiro se desprende do alimento". Aqui, o
acréscimo da expressão "não digerida" é supérfluo, visto que o "primeiro" é
um e não vários, de forma que mesmo quando se omite "não digerida", a
definição continua sendo peculiar ao sujeito, pois seria impossível que tanto
fleuma como também alguma outra coisa fosse a primeira a desprender-se do
alimento. Ou talvez a fleuma não seja de maneira absoluta a primeira coisa a
produzir-se do alimento, mas apenas a primeira das matérias não digeridas, de
modo que o acréscimo de "não digerida" seria necessário; porquanto, expressa
da outra maneira, definição não será verdadeira, a menos que a fleuma seja a
primeira de todas as coisas a produzir-se.

Veja-se, além disso, se alguma coisa contida na definição não se aplica a
tudo que se inclui na mesma espécie, pois esse tipo de definição é pior do que

aqueles que incluem um atributo aplicável a todas as coisas universalmente.
Com efeito, neste último caso, se o resto da expressão é peculiar ao sujeito, o
todo lhe será também peculiar; porque absolutamente sempre que a alguma
coisa peculiar se acrescente algo que seja verdadeiro, o todo será também
peculiar. Ao passo que, se alguma parte da expressão não se aplica a tudo que
se inclui na mesma espécie, é impossível que a expressão como um todo seja
peculiar ao objeto, pois não se predicaria de maneira conversível com este.
Tomemos como exemplo "um animal bípede andante de seis pés de altura":
uma expressão deste tipo não se predica de maneira conversível com o termo,
porquanto o atributo "de seis pés de altura" não pertence a todas as coisas que
se incluem na mesma espécie.

Veja-se, do mesmo modo, se ele disse a mesma coisa mais de uma vez,
afirmando, por exemplo, que o "desejo" é uma "tendência que tem por objeto
o agradável". Porque o desejo tem sempre como objeto "o agradável", de
forma que tudo que for idêntico ao desejo terá também por objeto "o
agradável". E assim, nossa definição do desejo vem a ser uma "tendência - que
- tem - por - objeto - o - agradável que tem por objeto o agradável", pois a
palavra "desejo" é o equivalente exato de "tendência que tem por objeto o
agradável", de modo que ambos têm igualmente "por objeto o agradável". Ou
talvez não haja nenhum absurdo nisso, pois considere-se o exemplo seguinte:
"o homem é um bípede"; por conseguinte, tudo que for idêntico ao homem
será um bípede; mas "um animal bípede que caminha é o mesmo que um
homem, de modo que "um animal bípede que caminha é um bípede". Mas isto
não encerra nenhum absurdo real, já que "bípede" não é um predicado de
"animal que caminha", se o fosse teríamos certamente predicado "bípede"
duas vezes da mesma coisa, mas em verdade o sujeito que afirmamos ser um
bípede é "um animal bípede que caminha", de forma que a palavra "bípede"
só' é usada uma vez como predicado. E do mesmo modo também no caso de
"desejo", pois não é a "tendência" que se diz "ter por objeto o agradável", mas
antes a idéia inteira; e assim, também aqui a predicação só se faz uma vez. O
absurdo ocorre não quando a mesma palavra é enunciada duas vezes, mas
quando a mesma coisa é predicada mais de uma vez do sujeito - se ele disser,
por exemplo como Xenócrates, que a sabedoria define e contempla a
realidade: porque a definição é um certo tino de contemplação, e ao
acrescentar em seguida as palavras "e contempla" ele diz a mesma coisa duas
vezes. E falham da mesma maneira os que dizem que o "resfriamento" é "a
privação do calor natural", pois toda privação é a privação de algum atributo
natural, de forma que o acréscimo da palavra "natural" é supérfluo. Seria

suficiente dizer "privação de calor", pois que a palavra "privação" manifesta
por si mesma que o calor a que se alude é o calor natural.

Veja-se, por outro lado, se, tendo-se mencionado um universal, acrescenta-
se logo um caso particular do mesmo, por exemplo "a eqüidade é um
restabelecimento do que é conveniente e justo"; pois o justo é um ramo do
conveniente e está, por conseguinte, incluído neste último termo; por isso a
sua menção é redundante, um aditamento do particular depois que já se
afirmou o universal. E da mesma forma se ele define a "medicina" como o
"conhecimento do que promove a saúde nos animais e nos homens" ou a "lei"
como "a imagem do que é por natureza nobre e justo"; pois o justo é um ramo
do nobre, de modo que o definidor diz a mesma coisa mais de uma vez.

4

Deve-se, pois, tratar de examinar se um homem define uma coisa correta
ou incorretamente de acordo com as normas dadas e outras semelhantes.
Mas,se ele mencionou e definiu ou não a sua essência, deve investigar-se
como segue:

Em primeiro lugar, veja-se se ele não formulou a definição em termos que
sejam anteriores e mais inteligíveis. Pois o motivo pelo qual se formula a
definição é dar a conhecer o termo proposto, e não tornamos conhecidas as
coisas usando termos quaisquer ao acaso, mas sim termos que sejam anteriores
e mais inteligíveis, como se faz nas demonstraçôes (pois assim acontece em
todo ensino e aprendizagem); é, pois, evidente que quem não define em
termos desta espécie não define em absoluto. De outra forma, haveria mais de
uma definição da mesma coisa: pois é claro que quem define em termos
anteriores e mais inteligíveis também formula uma definição, e uma definição
melhor, de modo que ambas seriam definições do mesmo objeto. Esta maneira
de ver as coisas, porém, não encontra geralmente boa acolhida, visto que de
cada objeto real a essência é uma só; se, pois, houvesse várias definições da
mesma coisa, a essência do objeto seria idêntica à que se expressa em cada
uma das definições, e essas expressões não são idênticas, uma vez que as
definições são diferentes. Fica claro,