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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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as diferenças mencionadas acima. E analogamente, ao
definir o homem cúpido, deve-se indicar a quantidade de dinheiro que ele
ambiciona possuir, e, ao definir o homem incontinente, a qualidade dos
prazeres que o seduzem. Pois não chamamos incontinente ao homem que cede
a toda e qualquer espécie de prazer, mas apenas àquele que cede a uma
determinada espécie de prazer. E, por outro lado, há quem defina às vezes a
noite como uma "sombra sobre a terra", ou um terremoto como um
"movimento da terra", ou uma nuvem como uma "condensação do ar", ou o

vento como um "movimento do ar" - sem especificar também, como devia, a
quantidade, a qualidade, o lugar e a causa. E analogamente em outros casos
deste tipo, pois ao omitir uma diferença qualquer deixa-se de expressar a
essência do termo. Sempre se devem atacar tais deficiências, porque um
movimento da terra não constitui um terremoto, nem um movimento do ar é
um vento, sem mais especificações quanto à maneira de produzir-se ou à
quantidade implicada.

Quanto ao mais, em relação aos apetites e tendências e em qualquer outro
caso onde ela tenha aplicação, é preciso ver se a palavra "aparente" foi
omitida, por exemplo: "o desejo é uma tendência para o bom", ou "o desejo é
uma tendência para o agradável", em lugar de dizer "para o aparentemente
bom" ou o "aparentemente agradável". Pois muitas vezes aqueles que mostram
uma tendência não percebem o que é bom ou agradável, de modo que o seu
objetivo não precisa ser realmente bom ou agradável, mas basta que o seja
aparentemente. A definição, por conseguinte, devia ter sido formulada de
acordo com isto. Por outro lado, todo aquele que defende a existência das
idéias deveria ser colocado frente a frente com as suas idéias, mesmo quando
não pronuncia a palavra em questão: pois não pode existir nenhuma idéia de
alguma coisa que seja apenas aparente. A opinião geral é que sempre se fala
de uma idéia em relação com outra idéia: assim, o apetite absoluto tenderia
para o absolutamente agradável, e o desejo absoluto para o absolutamente
bom. Portanto, não podem ter em vista algo que seja aparentemente bom ou
aparentemente agradável: pois a existência de um bem ou de um prazer
absolutamente aparentes seria um absurdo.

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E igualmente, se o que se define é o estado de alguma coisa, examine-se o
que se encontra nesse estado; e, se o que se define é a própria coisa, examine-
se o estado; e da mesma forma nos demais casos deste tipo. Assim, se o
agradáve1 é idêntico ao benéfico, o homem que experimenta prazer é também
beneficiado. Falando em geral, nas definições desta espécie sucede que o que
se define é, em certo sentido, mais de uma coisa: pois, ao definir o
conhecimento, define-se também, em certo sentido, a ignorância, e igualmente
o que possui conhecimento e o que carece dele, bem como o que é conhecer e
o que é ser ignorante. Porque, se a primeira é posta em evidência, as outras
também se tornam evidentes em certo sentido. Assim, pois, em todos os casos
deste tipo devemos estar atentos às discrepâncias, usando os princípios
elementares derivados da consideração dos contrários e dos coordenados.

Além disso, no caso dos termos relativos, é preciso ver se a espécie é
apresentada como relativa a uma espécie daquilo de que o gênero é
apresentado como relativo: por exemplo, supondo-se que a crença seja relativa
a algum objeto de crença, deve-se ver se uma crença particular é enunciada
como relativa a algum objeto particular de crença; e, se o múltiplo em geral é
relativo a uma fração, deve-se ver se um múltiplo particular é enunciado como
relativo a uma fração particular. Porque, se não foram assim enunciados, é
evidente que se cometeu um erro.

Veja-se, também, se o oposto tem a definição oposta: por exemplo, se a
definição de "metade" é o oposto da definição de "dobro": porque se o "dobro"
é "aquilo que excede outra coisa por uma quantidade igual a essa outra coisa",
a "metade" é "aquilo que é excedido por uma quantidade igual a ela própria".
E da mesma forma com os contrários. Porque ao termo contrário se aplicará a
definição que lhe é contrária de alguma das maneiras pelas quais os contrários
se ligam um ao outro. Assim, por exemplo, se "útil" equivale ao que "produz o
bem", "nocivo" equivalerá ao que "produz o mal" ou "destrói o bem", já que
uma ou outra destas expressões necessariamente há de ser o contrário do
termo originariamente usado. Suponhamos, então, que nenhuma delas seja o
seu contrário: é evidente, neste caso, que nenhuma das definições
subseqüentemente formuladas poderá ser o contrário do termo que se definiu
originalmente: logo, tampouco a definição originária do termo originário pode
ter sido corretamente formulada. Visto, além disso, que dos contrários um é às
vezes uma palavra formada para denotar a privação do outro, como, por
exemplo, se considera geralmente a desigualdade corno a privação da
igualdade (pois "desigual" designa simplesmente as coisas que não são

"iguais"), é evidente que o contrário cuja forma denota privação deve
necessariamente ser definido por meio do outro, ao passo que o outro não
poder ser definido por meio daquele cuja forma denota privação, pois nesse
caso teremos que cada um deles se interpreta por meio do outro. No caso de
termos contrários devemos estar atentos a este erro, como, por exemplo, na
hipótese de que alguém definisse a igualdade como sendo o contrário da
desigualdade, pois nesse caso a estaria definindo por meio do termo que
denota a sua privação. Acresce que quem define dessa forma se vê obrigado a
usar na definição o próprio termo que está definindo, e isto se torna claro
quando substituirmos a palavra pela sua definição. Porque dizer
"desigualdade" é o mesmo que dizer "privação de igualdade"; portanto, a
igualdade definida desse modo seria "o contrário da privação de igualdade", e
o definidor teria usado a própria palavra que pretendia definir. Suponhamos,
entretanto, que nenhum dos termos contrários denote privação pela sua forma,
e contudo a sua definição se faça da maneira que mostrarmos acima: por
exemplo, que "bem" seja definido como "o contrário de mal"; então, como é
evidente que "mal" também será "o contrário de bem" (pois as definições de
coisas que são contrárias desta maneira devem ser formuladas de modo igual),
o resultado é, como antes, que ele usa o próprio termo a ser definido, uma vez
que "bem" é inerente à definição de "mal". Se, pois, o "bem" é "o contrário do
mal", e o mal nada mais é do que "o contrário do bem", segue-se que o "bem"
será "o contrário do contrário do bem". É evidente, pois, que ele usou a
própria palavra a ser definida.

Veja-se, também, se ao enunciar um termo cuja forma denota privação ele
não expressou o termo do qual o primeiro é a privação, por exemplo, o estado,
o contrário ou seja qual for a coisa de que a primeira é a privação; e também
se omitiu o acréscimo de qualquer termo em que a privação se forma
naturalmente, ou então daquele em que ela se forma primeiramente por
natureza: por exemplo, se ao definir "ignorância" como uma privação ele se
esqueceu de mencionar que é privação de "conhecimento"; ou, então, se
deixou de acrescentar a coisa em que ela se forma naturalmente; ou, embora
tenha mencionado esta, deixou de mencionar aquilo em que ela se forma
primeiramente, colocando-a, por exemplo, no "homem" na "alma" e não na
"faculdade racional": porque, se ele falha a qualquer desses respeitos, comete
um erro. E, do mesmo modo, se deixou de dizer que a "cegueira" é a "privação
da vista num olho": pois uma formulação apropriada da essência da cegueira
deve incluir tanto aquilo de que ela é a privação como aquilo que é privado.

Examine-se, ademais, se ele definiu pela palavra "privação" um termo que
não se usa para denotar uma privação: assim, no caso de erro, pensar-se-ia

geralmente