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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.419 seguidores
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literal ao que é numericamente um), podem examinar-se, à luz de
suas inflexões, derivados, coordenados e opostos. Com efeito, se a justiça é o
mesmo que a coragem, o homem justo será o mesmo que o homem corajoso, e
"justamente" o mesmo que "corajosamente". E da mesma forma no que toca
aos opostos, porque, se duas coisas são a mesma, seus opostos também serão o
mesmo em todas as formas reconhecidas de oposição, pois tanto faz tomar o
oposto de uma como da outra, visto que elas são a mesma. A questão também
pode ser examinada à luz daquelas coisas que tendem a produzir ou destruir as
coisas em apreço, da sua formação e destruição, e, falando em geral, de tudo
que se relacione de igual maneira a cada uma delas. Porque, quando as coisas
são absolutamente a mesma, também sua geração e destruição são a mesma, e
as mesmas são as coisas que tendem a produzi-las ou destruí-las. Veja-se
também, quando se diz que uma das duas coisas é tal ou tal em grau
superlativo, se a outra dessas coisas supostamente idênticas também pode ser
descrita por meio de um superlativo sob o mesmo aspecto ou relação. Assim,
por exemplo, Xenócrates afirma que a vida feliz e a boa vida são a mesma
coisa, já que de todas as formas de vida a boa vida é a mais desejável, como
também o é a vida feliz: pois "o mais desejável" e "o maior" aplicam-se a uma
só e mesma coisa. E analogamente também nos outros casos desse tipo.
Entretanto, cada uma das duas coisas designadas como "a maior" ou "a mais
desejável" deve ser numericamente uma: de outra forma, não se tem provado
que elas são a mesma; porque do fato de serem os peloponésios e os
espartanos os mais valorosos de todos os gregos não se segue que os
peloponésios sejam o mesmo que os espartanos, visto que "peloponésio" não é
uma pessoa qualquer, nem tampouco "espartano"; segue-se apenas que um
deve ser incluído no outro, como "espartanos" em "peloponésios"; pois, a não
ser assim, se uma classe não estiver incluída na outra, cada uma será melhor
do que a outra. Com efeito, neste caso os peloponésios serão forçosamente
melhores do que os espartanos, se uma classe não está incluída na outra: pois
eles são melhores do que quaisquer outros. E, do mesmo modo, os espartanos
serão melhores do que os peloponésios, visto serem também melhores do que
quaisquer outros: donde se conclui que cada um deles é melhor do que o
outro! Evidentemente, pois, o que se qualifica de "o melhor" ou "o maior"
deve ser uma coisa só para que se possa demonstrar que é "o mesmo" que
outra coisa. Esta também é a razão por que Xenócrates não consegue provar o
seu argumento, visto que a vida feliz não é numericamente uma, nem

tampouco a boa vida, e assim, do fato de serem ambas as mais desejáveis, não
se segue que sejam idênticas, mas apenas que uma está contida na outra.

Examine-se, igualmente, se, na suposição de ser uma delas a mesma que
uma terceira, a outra também é a mesma que esta: porque, se não forem ambas
idênticas a uma terceira, é evidente que tampouco serão idênticas entre si.

Deve-se, além disso, examiná-las à luz de seus acidentes ou das coisas de
que elas mesmas são acidentes: pois todo acidente que se predique de uma
deve também predicar-se da outra, e se uma delas se predica de alguma coisa
como acidente, o mesmo deve suceder com a outra. Se houver alguma
discrepância a qualquer destes respeitos, é evidente que elas não são a mesma.

Veja-se, ademais, se, em vez de pertencerem ambas à mesma classe de
predicados, uma significa uma qualidade e a outra uma quantidade ou relação.
E observe-se, também, se o gênero de ambas não é o mesmo, sendo um deles
o "bem" e o outro o "mal", ou um a "virtude" e o outro o "conhecimento"; ou,
se o gênero é o mesmo, veja-se se as diferenças que se predicam de cada uma
não são as mesmas, sendo uma, por exemplo, designada como uma ciência
"especulativa" e a outra como uma ciência "prática". E da mesma forma nos
demais casos.

Além disso, do ponto de vista dos "graus", veja-se se uma admite um
aumento de grau, porém não a outra, ou, se ambas o admitem, não o fazem ao
mesmo tempo; assim como, no caso do homem enamorado, não é verdade que
ele deseje tanto mais intensamente a união carnal quanto mais intenso for o
seu amor, de modo que o amor e o desejo das relações carnais não são a
mesma coisa.

Devem-se examinar também essas coisas por meio de uma adição e ver se
a adição de cada uma delas à mesma coisa não dá como resultado o mesmo
todo; ou se a subtração da mesma coisa de cada uma delas deixa um resto
diferente. Suponha-se, por exemplo, que ele.tenha dito que "o dobro de uma
metade" é o mesmo que "um múltiplo de uma metade": nesse caso,
subtraindo-se as palavras "uma metade" de cada uma dessas expressões, os
restos deveriam significar a mesma coisa, mas tal não acontece, pois "o dobro
de" e "um múltiplo de" não têm o mesmo significado.

Investigue-se, também, não apenas se alguma conseqüência impossível
resulta diretamente da afirmação feita, isto é, que A e B são a mesma coisa,
mas também se é possível fazer com que isso aconteça por meio de uma
hipótese, como no caso dos que afirmam que "vazio" é o mesmo que "cheio de

ar": pois é evidente que, extraindo-se o ar, o recipiente não ficará menos e sim
mais vazio, embora já não esteja cheio de ar. E assim, por meio de uma
suposição, que pode ser verdadeira ou falsa (não importa qual dos dois seja),
uma das duas características é anulada, porém não a outra, mostrando que não
são a mesma.

Falando de modo geral, deve-se estar atento a qualquer discrepância que
possa aparecer em qualquer parte e em qualquer espécie de predicado de cada
termo, assim como nas coisas de que estes se predicam. Porque tudo que se
predica de um deve também predicar-se do outro, e de tudo aquilo de que se
predica um deve também predicar-se o outro.

Além disso, como "identidade" é um termo que se usa em muitos sentidos,
deve-se ver se as coisas que são a mesma num sentido também são a mesma
num sentido diferente. Pois não há nenhuma necessidade, ou talvez nenhuma
possibilidade de que as coisas que são o mesmo específica ou genericamente
também o sejam numericamente, e o que nos interessa é se elas são ou não são
o mesmo neste sentido.

Veja-se, finalmente, se uma pode existir sem a outra; pois, se assim for,
elas não poderão ser o mesmo.

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Este é o número dos tópicos ou lugares que se refere à "identidade". É
evidente, pelo que ficou expresso acima, que todos os tópicos destrutivos no
que diz respeito à identidade são também úteis em questões de definição,
como dissemos anteriormente: pois, se o que é significado pelo termo ou pela
expressão não for a mesma coisa, é evidente que a expressão enunciada não
pode ser uma definição. Nenhum dos tópicos construtivos, por outro lado, tem
utilidade no que tange à definição, pois não basta demonstrar a identidade de
conteúdo entre a expressão e o termo para estabelecer que a primeira é uma
definição, mas uma definição deve possuir também todas as outras
características que já apontamos.

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Esta é, pois, a maneira, e estes são os argumentos por meio dos quais se
deve sempre tentar demolir uma definição. Se, por outro lado, o que
desejamos é estabelecer uma definição, a primeira coisa a observar é que
poucos ou ninguém, uma vez enredados numa discussão, chegam a formular
uma definição por meio do raciocínio: sempre pressupõem algo dessa espécie
como ponto de partida tanto em geometria como em aritmética e nos outros
estudos desse tipo. Em segundo lugar, dizer exatamente o que é uma definição
e como deve ser formulada são coisas que pertencem a outra classe de
investigação. De momento, o assunto nos interessa apenas na medida em que é
necessário ao nosso presente objetivo, e para isso basta afirmarmos
simplesmente que é perfeitamente possível raciocinar