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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.477 seguidores
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até chegar à definição e
à essência de uma coisa. Pois uma definição é uma expressão que significa a
essência da coisa, e os predicados que nela se contêm devem também ser os
únicos que se predicam da coisa na categoria de essência; e os gêneros e
diferenças são os únicos que se predicam nessa categoria. É evidente, pois,
que, se obtivermos a concessão de que tal e tal coisa são os únicos atributos
que se predicam nessa categoria, a expressão que as contiver será
necessariamente uma definição; com efeito, é impossível que a definição seja
algo diferente, visto não haver nada mais que se predique da coisa na categoria
de essência.

É evidente que uma definição pode ser obtida desse modo mediante um
processo de raciocínio. Os meios pelos quais ela deve estabelecer-se foram
descritos com mais precisão em outra parte, mas para os fins da investigação
que temos agora diante de nós servem os mesmos tópicos ou lugares. Com
efeito, devemos examinar os contrários e outros opostos da coisa, analisando
as expressões empregadas não só em seu todo como também em detalhe:
porque, se a definição oposta define o termo oposto, a definição dada será
necessariamente a do termo em questão. Visto, porém, que os contrários
podem interrelacionar-se de mais de uma maneira, devemos escolher entre
esses contrários aqueles cuja definição contrária parecer mais óbvia.

É preciso, pois, examinar as expressões em seu todo da maneira que
dissemos e também em detalhe, como segue. Em primeiro lugar, veja-se se o
gênero proposto foi enunciado corretamente; porque, se a coisa contrária se
encontrar no gênero contrário ao que se enunciou na definição, e a coisa em
questão não se encontra no mesmo gênero, é certo que se encontrará no gênero
contrário: pois os contrários devem necessariamente encontrar-se ou no
mesmo gênero, ou em gêneros contrários. E também se espera que as

diferenças que se predicam de contrários sejam contrárias, como, por
exemplo, as do branco e do preto, pois um tende a traspassar a visão, enquanto
o outro tende a comprimi-la. De modo que, se diferenças contrárias às da
definição se predicam do termo contrário, então as que são enunciadas na
definição devem predicar-se do termo em apreço. Visto, pois, que tanto o
gênero como as diferenças foram corretamente enunciados, é evidente que a
expressão dada será a definição correta.

Poder-se-ia objetar que diferenças contrárias não se predicam
necessariamente de termos contrários, a menos que estes estejam incluídos no
mesmo gênero: das coisas cujos gêneros são eles próprios contrários, pode
muito bem suceder que a mesma diferença seja usada de ambas, como, por
exemplo, da justiça e da injustiça, pois uma é uma virtude e a outra é um vicio
da alma: "da alma", portanto, é a diferença em ambos os casos, já que o corpo,
não menos que a alma, tem a sua virtude e o seu vício. Mas, pelo menos, é
verdadeiro que as diferenças dos contrários ou são contrárias, ou então são a
mesma coisa. Se, pois, a diferença contrária à diferença dada se predica do
termo contrário e não do termo a definir, é evidente que a diferença dada deve
predicar-se deste último. Falando de modo geral, uma vez que a definição
consiste no gênero e nas diferenças, se a definição do termo contrário for
manifesta, também o será a definição do termo que temos diante de nós: pois,
como o seu contrário ou se encontra no mesmo gênero ou no gênero contrário,
e, do mesmo modo, como as diferenças que se predicam de opostos ou são
contrárias ou idênticas uma à outra, é evidente que do termo em questão ou se
predicará o mesmo gênero que do seu contrário, ao passo que, das suas
diferenças, ou todas serão contrárias às do seu contrário, ou pelo menos
algumas delas o serão, enquanto as outras permanecerão as mesmas; ou vice-
versa, as diferenças serão as mesmas e os gêneros, contrários; ou, ainda, tanto
os gêneros como as diferenças serão contrários. E isso é tudo, já que não é
possível que ambos sejam idênticos: de outra maneira, os contrários teriam a
mesma definição.

Além disso, examine-se a questão do ponto de vista das inflexões, dos
derivados e dos termos coordenados. Pois os gêneros e as definições devem
por força corresponder-se em um e outro caso. Assim, se o esquecimento é a
perda de conhecimento, esquecer é perder conhecimento e ter esquecido é ter
perdido conhecimento. Se, pois, se concede ou admite uma destas formas, as
outras terão necessariamente de ser admitidas também. E, do mesmo modo, se
a destruição é a decomposição da essência da coisa, então ser destruído é ter
sua essência decomposta e "destrutivamente" significa " de maneira a
decompor a essência"; se, do mesmo modo, "destrutivo" significa "capaz de

decompor a essência de alguma coisa", segue-se que "destruição" também
significa "a decomposição da sua essência". E analogamente no que se refere a
todo o resto: obtenha-se a concessão ou admissão de uma qualquer dessas
formas, e todas as demais serão igualmente admitidas.

Examine-se também a questão do ponto de vista das coisas que estão em
relações semelhantes entre si. Porque, se "saudável" significa "que produz
saúde", "vigoroso" também significará "que produz vigor" e "útiI" "que
produz um bem". Pois cada uma dessas coisas se relaciona do mesmo modo à
sua finalidade peculiar, de forma que, se uma delas é definida como "o que
produz" a sua finalidade, essa será também a definição de cada uma das
restantes.

Deve-se, finalmente, considerá-la do ponto de vista dos graus maiores e
menores, de todas as maneiras em que seja possível chegar a uma conclusão
comparando as coisas duas a duas entre si. Assim, se A define a melhor s do
que B define B, e B é uma definição de B, também A será uma definição de a.
Além disso, se A tem os mesmos direitos a definir a que B a definir B, e B
define B, então A também define a. Este exame do ponto de vista dos graus
maiores não tem utilidade quando uma só definição é comparada com duas
coisas ou quando duas definições são comparadas com uma só coisa: pois não
pode haver uma definição única de duas coisas, nem duas definições da
mesma coisa.

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De todos os argumentos tópicos, os mais prestantes são os que acabamos
de intencionar e os que se baseiam nos termos coordenados e derivados. São
esses, por conseguinte, os que mais importa conhecer e ter ao alcance da mão,
porque são efetivamente os mais úteis na maioria das ocasiões. Também dos
restantes, os de mais valia são os que têm aplicação mais ampla e geral, pois
esses são os mais eficazes, como, por exemplo, o que manda examinar os
casos individuais e procurar ver se a sua definição se aplica às suas diversas
espécies. porque a espécie é sinônima dos seus indivíduos. Este tipo de
investigação é de especial utilidade contra aqueles que admitem a existência
das idéias, como se disse anteriormente. Veja-se, além disso, se o homem usou
um termo metaforicamente ou se o predicou de si mesmo como se fosse outra
coisa. Assim também deve ser empregado qualquer outro tópico ou regra geral
que tenha aplicação universal e efetiva.

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Que é mais difícil estabelecer do que demolir uma definição se tornará
evidente pelas considerações que vamos apresentar agora. Porque ver por nós
mesmos e obter daqueles a quem estamos interrogando uma admissão de
premissas desta classe não é coisa simples - por exemplo, que dos elementos
da definição formulada um é o gênero e o outro a diferença, e que só os
gêneros e as diferenças se predicam na categoria de essência. E, contudo, sem
essas premissas é impossível chegar pelo raciocínio a uma definição; porque,
se outras coisas quaisquer também se predicam do sujeito na categoria de
essência, não se pode saber se a fórmula adotada ou alguma outra é a sua
definição, pois uma definição é uma expressão que indica a essência de uma
coisa.