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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.483 seguidores
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evidentemente o "bem" não pode ser o seu gênero: deve ser, antes, a diferença.
Além disso, "um estado" indica a essência da virtude, ao passo que "bom" não
indica a essência, e sim uma qualidade; e indicar uma qualidade se considera
geralmente como sendo a função da diferença. Veja-se, além disso, se a
diferença enunciada indica antes um indivíduo do que uma qualidade; porque
a opinião geral é que a diferença sempre exprime uma qualidade.

Verifique-se, também, se a diferença só acidentalmente pertence ao objeto
definido. Porquanto a diferença nunca é um atributo acidental, como
tampouco o é o gênero, e a diferença de uma coisa não pode pertencer e não
pertencer juntamente ao seu sujeito.

Além disso, se ou a diferença ou a espécie, ou qualquer das coisas que
estão subordinadas a esta, é predicável do gênero, o contendor não pode ter
definido o termo. Com efeito, nenhum dos termos supramencionados pode
predicar-se do gênero, visto ser este o termo que possui a maior extensão de
todos. Veja-se, por outro lado, se o gênero se predica da diferença; porque a
opinião geral é que o gênero não se predica da diferença, mas dos objetos de
que se predica esta. "Animal", por exemplo, predica-se de "homem", ou de
"boi", ou de qualquer outro animal que caminha, e não da própria diferença, o
caminhar, que predicamos das espécies. Porque, se "animal" devesse predicar-
se de cada uma de suas diferenças, "animal" se predicaria das espécies uma
porção de vezes, visto que as diferenças são predicados das espécies. Além
disso, as diferenças seriam todas ou espécies, ou indivíduos, se fosse verdade
que são animais; pois cada animal é uma espécie ou um indivíduo.

Por outro lado, deve-se examinar também se a espécie ou algum dos
objetos que nela se incluem é predicado da diferença: porquanto isso é
impossível, visto ter a diferença uma extensão maior do que as várias espécies.
Além disso, se dela se predica alguma das espécies, o resultado será que a
diferença é uma espécie: se, por exemplo, "homem" se predica dessa maneira,
a diferença é evidentemente a raça humana. Veja-se, por outro lado, se a
diferença não é anterior à espécie, pois ela deve ser posterior ao gênero, mas
anterior à espécie.

Veja-se, também, se a diferença mencionada pertence a um gênero
diferente, que nem contenha o gênero em que a opinião geral é que a mesma
diferença não pode ser usada em relação a dois gêneros não-subalternos. De
outra forma, o resultado seria que a mesma espécie também se encontra em
dois gêneros não-subalternos: pois cada uma das diferenças subentende o seu
próprio gênero: por exemplo, "andante" e "bípede" subentendem ambos o
gênero "animal". Se, pois, cada um dos gêneros é também verdadeiro daquilo
de que se predica com verdade a diferença, daí se segue evidentemente que a
espécie deve encontrar-se em dois gêneros não-subalternos. Ou talvez não seja
impossível que a mesma diferença seja usada de dois gêneros não-subalternos,
e devamos acrescentar as palavras: "exceto quando ambas são membros
subordinados do mesmo gênero". Assim, "animal que caminha" e "animal
voador" não são gêneros subalternos, e "bípede" é a diferença de ambos. As

palavras "a não ser que ambas sejam membros subordinados do mesmo
gênero" devem, pois, ser acrescentadas: pois ambos esses gêneros são
subordinados a animal. Partindo dessa possibilidade de usar a mesma
diferença em relação a dois gêneros não-subalternos, torna- se evidente que
não há necessidade de levar a diferença consigo o gênero inteiro a que
pertence, mas somente um ou outro dos seus membros, juntamente com os
gêneros que são mais elevados do que esse, da mesma forma que "bípede"
leva consigo ou "animal volante", ou "animal que caminha".

Veja-se, também, se ele enunciou a "existência em" alguma coisa como a
diferença essencial do sujeito; pois é opinião geral que a localização não pode
diferenciar entre uma essência e outra. Por isso mesmo, muita gente condena
os que dividem os animais em "andantes" e "aquáticos", fundando-se em que
"andante" e "aquático" não fazem mais do que indicar a localização. Ou quiçá
neste caso a censura seja imerecida, pois "aquático" não significa estar "em"
alguma coisa, nem tampouco denota uma localização, mas uma certa
qualidade: com efeito, mesmo que o animal se encontre em terra firme, ainda
assim será um animal aquático; e, inversamente, um animal terrestre. mesmo
que esteja na água, será ainda um animal terrestre e não aquático. Mas isso
não impede que se cometa um erro grave sempre que a diferença denote
realmente a existência em alguma coisa.

Examine-se, por outro lado, se ele apresentou uma afecção como sendo
uma diferença; pois toda afecção destrói, ao intensificar-se, a essência da
coisa, ao passo que a diferença não faz isso: pelo contrário, pensa-se
geralmente que a diferença antes conserva aquilo que diferencia; e, além
disso, é absolutamente impossível que uma coisa exista sem a sua diferença
específica própria: porque, se não houver o "caminhar", não haverá "homem".
Podemos, com efeito, assentar de maneira absoluta que uma coisa não pode ter
como diferença o que quer que seja que a torne sujeita a alteração: pois tudo
que for dessa espécie, quando intensificado, destruirá a sua essência. Portanto,
o homem que apresenta uma diferença desse tipo comete um erro, pois nós
não sofremos absolutamente alteração alguma com respeito às nossas
diferenças.

Veja-se, igualmente, se ele deixou de apresentar a diferença de um termo
relativo em relação a alguma outra coisa: pois as diferenças dos termos
relativos são relativas elas próprias, como sucede também com o
conhecimento. Este último se classifica como especulativo, prático e
produtivo, e cada uma destas diferenças denota uma relação: pois o

conhecimento especula sobre alguma coisa, produz alguma coisa ou faz
alguma coisa.

Verifique-se, outrossim, se o definidor apresenta cada termo relativo em
relação à sua finalidade natural; pois, se bem que em alguns casos o termo
relativo particular só possa ser usado em relação à sua finalidade natural e a
nada mais, alguns também podem ser usados em relação a outra coisa. Assim,
a vista só pode ser usada para ver, mas o estrígil, a pequena concha que se usa
para limpar a pele no banho, também pode ser usado para apanhar água. No
entanto, se alguém definisse o estrígil como um instrumento para apanhar
água, cometeria um erro: pois essa não é a sua função natural. A definição da
função natural de uma coisa é: "aquilo para que seria empregada pelo homem
prudente, agindo como tal, e pela ciência que trata especialmente dessa coisa".

Ou então deve-se ver, sempre que um termo é usado numa variedade de
relações, se ele deixou de expressá-lo na sua relação primária: por exemplo,
definindo a "sabedoria" como a virtude do "homem" ou da "alma" ao invés da
"faculdade racional", já que a sabedoria é primeiramente a virtude da
faculdade racional, pois é devido a ela que se diz tanto do homem como da
alma que são sábios.

Além disso, se a coisa de que se afirmou ser o termo definido uma
afecção, uma disposição ou o que quer que seja é incapaz de admitir isso, o
definidor cometeu um erro. Porque toda disposição e toda afecção se forma
naturalmente naquilo de que é uma afecção ou disposição, como também o
conhecimento se forma na alma, por ser um disposição desta. Às vezes,
porém, as pessoas cometem erros graves em matéria desta sorte, como todos
aqueles que dizem ser o "sono" uma "falha da sensação", ou a "perplexidade"
um "estado de igualdade entre raciocínios contrários", ou a "dor" uma "ruptura
violenta de partes que estão naturalmente unidas". Porque o sono não um
atributo da sensação, como deveria ser se fosse uma falha desta. Nem
tampouco é a perplexidade um atributo dos raciocínios opostos, ou a dor, das
partes naturalmente unidas: