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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.373 seguidores
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da mesma forma, se se deve fazer bem aos amigos, não se
deve fazer bem aos inimigos; esta é também a contraditória da opinião
contrária à opinião geral: a contrária seria que se devesse fazer bem aos
inimigos. E analogamente nos demais casos.

Comparando entre si estas razões, parecerá também uma opinião geral que
o predicado contrário pertence ao sujeito contrário; por exemplo, se se deve
fazer bem aos amigos, deve-se também fazer mal aos inimigos, talvez pareça
também que fazer bem aos amigos seja o contrário de fazer mal aos inimigos;
mas se isso é ou não assim em realidade se decidirá durante nossa discussão
acerca dos contrários.

É também evidente que todas as proposições que se harmonizam com as
artes são proposições dialéticas; pois os homens estão predispostos a dar seu
assentimento aos pontos de vista daqueles que estudaram essas coisas: por
exemplo, numa questão de medicina concordarão com o médico, numa
questão de geometria, com o geômetra; e da mesma forma nos outros casos.

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Um problema de dialética é um tema de investigação que contribui para a
escolha ou a rejeição de alguma coisa, ou ainda para a verdade e o
conhecimento, e isso quer por si mesmo, quer como ajuda para a solução de
algum outro problema do mesmo tipo.

Deve, além disso, ser algo a cujo respeito os homens não tenham opinião
num sentido ou noutro, ou o vulgo tenha uma opinião contrária à dos
filósofos, ou a destes seja contraria à daquele, ou a de alguns filósofos seja
contrária à de outros. Quanto a alguns problemas, com efeito, é útil conhecê-
los com vistas na escolha ou na rejeição - como, por exemplo, se o prazer deve
ou não ser escolhido -, enquanto a outros é útil conhecer tendo unicamente em
mira o próprio conhecimento - por exemplo, se o universo é ou não eterno; e
outros, finalmente, não são úteis em si e por si mesmos para qualquer desses
fins, mas nos ajudam a solucionar outros problemas da mesma espécie; pois
há muitas coisas que não desejamos conhecer em si e por si mesmas, porém
com a mira em outras coisas e a fim de que, através delas, possamos vir a
conhecer essas outras.

Os problemas também incluem questões em relação às quais os raciocínios
se chocam (consiste então a dificuldade em se tal ou tal coisa é ou não assim,
havendo argumentos convincentes a favor de ambos os pontos de vista); e há
outros, realmente, a respeito dos quais não possuímos nenhum argumento, por
serem extremamente vastos, e temos dificuldade em expor nossas razões,
como a questão sobre se o universo é eterno ou não: pois também é possível
investigar questões desta classe.

Os problemas, pois, e as proposições devem ser definidos como acima.
Uma tese e uma suposição de algum filósofo eminente que esteja em conflito
com a opinião geral: por exemplo, a idéia de que a contradição é impossível,
como disse Antístenes; ou o ponto de vista de Heráclito, de que todas as coisas
estão em movimento; ou de que o ser é um, como afirma Melisso; pois
ocupar-nos com uma pessoa comum quando expressa pontos de vista
contrários às opiniões usuais dos homens seria tolice. Ou talvez se trate de
uma concepção sobre a qual tenhamos uma teoria raciocinada contrária às
opiniões usuais dos homens, por exemplo, a concepção defendida pelos
sofistas, de acordo com a qual o que é nem sempre necessita ter sido gerado
ou ser eterno, pois, um músico que é também gramático "é" tal sem jamais ter
"vindo a ser" tal nem ser tal eternamente. Porquanto, mesmo que um homem
não aceite tal teoria, poderia aceitá-la fundando-se em que é razoável.

Ora, uma "tese" e também um problema, embora um problema nem
sempre seja uma tese, visto serem certos problemas de tal espécie que não
temos sobre eles nenhuma opinião num sentido ou noutro. Que uma tese, por
outro lado, também constitui um problema, é evidente: pois do que dissemos
acima deduz-se necessariamente que ou a grande maioria dos homens discorda
dos filósofos no tocante à tese, ou uma ou a outra classe está em desacordo
consigo mesma, já que a tese é uma suposição em conflito com a opinião
geral. Em verdade, quase todos os problemas dialéticos são hoje em dia
chamados "teses". Mas não se deve dar muita importância à denominação que
se usar, pois o nosso objetivo ao distingui-los não foi criar uma terminologia,
e sim reconhecer as diferenças que podem ser encontradas entre essas duas
formas.

Não se deve examinar todo problema nem toda tese, mas apenas aqueles
que possam causar embaraço aos que necessitam de argumento, e não de
castigo ou percepção. Pois um homem que não sabe se devemos ou não honrar
os deuses e amar nossos genitores necessita de castigo, e aqueles que não
sabem se a neve é ou não é branca necessitam de percepção. Os temas não
devem aproximar-se demasiadamente da esfera da demonstração, nem
tampouco estar excessivamente afastados dela, pois os primeiros não admitem
nenhuma dúvida, enquanto os segundos envolvem dificuldades demasiado
grandes para a arte do instrutor.

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Estabelecidas estas distinções, devemos distinguir agora quantas são as
espécies de argumentos dialéticos. Temos por um lado a indução e por outro o
raciocínio. Já dissemos antes o que é o raciocínio; quanto à indução, é a
passagem dos individuais aos universais, por exemplo, o argumento seguinte:
supondo-se que o piloto adestrado seja o mais eficiente, e da mesma forma o
auriga adestrado, segue-se que, de um modo geral, o homem adestrado é o
melhor na sua profissão. A indução é, dos dois, a mais convincente e mais
clara; aprende-se mais facilmente pelo uso dos sentidos e é aplicável à grande
massa dos homens em geral, embora o raciocínio seja mais potente e eficaz
contra as pessoas inclinadas a contradizer.

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Assim, pois, as classes de coisas a respeito das quais e a partir das quais se
constroem os argumentos devem ser distinguidas da maneira que indicamos
atrás. Os meios pelos quais lograremos estar bem supridos de raciocínios são
quatro: (1) prover-nos de proposições; (2) a capacidade de discernir em
quantos sentidos se emprega uma determinada expressão; (3) descobrir as
diferenças das coisas, e (4) a investigação da semelhança. Os últimos três são
também, em certo sentido, proposições, pois é possível formar uma
proposição correspondente a cada um deles, por exemplo: (1) "o desejável
pode significar tanto o honroso como o agradável ou o vantajoso"; (2) "a
sensação difere do conhecimento em que o segundo pode ser recuperado
depois que o perdemos, enquanto a primeira não o pode"; e (3) "a relação
entre o saudável e a saúde é semelhante à que existe entre o vigoroso e o
vigor". A primeira proposição depende do uso do termo em diferentes
sentidos, a segunda das diferenças entre as coisas, e a terceira da sua
semelhança.

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As proposições devem ser escolhidas de um número de maneiras
correspondente ao número de distinções estabelecidas no tocante à
proposição: assim, podem-se tomar primeiro as opiniões sustentadas pela
totalidade dos homens, pela maioria deles, ou pelos filósofos, isto é, por todos,
pela maioria ou pelos mais eminentes; ou opiniões contrárias àquelas que
parecem ser geralmente admitidas; e, finalmente, todas as opiniões que estão
em harmonia com as artes. Devemos também formar proposições com as
contraditórias das opiniões contrárias às que parecem ser geralmente aceitas,
segundo se estabeleceu anteriormente. É igualmente útil formá-las
selecionando não apenas aquelas opiniões que são atualmente aceitas, mas
também as que se assemelham a estas, por exemplo: "a percepção dos
contrários é a mesma" (já que o conhecimento deles é o mesmo), e "vemos
pela admissão de alguma coisa em nós mesmos, e não por uma emissão" - pois
assim acontece no que se refere aos outros sentidos: ao ouvir, admitimos
alguma coisa dentro de nós mesmos, não emitimos