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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.419 seguidores
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da diferença, veja-se se a definição dada é
comum a esta e a alguma outra coisa. Por exemplo, sempre que se diz que um
número impar é um "número com um ponto médio" faz-se mister uma
definição ulterior que nos mostre de que maneira ele tem um ponto médio:
pois a palavra "número" é comum às duas expressões, e é a palavra "ímpar"
que se substitui pela frase. Ora, tanto uma linha como um corpo têm um ponto
médio, e contudo nenhum dos dois é "ímpar", de modo que esta não pode ser a
definição de "ímpar". Se, por outro lado, a frase "com um ponto médio" se usa
em vários sentidos, o sentido que se tem em vista aqui precisa ser definido. De
maneira que isto ou desacreditará a definição, ou provará que ela não é em
absoluto uma definição.

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É preciso ver, por outro lado, se o termo definido por ele é uma realidade,
ao passo que não o é o que está contido na definição. Suponha-se, por
exemplo, que o "branco" seja definido como "cor misturada com fogo": pois o
que é incorpóreo não pode misturar-se com um corpo, de modo que "cor
misturada com fogo" é algo que não pode existir, ao passo que o "branco"
existe realmente.

Além disso, os que, no caso dos termos relativos, não distinguem com que
se relaciona o objeto, mas descrevem-no apenas para incluí-lo num número
demasiado grande de coisas, erram ou totalmente, ou em parte. Suponhamos,
por exemplo, que alguém tenha definido a "medicina" como uma "ciência da
realidade". Porque, se a medicina não fosse uma ciência de alguma coisa real,
é evidente que a definição seria totalmente falsa; ao passo que, se ela é a
ciência de alguma coisa real, porém não de outras, a definição é parcialmente
falsa; pois deveria aplicar-se a toda a realidade, se se disse que é a ciência da
realidade de maneira essencial e não acidental, como acontece com outros
termos relativos: ora, todo objeto de conhecimento é um termo relativo a
conhecimento. E do mesmo modo também com outros termos relativos, dado
que todos esses termos são conversíveis. Por outro lado, se a maneira correta
de explicar uma coisa fosse defini-la não como é em si mesma, porém como é
acidentalmente, então todo e qualquer termo relativo se usaria não em relação
com uma coisa só, mas com uma porção de coisas. Porque não há motivo para
que a mesma coisa não seja ao mesmo tempo real, branca e boa, de modo que
seria uma formulação correta expressar o objeto em relação com uma qualquer
dessas coisas, se expressar o que ele é acidentalmente é uma maneira correta
de expressá-lo. E, além disso, impossível que uma definição desta espécie seja
peculiar ao termo proposto: pois não só a medicina, mas também a maioria das
outras ciências têm por objeto alguma coisa real, de modo que cada uma delas
será uma ciência da realidade. É evidente, pois, que uma tal definição não
define ciência nenhuma, visto que uma ciência deve ser peculiar ao seu termo
próprio, e não geral.

Às vezes, também, as pessoas definem não a coisa, mas apenas a coisa em
boas ou perfeitas condições. Tal é a definição do retórico como "um homem
que pode sempre ver o que será persuasivo nas circunstâncias dadas, sem nada
omitir", ou do ladrão como "aquele que furta em segredo": pois é evidente
que, se eles fazem isso, o primeiro será um bom retórico e o segundo um bom
ladrão: ao passo que não é o fato atual de furtar em segredo, mas o desejo de
fazê-lo, que caracteriza o ladrão.

Veja-se também se ele expressou o que é desejável em si mesmo como
desejável pelo que produz ou faz, ou, de um modo qualquer, desejável por
causa de alguma outra coisa, dizendo, por exemplo, que a justiça é "o que
preserva as leis", ou a sabedoria e "o que produz felicidade"; pois o que
produz ou preserva algo é uma das coisas desejáveis por causa de outra coisa.
Poder-se-ia objetar que é possível que o que é desejável em si mesmo seja
também desejável por causa de alguma outra coisa; contudo, nem por isso é
menos errado definir dessa maneira o que é desejável por si mesmo, pois a
essência contém principalmente o que há de melhor em qualquer coisa, e é
melhor que uma coisa seja desejável em si mesma do que por causa de outra
coisa, de modo que isto é também o que a definição deveria ter indicado de
preferência.

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Veja-se, também, se ao definir alguma coisa ele a definiu como formada
de "A e B", ou como um "produto de A e B", ou como uma soma de "A mais
B". Se ele a define como "A e B", a definição será verdadeira de ambos e,
contudo, não o será de nenhum deles. Suponha-se, por exemplo, que a justiça
seja definida como "temperança e coragem". Porque, se de duas pessoas cada
uma possui apenas uma dessas virtudes, ambas serão justas e, contudo,
nenhuma delas o será, porque ambas tomadas juntamente possuem a justiça,
porém cada uma delas em particular não a têm. Mesmo que a situação aqui
descrita não pareça por enquanto muito absurda devido à ocorrência de
situações semelhantes também em outros casos (pois é perfeitamente possível
que dois homens possuam uma mina entre eles, embora nenhum dos dois a
possua por si mesmo), ao menos pareceria totalmente absurdo que eles
possuíssem atributos contrários; e, no entanto, essa é a conclusão a que
chegamos se um deles é temperante, mas covarde, e o outro, embora valente, é
um libertino: pois nesse caso ambos se mostrarão ao mesmo tempo justos e
injustos: porque, se a justiça é temperança e bravura, então a injustiça será
covardia e libertinagem. De um modo geral, todas as maneiras de demonstrar
que o todo não é idêntico à soma de suas partes são também úteis para
enfrentar o tipo de definição que acabamos de descrever: pois um homem que
define desta maneira parece afirmar que as partes são iguais ao todo. Estes
argumentos são particularmente adequados aos casos em que o processo de
unir as partes é evidente, como numa casa e outras coisas do mesmo tipo; pois
em tais casos é bem claro que se pode ter as partes sem ter, porém, o todo, de
modo que as partes e o todo não podem ser a mesma coisa.

Se, contudo, ele disse que o termo que se está definindo é "o produto de A
e B", em vez de "A e B" simplesmente, veja-se, em primeiro lugar, se A e B
não podem, na natureza das coisas, ter um produto qualquer; pois algumas
coisas se relacionam entre si de tal modo que nada pode resultar delas, como,
por exemplo, uma linha e um número. Veja-se, igualmente, se o termo que foi
definido é da natureza das coisas que se encontram primeiramente num sujeito
único, enquanto as coisas que, segundo afirmou ele, o produzem não se
encontram primeiramente num sujeito único, mas cada uma num sujeito
separado. Se assim for, evidentemente o termo não pode ser o produto delas,
pois o todo tem forçosamente de encontrar-se nas mesmas coisas em que se
encontram as suas partes de modo que o todo se encontrará primeiramente não
num sujeito único, mas em vários deles. Se, por outro lado, tanto as partes
como o todo se encontram primeiramente num sujeito único, veja-se se este

não é o mesmo, mas uma coisa para o todo e outra para as partes. E examine-
se, igualmente, se as partes são destruídas juntamente com o todo: pois devia
acontecer, ao contrário, que o todo seja destruído quando o são as partes;
quando o todo é destruído, não há necessidade de que as partes o sejam
também. Ou, por outro lado, veja-se se o todo é bom ou mau e as partes nem
um nem outro, ou, vice-versa, se as partes são boas ou más e o todo nem um
nem outro. Pois é impossível tanto que uma coisa neutra produza algo bom ou
mau como que coisas boas ou más produzam uma coisa neutra. Examine-se,
também, se uma das coisas é mais eminentemente boa do que a outra é má
enquanto o produto não é mais bom do que mau: suponha-se, por exemplo,
que o desvergonhamento seja definido como "o produto da coragem e da falsa
opinião": aqui, o que há de bom na coragem excede o que há de