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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.501 seguidores
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Este ponto se evidencia também pelo seguinte: é mais fácil deduzir uma
conclusão do que muitas. Ora, ao lançar por terra uma definição, basta argüir
contra um ponto apenas (pois, se conseguirmos refutar um único ponto
qualquer, teremos demolido a definição); ao passo que ao estabelecer uma
definição temos de levar os outros a admitir que tudo que se contém na
definição é atribuível ao sujeito. Além disso, ao assentar alguma coisa, o
raciocínio que apresentarmos tem de ser universal: pois a definição formulada
deve predicar-se de tudo aquilo de que se predica o termo, e, por outro lado,
deve também ser conversível, para que a definição formulada seja peculiar ao
sujeito. Ao rebater uma opinião, pelo contrário, não há necessidade alguma de
demonstrar universalmente o nosso ponto de vista, pois basta mostrar que a
fórmula não é verdadeira de uma coisa qualquer que esteja incluída no termo.

Além disso, ainda supondo-se que seja necessário refutar alguma coisa
mediante uma proposição universal, nem mesmo assim há necessidade de
provar a forma inversa da proposição ao lançar por terra uma definição, pois
basta mostrar que esta não se predica de todas as coisas de que se predica o
termo para rebatê-la universalmente; e tampouco é necessário provar o inverso
disto para mostrar que o termo se predica de coisas das quais não se predica a
expressão. Acresce, ainda, que mesmo quando se aplica a todas as coisas
incluídas sob o termo, mas não somente a essas, a definição é rechaçada.

As mesmas considerações são também válidas no que diz respeito à
propriedade e ao gênero de um termo, pois em ambos os casos é mais fácil
demolir do que estabelecer. No que toca à propriedade, isso é evidente pelo
que já se disse acima, pois, por via de regra, a propriedade se expressa por
meio de uma frase complexa, de modo que para rebatê-la basta demolir um
dos termos usados, ao passo que para estabelecê-la é necessário alcançá-los
todos pelo raciocínio. Por outro lado, quase todas as regras que se aplicam à

definição aplicam-se também à propriedade de uma coisa. Pois, ao
estabelecer-se uma propriedade, é preciso demonstrar que ela é verdadeira de
todas as coisas incluídas sob o termo em questão, ao passo que para rebatê-la é
suficiente que ela não pertença ao sujeito num único caso; além disso, mesmo
que pertença a todas as coisas incluídas sob o termo, mas não só a essas, a
propriedade é refutada de igual maneira, como se explicou no caso da
definição.

No tocante ao gênero, é evidente que só se pode estabelecê-lo de um
modo, a saber: mostrando que ele se aplica a todos os casos, ao passo que há
duas maneiras de refutá-lo, pois, quem se demonstre que ele não se aplica
nunca, quer que não se aplica em certo caso, a afirmação originária é
demolida. Além disso, ao estabelecer um gênero não basta demonstrar que ele
se aplica, mas também que se aplica como gênero, ao passo que ao refutá-lo
basta mostrar que não se aplica ou a algum caso particular, ou a todos os
casos. Parece, com efeito, que, assim como em outras coisas é mais fácil
destruir do que criar, também nestes assuntos é mais fácil refutar do que
estabelecer.

No caso de um atributo acidental, a proposição universal é mais fácil de
rebater do que de estabelecer; porque, para estabelecê-la, deve-se demonstrar
que ele se predica de todos os casos, ao passo que para refutá-la basta mostrar
que não se predica de um só. A proposição particular é, pelo contrário, mais
fácil de estabelecer do que de refutar: porque para estabelecê-la basta
demonstrar que se predica de um caso particular, enquanto para refutá-la deve-
se demonstrar que não se predica de nenhum caso.

É evidente, também, que o mais fácil de tudo é demolir uma definição.
Porque, devido ao número de afirmações nela implicadas, a definição nos
oferece o maior número de pontos de ataque, e, quanto mais abundante for o
material, mais depressa surgirá um argumento, pois há mais probabilidades de
se insinuar um erro num número grande do que num pequeno número de
coisas. Além disso, os outros tópicos também podem ser usados como meios
de atacar uma definição: pois, quer a fórmula empregada não seja peculiar à
coisa, quer o gênero enunciado não seja o verdadeiro, quer alguma coisa
incluída na fórmula não pertença ao sujeito, a definição fica por igual
demolida. Por outro lado, contra os outros não podemos usar todos os
argumentos que derivam das definições, nem tampouco do resto: pois só
aqueles que se referem aos atributos acidentais se aplicam de modo geral a
todas as espécies supramencionadas de atributo. Com efeito, enquanto cada
uma dessas espécies de atributo deve pertencer à coisa em questão, é bem

possível que o gênero não lhe pertença como propriedade sem que por isso
tenha sido demolido por enquanto. E, do mesmo modo, tampouco é necessário
que a propriedade lhe pertença como gênero, nem o acidente como gênero ou
propriedade, contanto que lhe pertençam. É, pois, impossível usar um grupo
de coisas como base de ataque contra o outro, a não ser no caso da definição.
Donde resulta com toda a evidência que é a coisa mais fácil demolir uma
definição, enquanto estabelecê-la é a mais difícil. Pois aqui é preciso não só
estabelecer todos esses outros pontos pelo raciocínio (isto é, que todos os
atributos enunciados pertencem ao sujeito, que o gênero proposto é o
verdadeiro gênero e que a fórmula é peculiar ao termo) mas também que a
fórmula indica a essência da coisa em questão; e tudo isso se deve fazer
corretamente.

Quanto ao resto, a que mais se aproxima disto é a propriedade. Com efeito,
ela é mais fácil de rebater porque, por via de regra, contém vários termos; ao
passo que é a mais difícil de estabelecer, tanto por causa do número de coisas
que se deve levar os outros a aceitar como pelo fato de pertencer unicamente
ao seu sujeito e de predicar-se conversivelmente com ele.

A coisa mais fácil de todas é estabelecer um predicado acidental: pois nos
outros casos devemos demonstrar não só que o predicado pertence ao seu
sujeito, mas também que lhe pertence de tal e tal maneira particular; ao passo
que, no caso do acidente, basta mostrar simplesmente que lhe pertence. Por
outro lado, um predicado acidental é a coisa mais difícil de rebater, pelo fato
de oferecer um mínimo de bases para ataque: com efeito, ao afirmar um
acidente não se acrescenta de que maneira o predicado pertence ao sujeito; por
isso, enquanto em outros casos é possível refutar de duas maneiras o que se
disse - ou mostrando que o predicado não pertence ao sujeito, ou que não lhe
pertence da maneira particular enunciada -, no caso de um predicado acidental
o único meio de refutá-lo é demonstrar que ele não pertence em absoluto ao
sujeito.

Livro VIII

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Cabe agora discutir os problemas relativos à ordem e ao método que se
deve seguir ao propor questões. Todo aquele que tencione formular questões
deve, em primeiro lugar, escolher o terreno de onde lançará o seu ataque; em
segundo, deve formulá-1as e dispô-las mentalmente uma por uma; e, por fim,
passar atualmente a apresentá-las ao seu adversário.

Ora, no que toca à escolha do terreno e ponto de apoio, o problema é o
mesmo para o filósofo e o dialético; mas a maneira de estruturar os seus
argumentos e formular as suas perguntas pertence exclusivamente ao
dia1ético: pois em todo problema dessa classe está implicada uma referência à
outra pessoa. Com o filósofo e o homem que investiga por si mesmo, é
diferente: as premissas do seu raciocínio, embora verdadeiras e familiares,
podem ser rebatidas pelo que responde porque estão demasiado próximas da
afirmação originária, de modo que o outro prevê o que se seguirá se as
admitir; mas isso é indiferente ao filósofo. Pode até acontecer que esteja
ansioso para assegurar ou garantir axiomas tão familiares