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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.419 seguidores
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que sabe contar": pois não se indica o que é que possui três dimensões,
nem o que é aquilo que sabe contar, enquanto a função do gênero é indicar
precisamente isso, sendo ele o primeiro termo que se enuncia na definição.

Veja-se, além disso, se, usando-se o termo a ser definido em relação a
muitas coisas, ele deixou de empregá-lo em relação a todas elas, como, por
exemplo, se definiu a "gramática" como o "conhecimento de como escrever
sob ditado": pois devia dizer que é também o conhecimento de como se deve
ler. Pois, ao apresentá-la como o conhecimento da escrita", ele não a definiu
melhor do que se tivesse dito que era o "conhecimento da leitura": com efeito,
nenhuma das duas definições consegue o seu fim, mas somente aquela que
menciona ambas essas coisas, visto ser impossível haver mais de uma
definição da mesma coisa. No entanto, somente em alguns casos o que
acabamos de dizer corresponde à verdadeira situação: em outros isso não
acontece, como, por exemplo, no caso de todos os termos que não se usam
essencialmente em relação a ambas as coisas, como se diz que a medicina trata
da produção da doença e da saúde: pois ela trata essencialmente da última, e
da primeira apenas por acidente, uma vez que é coisa absolutamente alheia à
medicina produzir a doença. Aqui, pois, o homem que apresenta a medicina
como relativa a ambas essas coisas não a define melhor do que aquele que
menciona apenas uma. Em verdade, define-a talvez pior, pois qualquer
indivíduo, além do médico, é capaz de produzir a doença.

Além disso, num caso em que o termo a ser definido se usa em relação a
várias coisas, deve-se ver se ele o apresentou como relativo à pior e não à
melhor, pois geralmente se pensa que toda forma de conhecimento e
potencialidade é relativa ao melhor.

Além disso, se a coisa em questão não foi colocada no seu próprio gênero,
deve-se examiná-la de acordo com as regras elementares relativas aos gêneros,
como foi dito anteriormente.

Veja-se, finalmente, se ele usa uma linguagem que transgride os gêneros
das coisas que define, apresentando, por exemplo, a justiça como um estado
que produz "igualdade" ou "distribui o que é igual": pois ao defini-la assim ele
ultrapassa a esfera da virtude e, deixando de lado o gênero da justiça, não
expressa a sua essência: porque a essência de uma coisa deve, em todos os
casos, incluir o seu gênero. O mesmo acontece quando o objeto não é
colocado dentro do seu gênero mais próximo: pois o homem que o coloca
dentro do gênero mais próximo afirma também todos os gêneros superiores,
visto que todos estes se predicam do inferior. Assim, pois, ou o objeto deve
ser colocado dentro do seu gênero mais próximo, ou então acrescentarem-se
ao gênero superior todas as diferenças pelas quais se define o mais próximo.
Pois nesse caso não se terá omitido nada: apenas se terá mencionado o gênero
inferior por meio de uma expressão ao invés do seu nome. Por outro lado,
quem menciona apenas o gênero superior em si mesmo não afirma também o
gênero subordinado: ao dizer "planta" não se especifica "uma árvore".

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No que diz respeito às diferenças, devemos examinar do mesmo modo se
as que ele enuncia são as próprias do gênero. Porque, se um homem não
definiu o objeto pelas diferenças que lhe são peculiares, ou se mencionou
alguma coisa que seja completamente incapaz de ser a diferença do que quer
que seja, como, por exemplo, "animal" ou "substância", é evidente que não
definiu absolutamente o objeto, pois os termos que acabamos de indicar não
diferenciam coisa alguma. Além disso, devemos ver se a diferença enunciada
possui algo que seja coordenado com ela numa divisão; porque, a não ser
assim, evidentemente o que se enunciou não pode ser uma diferença do
gênero. Com efeito, um gênero é sempre dividido por diferenças que são
membros coordenados de uma divisão, como, por exemplo, "animal" é
dividido pelos termos "andante", "voador", "aquático" e "bípede". Ou então
veja-se se, embora existindo a diferença contrastante, ela não se predica do
gênero, pois em tal caso nenhuma das duas pode ser uma diferença deste: com
efeito, as diferenças que são coordenadas numa divisão com a diferença de
uma coisa se predicam todas do gênero de que se predica essa coisa. Deve-se
examinar igualmente se, embora sendo ela verdadeira, sua adição ao gênero
não vem formar uma espécie. porque, em tal caso, evidentemente não poderia
ser uma diferença específica do gênero, já que uma diferença específica
sempre forma uma espécie quando acrescentada ao gênero. Se, por outro lado,
ela não for uma verdadeira diferença, tampouco o será a enunciada, visto ser
membro de uma divisão coordenado com esta.

Examine-se, além disso, se ele divide o gênero por meio de uma negação,
como os que definem a linha como "comprimento sem largura": pois isso
significa simplesmente que ela não tem largura nenhuma. Daí resultará que o
gênero participa da sua própria espécie: pois, como de toda e qualquer coisa
ou a afirmação ou a negação é verdadeira, o comprimento deve sempre
carecer de largura ou possuí-la, de modo que "comprimento", isto é, o gênero
de "linha", terá largura ou carecerá dela. Mas "comprimento sem largura" é a
definição de uma espécie, como também o será "comprimento com largura":
porquanto "sem largura" e "com largura" são diferenças, e o gênero
acompanhado da diferença constituem a definição da espécie. Donde se
conclui que o gênero admitirá a definição da sua espécie. E, da mesma forma,
admitirá também a definição da diferença, já que uma ou outra das diferenças
mencionadas se predica necessariamente do gênero. A utilidade deste
princípio se evidencia quando enfrentamos aqueles que afirmam a existência
das "idéias": porque, se existe um comprimento absoluto, como poderá

predicar-se do gênero que possui largura ou que carece dela? Com efeito, para
que seja verdadeira do "comprimento", uma das duas asserções terá de sê-lo
universalmente; ora, isto contraria a realidade dos fatos, pois tanto existem
comprimentos que possuem largura como comprimentos que carecem dela.
Por isso, as únicas pessoas contra as quais se pode empregar a regra são as que
afirmam que o gênero é sempre numericamente uno; e é exatamente isso o que
fazem os que afirmam a existência real das "idéias", pois alegam que o
comprimento absoluto e o animal absoluto são o gênero.

É possível que em alguns casos o definidor seja forçado a empregar
também uma negação: por exemplo, ao definir privações. Porquanto "cego"
designa uma coisa que é incapaz de ver quando, por natureza, deveria ver. Não
há nenhuma diferença em dividir o gênero por meio de uma negação e dividi-
lo por meio de uma afirmação que necessariamente terá uma negação como
termo coordenado numa divisão: por exemplo, supondo-se que ele tenha
definido alguma coisa como "comprimento que possui largura"; pois, numa
divisão o coordenado daquilo que possui largura é o que carece de largura, e
apenas esse, de modo que aqui também o gênero é dividido por meio de uma
negação.

Veja-se, igualmente, se ele definiu a espécie como uma diferença, como
fazem os que definem "contumélia" como "insolência acompanhada de
zombaria"; porque zombar é um tipo de insolência, isto é, uma espécie e não
uma diferença.

Deve-se, além disso, examinar se ele enunciou o gênero como uma
diferença, por exemplo: "a virtude é um estado bom ou nobre", já que o "bom"
ou o "bem" é o gênero de "virtude". Ou talvez "bom" não seja aqui o gênero e
sim a diferença, fundando-nos no princípio de que a mesma coisa não pode
encontrar-se em dois gêneros, nenhum dos quais contém o outro; pois "bem"
não inclui "estado", nem este àquele: com efeito, nem todos os estados são
bons, nem todos os bens são estados. Não seria possível, pois, que ambos
fossem gêneros, e, por conseguinte, se "estado" é o gênero de virtude,