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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.419 seguidores
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e tão próximos
quanto possível da questão a discutir: pois essas são as bases sobre as quais se
constroem os raciocínios científicos.

As fontes onde devemos colher nossos argumentos ou lugares já foram
descritas. Falta-no agora discutir o arranjo e formação das questões,
distinguindo em primeiro lugar as premissas, a1ém das necessárias que se
devem adotar. Por premissas necessárias entendem-se aquelas mediante as
quais se constrói o raciocínio atual. As outras que se podem formular a1ém
destas são de quatro espécies: ou servem para garantir indutivamente a
premissa universal que se está concedendo, ou para dar peso ao argumento, ou
para dissimular a conclusão, ou para tomar mais evidente o argumento. Fora
destas, não há nenhuma outra premissa que precise ser assegurada: são elas as
únicas por meio das quais procuraremos multiplicar e formular nossas
perguntas. As que se usam para dissimular a conclusão servem unicamente
para fins de controvérsia; mas, como um empreendimento desta espécie é
sempre conduzido contra outra pessoa, somos obrigados a fazer também uso
delas.

As premissas necessárias mediante as quais se efetua o raciocínio não
devem ser propostas diretamente e de forma explicita. Convém, pelo
contrário, que pairemos acima delas o mais longe possível. Assim, por
exemplo, se desejamos obter a concessão de que o conhecimento dos
contrários é um só, devemos pedir ao adversário que o admita não dos

contrários, mas dos opostos; porque, se ele conceder isto, argumentaremos em
seguida que o conhecimento dos contrários também é o mesmo, uma vez que
os contrários são opostos; se, porém, não o admitir, devemos obter a
concessão por via indutiva, formulando uma proposição nesse sentido com
respeito a algum par particular de contrários. Pois as premissas necessárias
devem ser asseguradas pelo raciocínio ou pela indução, ou então em parte por
um e em parte pela outra, embora quaisquer proposições que sejam demasiado
evidentes para ser negadas possam formular-se de maneira explícita. Procede-
se assim porque a conclusão que está por vir se discerne menos facilmente a
maior distância e no processo de indução, e, ao mesmo tempo, ainda que não
possamos obter dessa maneira as premissas de que precisamos, resta-nos o
recurso de formulá-las em termos explícitos. As outras premissas de que
falamos mais acima devem ser asseguradas com vistas nestas últimas. A
maneira de empregá-las respectivamente é a seguinte:

A indução deve proceder dos casos individuais para os universais e do
conhecido para o desconhecido; e os objetos da percepção são os mais bem
conhecidos, se não invariavelmente, ao menos pela maioria das pessoas. A
dissimulação de nosso plano se obtém assegurando por meio de
prossilogismos as premissas com as quais se construirá a prova da proposição
originária e pelo maior número delas possível. Isto se pode conseguir,
provavelmente, construindo silogismos que provem não apenas as premissas
necessárias mas também algumas daquelas que se fazem mister para
estabelecê-las. Evite-se, além disso, deduzir as conclusões dessas premissas,
reservando-as para ser formuladas mais tarde uma após a outra, pois isso
contribui para manter o adversário A maior distância possível da premissa
originária. Falando de modo geral, o homem que deseja obter informação por
um método ardiloso deve fazer as suas perguntas de tal maneira que, quando
tiver apresentado todo o seu argumento e formulado a conclusão, os outros
ainda perguntem: "Bem, mas por que isso?" A melhor maneira de obter esse
resultado é a que descrevemos acima; porque, se nos limitamos a formular a
conclusão final, não se evidencia de que maneira chegamos a ela: com efeito,
o adversário não pode prever em que fundamentos ela se baseia, já que os
silogismos anteriores não lhe foram expostos de maneira articulada, enquanto
o silogismo final, que formula a conclusão, será provavelmente menos
inteligível se, em vez de expor as proposições asseguradas em que ele se
baseia, nos limitarmos a apresentar os fundamentos em que se firmaram os
nossos raciocínios para chegar até ela.

É também uma regra útil não obter em sua ordem própria as concessões
necessárias como bases dos raciocínios, mas alternativamente as que

conduzem a uma conclusão e as que levam a outra; porque, se as que tendem
para o mesmo fim forem postas lado a lado, a conclusão que delas resultar se
tomará de antemão mais evidente.

Dever-se-ia, sempre que possível, assegurar a premissa universal por meio
de uma definição que diga respeito não aos termos precisos em si mesmos,
porém aos seus coordenados; pois as pessoas se enganam sempre que a
definição se refere a um coordenado, pensando que não fazem a concessão em
sentido universal. Por exemplo, se quiséssemos obter a concessão de que o
homem irado deseja vingar-se de uma ofensa aparente, levaríamos primeiro o
nosso adversário a admitir que a "cólera" é um desejo de vingança por causa
de uma ofensa aparente: pois é claro que, se isto ficar estabelecido, teremos
em sentido universal o que desejamos. Se, por outro lado, formularmos
proposições relativas aos próprios termos atuais, veremos que o adversário se
recusa muitas vezes a admiti-las, por ter sua objeção preparada contra esse
termo, por exemplo, que o "homem irado" não deseja vingança, uma vez que
podemos encolerizar-nos com nossos pais, mas não desejamos vingar-nos
deles. Muito provavelmente a objeção não será válida, pois no tocante a certas
pessoas é vingança suficiente causar-lhes mágoa e deixá-las aborrecidas; mas,
apesar disso, empresta uma certa plausibilidade e um ar razoável à recusa da
proposição. No que se refere, porém, à definição da "cólera" não é tão fácil
encontrar uma objeção.

Convém, além disso, formular nossa proposição como se não o fizéssemos
por ela mesma, mas a fim de conseguir alguma outra coisa, porque as pessoas
evitam conceder o que requer realmente o argumento do adversário. Falando
de modo geral, o que formula a questão deve deixar tanto quanto possível em
dúvida se o que ele deseja é obter uma admissão da sua proposição ou da
proposição oposta: porque, quando estão incertas sobre o verdadeiro objetivo
visado pelo adversário, as pessoas mostram-se mais dispostas a dizer o que
realmente pensam.

Procure-se também obter concessões por meio de semelhanças, pois tais
concessões são plausíveis e o universal que elas implicam é menos evidente.
Por exemplo: leve-se a outra pessoa a admitir que, assim como o
conhecimento e a ignorância dos contrários é a mesma coisa, também a
percepção dos contrários é a mesma; e, vice-versa, como a percepção é a
mesma, também o será o conhecimento. Este argumento parece-se com uma
indução, mas difere dela, porque na indução é a concessão do universal que se
obtém partindo dos particulares, ao passo que nos argumentos baseados na

semelhança o que se assegura não é o universal sob o qual se incluem todos os
casos semelhantes.

É também um bom estratagema fazer de vez em quando uma objeção
contra si próprio, pois os oponentes ficam desprevenidos contra aqueles que
parecem argumentar imparcialmente. E não é menos útil acrescentar: "tal e tal
coisa é geralmente admitida ou se diz comumente", porque as pessoas evitam
contrariar a opinião aceita, a menos que tenham alguma objeção positiva a
fazer; e, ao mesmo tempo, são precavidas em refutar tais coisas, que a elas
próprias parecem úteis. Além disso, não devemos mostrar-nos insistentes,
mesmo quando realmente necessitamos que nos concedam o ponto em apreço,
porque a insistência sempre faz recrudescer a oposição. Outra coisa: devemos
formular nossa premissa como se fosse uma simples ilustração, porque as
pessoas concedem com mais presteza uma proposição que serve outra
finalidade e não é exigida por ela mesma. Além disso, não convém formular a