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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.487 seguidores
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pois nesse caso as coisas inanimadas sofreriam
dor, visto que a dor estaria presente nelas. É também de um tipo semelhante a
este a definição da "saúde", por exemplo, como um "equilíbrio dos elementos
quentes e frios"; pois que, a ser assim, a saúde seria necessariamente
manifestada pelos elementos quentes e frios: com efeito, um equilíbrio do que
quer que seja é um atributo inerente àquelas coisas das quais é equilíbrio, de
modo que a saúde seria um atributo desses elementos. Além disso, as pessoas
que raciocinam dessa maneira tomam o efeito pela causa a causa pelo efeito.
Pois a ruptura das partes naturalmente unidas não é dor, mas apenas uma

causa de dor; nem tampouco a falha da sensação é sono, mas um é a causa do
outro, já que adormecemos porque nos falha a sensação, ou a sensação nos
falha porque adormecemos. E, do mesmo modo, uma igualdade entre
raciocínios contrários seria geralmente considerada uma causa da
perplexidade: pois é quando refletimos sobre ambos os lados de uma questão e
verificamos que todas as coisas estão igualmente em harmonia com as duas
linhas de ação que ficamos perplexos e não sabemos qual delas escolher.

Além disso, tendo em vista todos os períodos de tempo, devemos
examinar se há alguma discrepância entre a diferença e a coisa definida.
Suponha-se, por exemplo, que o "imortal" seja definido como uma "coisa viva
presentemente imune à destruição". Pois uma coisa viva que é
"presentemente" imune à destruição será imortal "presentemente". É possível,
aliás, que neste caso não se justifique tal conclusão devido à ambigüidade das
palavras "presentemente imune à destruição": pois isto tanto pode significar
que a coisa não foi destruída no presente momento como que não pode ser
destruída presentemente ou que presentemente é tal que jamais poderá ser
destruída. Sempre, pois, que dizemos que uma coisa viva é presentemente
imune à destruição, queremos significar que ela é presentemente uma coisa
viva de tal sorte que jamais será destruída; e isso equivale a dizer que ela é
imortal, de forma que não se pretende dizer que é imortal apenas neste
momento. Entretanto, sempre que o que se enunciou de acordo com a
definição se predica do seu sujeito apenas no presente ou no passado,
enquanto o que se pretende significar pela palavra não se predica assim, as
duas coisas não podem ser a mesma. Por conseguinte, devemos ater-nos a esta
norma ou lugar, conforme dissemos.

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Deve-se também examinar se o termo que se está definindo se aplica ao
sujeito em consideração de alguma coisa diferente da definição formulada.
Suponha-se, por exemplo, uma definição da "justiça" como a "capacidade de
distribuir o que é igual". Isto não estaria certo, pois a palavra "justo" se aplica
antes ao homem que escolhe do que ao homem que é capaz de distribuir o que
é igual, de modo que a justiça não poderia ser uma capacidade de distribuir o
que é igual, pois em tal caso o homem mais justo seria aquele que maior
capacidade tivesse de distribuir o que é igual.

Convém verificar, igualmente, se a coisa admite graus, enquanto o que se
expressa de acordo com a definição não os admite, ou se, ao invés, o que se
expressa de acordo com a definição admite graus enquanto a própria coisa não
os admite. Porque ou ambos devem admiti-los, ou nenhum, se o que se
expressa de acordo com a definição é realmente o mesmo que a coisa definida.
Veja-se, além disso, se, embora ambos admitam graus, não crescem ou se
tornam maiores juntamente: suponha-se, por exemplo, que o amor sexual seja
o desejo da união carnal: pois aquele que está mais intensamente enamorado
não sente um desejo mais intenso de ter relações sexuais, de modo que ambas
as coisas não se intensificam simultaneamente, o que por certo aconteceria se
fossem a mesma coisa.

E também, supondo que temos duas coisas diante de nós, devemos ver se o
termo a ser definido se aplica mais particularmente àquela de que é menos
predicável o conteúdo da definição. Tome-se, por exemplo, a definição do
"fogo" como o "corpo que consiste nas partículas mais rarefeitas". Porque
"fogo" denota mais a chama do que a luz, mas a chama é em menor grau do
que a luz o corpo que consiste nas partículas mais rarefeitas, ao passo que a
ambas deveria ser mais aplicável a definição se fossem a mesma coisa. Veja-
se, também, se uma expressão se aplica igualmente aos dois objetos que temos
diante de nós, ao passo que a outra não se aplica igualmente a ambos, porém
mais particularmente a um deles.

Deve-se ver, além disso, se ele expressa a definição relativa a duas coisas
tomadas separadamente; assim, o "belo" é o que é agradável aos olhos ou aos
ouvidos", ou o "real" é "o que é capaz tanto de agir como de ser objeto de
ação". Porque, nesse caso, a mesma coisa será ao mesmo tempo bela e não
bela, e, do mesmo modo, será ao mesmo tempo real e não real. Com efeito,
"agradável aos ouvidos" será o mesmo que "belo", forma que "não-agradável
aos ouvidos" será o mesmo que "não-belo", pois os opostos de coisas idênticas

também são idênticos entre si, e o oposto de "belo" é "não-belo", enquanto o
oposto de "agradável aos ouvidos" é "não-agradável aos ouvidos";
evidentemente, pois, não-agradável aos ouvidos" é o mesmo que "não-belo".
Se, por conseguinte, alguma coisa é agradável aos olhos, porém não aos
ouvidos, essa coisa será ao mesmo tempo bela e não-bela. De modo
semelhante, poderíamos também demonstrar que a mesma coisa é
simultaneamente real e irreal.

Finalmente, tanto dos gêneros como das diferenças e de todos os outros
termos expressos nas definições devem-se formular definições em lugar dos
próprios termos e verificar se há alguma discrepância entre eles.

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Se o termo é relativo, quer em si mesmo, quer com respeito ao seu gênero,
deve-se ver se a definição deixa de mencionar aquilo a que é relativo o termo,
quer em si mesmo, quer com respeito ao seu gênero: por exemplo, se o
contendor definiu o "conhecimento" como uma "concepção incontrovertível",
ou o "desejo" como uma "tendência sem dor". Porque a essência de todas as
coisas relativas é relativa a alguma outra coisa, visto que o ser de todo termo
relativo é idêntico ao guardar uma certa relação para com alguma coisa. O
definidor deveria ter dito, portanto, que o conhecimento é a "concepção de um
cognoscível" e que o "desejo" é a tendência para um bem". E do mesmo modo
se ele definisse a "gramática" como o "conhecimento das letras": pois na
definição deve-se expressar ou a coisa a que o próprio termo é relativo, ou
aquela, seja lá qual for, a que é relativo o seu gênero. Ou, então, veja-se se um
termo relativo não foi descrito em relação à sua finalidade, sendo a finalidade
de uma coisa qualquer o que há de melhor nela ou o que imprime o seu
objetivo ao resto. O que se deve expressar é certamente o que é melhor e o que
é final, por exemplo, que o desejo não visa ao agradável, mas ao prazer, pois
esse é o nosso objetivo também quando escolhemos o agradável.

Verifique-se, igualmente, se aquilo em relação ao qual ele expressou o
termo é um processo ou uma atividade, pois nada dessa espécie é um fim,
sendo a completação do processo ou da atividade mais propriamente um fim
do que o processo ou a atividade em si mesmos. Ou talvez esta regra não seja
verdadeira em todos os casos, pois quase todos preferem a experiência atual
do prazer à sua cessação, de maneira que esses considerariam como um fim
antes a atividade do que a sua completação.

Veja-se também, em alguns casos, se ele não distinguiu a quantidade, a
qualidade, o lugar ou outras diferenças de um objeto: por exemplo, a
qualidade e a quantidade da honra cuja busca torna um homem ambicioso:
pois todos os homens buscam a honra, de modo que não basta definir o
homem ambicioso como aquele que se esforça por alcançar a honra, mas é
preciso acrescentar